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Mãi Xanda

Brito-Semedo, 3 Set 11

   

Xanda.jpeg

Foto de M. Brito-Semedo, Praia, 2009

 

 

Alexandra Luísa Brito

 

S. Vicente, 24.Fev.1936 – 04.Set.2009

 

 

A Empresa das Águas do Madeiral que, a 27 de Maio de 1886, fez chegar as águas das nascentes do Madeiral e do Madeiralzinho à cidade do Mindelo, está associada a todo o mindelense nascido até aos finais da década de 50, princípios de 60. Depois disso, há os da geração da água dessalinizada – os da água da Jaida[1], nas décadas de 60 e 70, e os da água da Electra[2], depois disso.

 

A água do Madeiral era armazenada no depósito situado no Largo da Estação, hoje Praça Baltasar Lopes da Silva, com a entrada do público para a compra de água – em vales de dois tostões a lata – nas fachadas  maiores do prédio e a entrada geral, do lado que dá para o largo onde hoje é a praça de táxis. Junto a cada uma das entradas postava-se um número razoável de mulheres e meninas a vender de tudo um pouco, especialmente produtos comestíveis, para satisfazer as pessoas que para lá iam, para a bicha, de manhã muito cedo.

 

Nos inícios de 1950, Xanda, uma m’nininha b’nitóna[3] filha de Nha Liza, então com 17 anos, vendia cuscuz nesse largo, encostada a uma das suas esquinas mais movimentadas.

 

Recém chegado a S. Vicente, o “18”, um polícia da Praia, alto, simpático e de sorriso largo, de seu nome próprio Estêvão, na sua primeira semana de trabalho, levou Xanda para a Esquadra por, segundo ele, ter infringido a lei, vendendo na via pública. Pura implicância, dizia a menina, pois ela não era a única, mas só a ela tinha “levado para baixo”, ao que contrapunha o polícia dizendo que as outras vendedeiras tinham fugido quando o viram chegar.

 

No quintalão da Polícia, Xanda, aflita, lamentava o cuscuz a esfriar no binde enquanto tinha de esperar não sei o quê ali, naquele lugar. E o produto da venda que tanta falta fazia lá em casa!... A Mãi Liza ia ficar zangada, pensava ela, e era bem capaz de ir ao Madeiral tomar satisfação àquele polícia de m…! Ia ser um escabeche[4]!

 

A verdade é que Xanda foi mandada embora horas depois, não antes de a aconselharem a não vender mais na rua!

 

Por essa ocasião, Nha Liza lavava e engomava para fora e tinha alguns polícias a quem servia refeições. Foi com esse pretexto que o “18”, que tinha arranjado um quarto para os lados do Lombo de Trás, se aproximou da família e não tardou a pedir a Xanda em namoro.

 

A Nha Liza, que gostava do “18”, rapaz simpático, sport[5]e sempre esticadinho (“apesar de badio[6]”, dizia ela), fingia que não percebia o que se estava a passar, até que deu conta de que a filha estava grávida! Chamado a capítulo, já que a Xanda era menor e isso era casamento ou dava cadeia, Estêvão procurou acalmar a fúria da Nha Liza dizendo que tinha boas intenções. A Xanda viria a saber, tempo depois, que o “18” tinha outra. E com mágoa, via-o passar ao longe em direcção à casa da nova namorada!

 

Certo dia, o “18” aproximou-se da Xanda com uma conversa de que tinha sido transferido para a Praia, que já tinha tratado com um colega para ficar com a responsabilidade de “registar o menino” em seu nome, que não se preocupasse, que ia correr tudo bem, etc., etc. Ah, havia mais uma coisa: precisava que lhe devolvesse a caminha beliche de ferro, que lhe tinha dado, porque tinha de a devolver, por sua vez, à Esquadra da Polícia!

 

Dias depois Estêvão partia para a Praia, só voltando a S. Vicente e a dar notícias onze anos depois!

 

A Xanda aguentou o resto da gravidez sozinha, dormindo na “cama de pau”[7] da mãe, sempre esperando alguma notícia daquele “macóque[8] e ingrato de m...!”

 

Compreende-se hoje a obsessão da Xanda em trazer da Itália uma boa e bonita cama de casal em ferro forjado, mais de cinquenta anos depois de se ter visto obrigada a devolver a caminha de ferro ao pai do seu filho.

