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Não Há Silêncio Que Não Termine

Brito-Semedo, 16 Jan 11

Os momentos mais dramáticos de sua longa crônica de desventuras certamente são as desesperadas tentativas de fuga. Decidida a recuperar sua liberdade a qualquer custo, Ingrid tentou escapar diversas vezes, sendo invaria-velmente recapturada pela guer-rilha, faminta e perdida na selva. Obrigada ao convívio quase permanente com os companheiros de sequestro, a autora relembra a rotina tensa do cativeiro, em que a posição de um colchão ou uma suspeita de favorecimento na distribuição de comida geravam desentendimentos por vezes violentos. Ingrid revisita os diversos acampamentos, mais ou menos provisórios, em que foi mantida prisioneira, associando-os às figuras sinistras dos diversos captores e carcereiros que fizeram parte de seu cotidiano ao longo dos anos. A vítima retrata seus algozes sem rancor, descrevendo-os em sua miséria política e humana. O bem-sucedido fim do sequestro, em Julho de 2008, encerra o livro num tom de cautelosa esperança, dedicado à preocupante situação dos reféns ainda em poder das FARC.


"[...] Levantei-me. Diante de mim, a mata cerrada e aquela chuva torrencial que viera atender a todas as minhas preces dos dias anteriores. Eu estava do lado de fora, não havia recuo possível. Precisava agir depressa. Assegurei-me de que o elástico que prendia meu cabelo estava no lugar. Não queria que a guerrilha encontrasse o menor indício do caminho que eu ia pegar. Devagar, contei: um... dois... No três, parti, em frente, para a selva. Eu corria, corria, tomada de um pânico incontrolável, esgueirando-me das árvores por reflexo, incapaz de ver, de esperar, de pensar, sempre em frente, até a exaustão.


Enfim, parei e dei uma olhada para trás. Ainda conseguia ver a entrada da selva como uma claridade fosforescente entre as árvores. Quando meu cérebro voltou a funcionar, me dei conta de que estava recuando automaticamente, incapaz de me resignar a partir sem Clara. Relembrei, uma a uma, todas as nossas conversas, repassando as recomendações combinadas entre nós. Uma em particular me vinha à memória e a ela eu me agarrava com esperança: se nos perdêssemos na saída, nos encontraríamos nos chontos. Tínhamos falado disso uma vez, de passagem. [..]" – in Livraria da Travessa

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Íngrid Betancourt Pulecio (Bogotá, 25 de Dezembro de 1961) é uma senadora e activista anticorrupção franco-colombiana. Foi raptada pelo grupo guerrilheiro (que usa métodos considerados terroristas como, por exemplo, o sequestro) FARC em 23 de Fevereiro de 2002 enquanto fazia campanha para as eleições presidenciais. Betancourt permaneceu cativa até o dia 2 de Julho de 2008, quando o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, anunciou a sua libertação juntamente com outros Catorze reféns.

 

Título: Não Há Silêncio Que Não Termine: Meus Anos de Cativeiro Na Selva Colombiana

Nº. de Páginas: 560

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2010

 

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