 

Xanda.jpeg

Foto de M. Brito-Semedo, Praia, 2009

 

O parto, ocorrido na casa da Chã de Cemitério, na cama da Nha Liza, foi muito difícil e trabalhoso – só viria a acontecer muito tarde da noite, depois de muito trabalho – porque o menino era muito gordinho e preguiçoso e a mãe, inexperiente, não ajudava muito.

 

A Nha Júlia, nossa vizinha e minha parteira, contava-me este último episódio vezes sem conta, dizendo naquele seu jeito maroto, que eu tinha “maltratado” muito a Xanda e que, até ela (Nha Júlia) morrer, eu não lhe poderia pagar pela canseira que teve comigo.­ É que ela ficou com o pescoço intriço[9] por quinze dias, pela forma como a Xanda a agarrou durante as contrações e na hora da expulsão da criança!

 

Sempre fui uma criança muito agitada, com “bicho-carpinteiro no corpo” como diziam, e a Xanda interpreta isso com o facto de eu ter nascido nas vésperas da festa de Santa Cruz, na Salamansa, dia de muita trupida[10], do tocar-tambor, do colar[11] e de muita confusão (1.º de Maio), seguida das festas juninas de Santo António e São João, na Ribeira de Julião, e de São Pedro, em São Pedro.

 

Cresci a ouvir dizer que o meu pai era um badio de Praia que tinha sido polícia em S. Vicente e abandonara a minha mãe quando ela ficara grávida, tendo pedido, na sequência, a sua transferência para a ilha de Santiago. E como eu sofria nas mãos dos meninos da escola quando, no início do ano lectivo, tinha de levar o boletim de nascimento, onde constava a designação “filho de pai incógnito”, que eles, mauzinhos, deturpavam para “filho de pai incóca (... pai de cócoras)”!

 

Farto dessas provocações, um dia cheguei a casa muito revoltado, indo directo à Xanda perguntar-lhe o que ela tinha feito ao meu pai para ele nos ter abandonado daquela maneira! A resposta pronta foi uma bofetada, seguida de um choro lento e dorido da minha mãe. Sem perceber que a tinha magoado, fugi para o quintal para dar vazão à minha raiva.

 

M. Brito-Semedo, Filho Saudoso e Grato

 
Nota: Post inicialmente editado a 26 de Março de 2010, agora reeditado para assinalar o 2.º aniversário da partida da Mãi Xanda para a eternidade.
 
 

[1] Junta Autónoma das Instalações de Dessalinização de Água.

[2] Empresa Pública de Electricidade e Água, criada a 17 de Abril de 1982.

[3] Menininha muito bonita.

[4] Confusão.

[5] Elegante.

[6] Nativo de Santiago.

[7] Cama de madeira, por oposição à cama de ferro.

[8] Macaco

[9] Inteiriço (tradução literal), ficar com torcicolo.

[10] Movimento de muita gente.

[11] Cantar ou falar em voz alta.

 

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11 comentários

De Lélise a 26.03.2010 às 14:11

Fazendo jus à máxima “Mais vale tarde do que nunca”, queria felicitar-te por este excelente blog, pela qualidade e actualidade das informações que colocas à disposição dos leitores e visitantes da página. E, como não poderia deixar de ser, felicito-te pelo tributo a uma das mais LINDAS MULHERES cabo-verdianas que já vi em toda a minha vida! Refiro-me, como é óbvio, à nossa saudosa e inesquecível Mãi XANDA que continua e continuará bem viva no coração e na memória dos seus três filhos e, acredito, na de todos os familiares e amigos que com ela em vida conviveram.
Com mais este teu pequeno-grande gesto de carinho, acabas de brindar os teus irmãos, familiares e, quiçá, todas as cabo-verdianas trazendo à ribalta a figura de uma mulher tipicamente cabo-verdiana, exemplo de muita coragem e luta por uma vida desafogada e, sobretudo, grande amiga e fã ferrenha dos seus filhos que tanto adorava e de quem não se cansava de se orgulhar.
Sabes que sou comedida em tecer elogios gratuitos a quem quer que seja, mas não ficaria de bem com a minha consciência se não massageasse um pouco o teu ego, reagindo, ainda que, com uma pequena frase à tua entrada no mundo dos bloguistas. Vejo-a, meu irmão, como mais uma prova e fruto de um trabalho sério e de qualidade que tão bem sabes colocar em tudo o que fazes no campo literário e onde, pelas provas dadas, te sentes como peixe na água. Deste modo, junto a minha voz à de todos aqueles que, conhecendo a tua veia literária, têm-se desfeito em rasgados elogiados aos teus escritos.
Os meus parabéns e votos de continuação de sucessos. Bem haja, Mánesk.
Bijin
Lélise

De Brito-Semedo a 26.03.2010 às 15:57

Mana, Lélise, O teu comentário e reconhecimento público deixaram-me comovido. Felizmente que tive o privilégio de ler este texto à Mãi Xanda no dia 01.Junho.10, o meu primeiro e único Dia da Criança, e de ouvir a sua apreciação: "B'nit i triste!" Felizmente também que foi a tempo que lhe dediquei o "Na Esquina do Tempo - Crónicas de Diazá", um mês antes de ela partir para a eternidade. Em relação à Mãi Xanda e à Mãi Liza (as minhas mulheres cabo-verdianas!), sei que apreciaram as flores dadas em vida. Bem hajam, ambas!

De Anónimo a 26.03.2010 às 16:28

Como te pareces com tua mae e como ela era bonita!!! Ainda nao li o artigo, mas quando o fizer irei comentar o conteudo.
Minha continua admiracao.

De Brito-Semedo a 26.03.2010 às 18:03

Um silogismo simples: sou parecido com a minha mãe (toda a gente o diz e talvez seja pelo nosso sorriso); a minha mãe era bonita; logo, sou bonito, porque sorridente (ha,ha,ha)! Com esta minha tirada, a Mãi Xanda diria: Bazôfe! Nha Fidje ê basôôôôfe!

De Valdemar Pereira a 20.06.2011 às 06:15


Foi uma viagem à minha adolescência, nos 17 anos, rememorando uma imensa raiva que estragou a vida dos meninos do Largo quando apareceu quem havia de levar uma das namoradas que embelezavam os nossos sonhos. A raiva ia triplicando porque ele era "maior", "era forasteiro" e - pior - "era polícia". Tudo de inaceitável, se é que podia haver qualquer coisa de aceitável no universo dos meninos sonhadores que foram preteridos.
Xanda era nossa vizinha e, mesmo se não brincávamos juntos (rapazes de um lado e meninas em casa), isso era  insuportável.  Lembro-me de, nos conciliábulos, aparecer um mais ousado que se prontificou a esperar o malvado e aplicar-lhe uma pedrada de rachar a cabeça: "Dou, fujo e vocês não dizem nada. Aquele que disser sai do grupo".
É evidente que foi dissuadido de tal acto que teria consequências muito graves não só para o destemido como para os outros que arriscavam ainda uma sova dos respectivos pais. Mas a raiva ficou e reaparecia quando a Xanda passava, levando o seu cuscus quente às pessoas que o pediam para o cafézinho de manhã, com sinais evidentes de gravidez cada vez mais acentuados.
Ai, a raiva transformou-se em pena (para a adolescente abandonada) e ódio latente ao macaco do polícia responsável de uma coisa que nunca havia de nos passar pela cabecinha nessa idade.
Saí e uma chapa caiu nesse episódio da vida.
Agora vejo a estória completa contada pelo filho que não cheguei a conhecer. Ele devia ter os seus 4 aninhos quando eu tomava outro rumo com ajuda logística do tio da sua saudosa mãe.
 
Obrigado por esta viagem no tempo (adolescência) e no espaço (nossa Chã do Cemitério).
 

De Brito-Semedo a 20.06.2011 às 12:48

Agora compreendo porque nos encontramos neste espaço! Estava para ser! É como digo, "na (minha) Natureza nada se perde, tudo se atrasa"! Como pode calcular, fiquei (e ainda estou) emocionadíssimo e tive que dar algum tempo para poder responder a este seu comentário. Resta-me o consolo de saber que, a despeito da minha vinda atribulada e infância difícil, dei muitos momentos de alegria à Mãi Liza e à Xanda . Ambas tinham muito orgulho em mim. Que Deus as guarde na Glória!
Ao Valdemar, Filho do Nhô Hermínio de Telegraph , o meu reconhecimento profundo. Braça forte!

De Adriano Miranda Lima a 04.09.2011 às 18:12


Uabáaaa! Como me comovi a ler esta crónica do Manuel, que, mais do que uma excelente peça literária, é um sincero testemunho e uma sentida homenagem à heroína que foi a sua mãe Xanda. Como se não bastasse, o testemunho  de Valdemar Pereira acrescenta-lhe  uma emoção temperada pela sua própria vivência pessoal .  Mas a homenagem transfere-se de um modo geral a todas as mães cabo-verdianas, quase todas heroínas na superação das dificuldades da vida e, quantas vezes, no silêncio solitário das suas provações e dramas pessoais, para criarem os seus filhos com altivez e dignidade. Sem querer execrar a natureza masculina do homem cabo-verdiano, que bem merece que o faça, a verdade é que sempre que ele deixou por mãos alheias o défice das suas obrigações e responsabilidades morais, e não poucas vezes assim aconteceu, o vazio só não o foi porque inteiramente preenchido pelo imenso coração da mãe cabo-verdiana. As nossas mães merecem uma estrondosa ovação em todos os lugares de Cabo Verde e em todos os tempos. Razão teve Victor Hugo para afirmar: "Os braços de uma mãe são feitos de ternura e os filhos dormem profundamente neles."

De Adriano Miranda Lima a 04.09.2011 às 20:27


Faltou-me dizer que apreciei ver a luminosidade dos bonitos e grandes olhos da nha Xanda. Já estou como o Valdemar. Também seria capaz de escorraçar o polícia, que não merecia tal dádiva da natureza. Ela deve estar feliz lá onde neste momento se encontra por ter deixado um filho bem prendado para dar continuidade ao testemunho da sua humanidade. E também da da sua mãe nha Liza.

De Brito-Semedo a 04.09.2011 às 21:09

Caro Amigo, Imagine que saiu no jornal "A Semana", de 26 de Agosto, pp., na sua secção 'Carta do Leitor' um texto assinado por um dos 24 filhos (segundo as contas dele) do meu pai, intitulado 'A Ingratidão de um Filho', onde sou o visado.
A acusação é a seguinte: "Disse que o homem que é hoje deve-se à avó. Só não disse que se não fosse o Sr. Estêvão, ninguém o reconheceria hoje ou talvez estaria no Cais do Porto Grande como muitos que as mães abandonaram em troca de emigração, ou talvez morto". No comment! Braça!

De judith wahnon a 05.09.2011 às 01:45

Amigo Manuel ,   Esse testemunho sobre a tua Mae , uma senhora  que admiro pela sua coragem, o geito digno com que criou o filho  perante todas as dificuldades, practicamente sozinha,   abandonada por um homem que nao lhe deu o valor que ela merecia, e mesmo comovente.  Imagino  a luta dela, desde novinha a vender cuscus para se sustentar, e depois ficar com um filho no colo , e sem o pai. Mas Deus sempre ajuda quem e bom, e la estava tua Avo tambem para lhe dar o apoio, e ve agora ,,,,a pessoa que elas criaram !Deves ter muito orgulho de tudo isso, e com toda a razao.  O que me comoveu muito tambem,,,,foi ver a tua Mae com a sua bela cama italiana ! nunca e tarde para termos um sonho realizado nao e mesmo?? Admiro a Xanda, desde que li a tua storia sobre a tua formatura em que ela disse " viva quel vim , viva quel bole",  foi outro sonho realizado, mesmo que anos depois... Que estorias lindas, tens para compartlhar, de lutas,conquistas,  e vitorias. Que Deus de descanso a alma de tua querida Mae, que la de cima sera sempre o  teu anjo da guarda. Bijim

De Luiz Silva a 05.09.2011 às 10:40

Na verdade a recuperação do prédio do Madeiral foi uma grande contribuiçao para a historia da agua em São  Vicente pelo  Dr. Onésimo Silveira. No outro lado do Madeiral ele mandou construir uma praceta, conhecida por Parlamento, devido aos comentarios que ali se fazem sobre a sociedade mindelense. Ali joga-se muita bisca e também o uri com menos assiduidade em relaçao aos outros locais onde se pratica o uri com muito nivel. Chama-me Largo do Tribunal mas quem conhece o prédio ao lado que hoje foi recuperado pelos Tribunais e onde residiu o Senhor Augusto Miranda, jornalista e polemista dos mais importantes de Cabo Verde, por mais de trinta anos, estranha ue esse largo nao seja chamado Largo Augusto Miranda ou Margo Nhô Gusto Miranda como era chamado pelos amigos e vizinhos da rua de Côco. Sugerimos à Camara Municipal que atribua a esse espaço o nome de Largo Augusto Miranda, defensor da cidade do Mindelo e autor de varios artigos em sua defeza no jornal Noticias de Cabo Verde.

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