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Recordando Nhô Djunga Fotógrafo

Brito-Semedo, 16 Abr 11

 

Djunga.jpeg

Foto gentilmente cedida por Judith Wahnon

 

 

 João Cleófas Martins, Djunga Fotógrafo

 

(S. Vicente, 28 de Agosto de 1901 – 27 de Agosto de 1970)

 

 

Sr. Presidente de Cambra,

 

Eu venho dizer você come na porta de meu casa tem um degrau de scada que não tem condição de gente pôr pé. Se você quer saber onde eu mora, você vai na rua de Nha Rosa das Seca, você sobe naquêl muntim que sta na fim de rua, você pergunta quês gente que mora lá, pamode eu sou uma senhora de posição que tude gente conhece. Eu sei como você ê um home que tem juize na cabeça, e por isso você manda ranjar quel degrau de scada de sacada para eu não quebrar meu nariz naquel degrau de scada.

 

Deus defenda se eu vai ter prigo naquel degrau de scada! Eu sou pessoa pra dar você um rabencada de pedra na fio de canela. Você não pensa que eu tem medo de você. Eu não tem medo de você, nem de nenhum gente de Cambra. Se eu quebrar meu nariz naquel degrau de scada, você não passa sabe com eu; se você não sabe quem eu é, você pergunta tude gente de Sanvecente. Eu sou um senhora fina, graças a Deus, mas tambem eu sabe ser desaforada pra quem pisa meu cale. Vocês não sabe pensar, naquel Cambra de nô sê que diga! Se eu não era um senhora que tem iducação, eu mandava vocês tude pra bardamerda.


Vocês quer é boa vidinha na Baía das Gaitas, mas era melhor se vocês mandava ranjar degrau de scada de cada um.


Você disculpa, mas é assim que eu é. Eu fala clare tudo quanto eu pensa na meu coraçom. Se vocês não manda ranjar quel degrau de scada depressa, eu pede praga e meu praga velha pega.


Vocês tem fazide só asnera nês terra de porcaria; morada stá intupide de tude casta de porcaria que chuva trazeu, pamode vocês acabou com riguim. Tude merda que vinha de fora corria na riguim e calçada de rua ficava limpe. E você sabe come tude gente vai baxar trás de casa de gente, pamode pliça já acabou na Sanvecente. Se vocês tinha olho na cara, vocês via come tude stá largade na pôc respeite. Agora só falta gente fazer asnera na meie de rua. Desafor!


Vocês sta dar mandrongue mais consideração que gente de nôs terra, pamode vocês stá intepide de medo duns pliça de Lisboa qu’els chama Pide. Sanvecente já acabou na nada! N’aquês tempe antigue tude cosa era fazide nas direita. Mas agora, tude gente grande, de posição, stá desnortiada. Até senhor Governador, hôme de grande posição, que tem seu peite renquiode de midalha, moda rei de nôs terra, já desnortiou tambê. Els disse como senhor Governador ê nôs pai, mas ê um pai que não vale a pena. Els disse como senhor Governador mandou trazer uns português de Lisboa pra trabalhar na strada das ilha, mas tude pove disse come quês português que veio de Lisboa ê um casta de gente que só quer encher barriga, pamode chuva stá stragar tude strada quês tem fazide. Els disse eu tambem que seu governador btou discurse na ilha de Fogo aonde el disse como quês português tem curso de strada, e se chuva levou strada pa mar, els não tem culpa pamode chuva foi muite forte. Mas agora el manda ramendar tude pra ficar uma coisa más forte. (Ma pêl bem de céu) Els disse eu come tude pove de Santantão stá muite gravode, pamode quês português que tem curso de strada tem gastode dinher cma area naquel terra mas gente ainda não viu resultade de benefíce. Eu recebi um carta de Santantão aonde els manda dizer eu como quês português sta stragar um porrada de conte de reis pa fazê um escola fina que até gente faz sirvice pxada pa linha.


Senhor Governador disse come Lisboa ê que manda dinher, mas el não disse come Lisboa que manda quês português pra vir levar quel dinher trovês. Que Deus manda chuva pra els ver rasultode de seu service. Se senhor Governador tinha vergonha na cara, el mandava racambiar tude quês português de Lisboa. Se ês cria bem de nôs terra, ês mandava quel data de dinher, sem português de Lisboa, e gente das ilha trofegava nele. Nhô Manel Damechó disse come quês dotor d’hospital disse come senhor Governador stava tacode dum doença muite perigosa quê chamada doença técnica. Senhor Governador mandou chamar senhor Dr. Fonseca para fazer ele operação, mas senhor dotor Fonseca disse come el não põe faca pamode não sabe se quel doença stá na cabeça ou na barriga. Boca de pove disse como senhor Governador stá pegar mute gente quel doença.


Senhor Presidente, você toma muite cuidade com o seu engenher de Cambra pamode el não conhece pobréza de nôs terra e sta tacode de mesma doença que senhor Governador. Mesme quel conhece pobréza de nôs terra, el só vai stratar de riqueza de seu gilbera. Ele vai ric pra Lisboa e deixa você na mau posição.


Nunca português de Lisboa ranjou tante nota na nôs terra cma agora! Agora que estou a ver pamode quês gente de Angola tem quês português tromentode. Senhor Salazar, quel quê Rei de Lisboa, disse come tude português que vai pra terra d’África vai pra ensinar amor na nome de Cristo. Mas ê mentira, pamode se els ia na nome de Cristo, desde quel tempe antigue atê hoj-im-dia, ês tude, branco e prete, já era irmão; stava tude na mesma camada.


Els disse eu como senhor Governador vai mandar um tal senhor Bento Levy pra Lisboa aonde ele vai sirvir de recador de gente das ilha, mas el vai ê defender seus asnera diante de um tal senhor Salazar que ê Rei de Lisboa. Pove das ilha não queria senhor Bento pra recador, el queria era senhor engenher Fonseca, mas senhor Governador disse come sr engenher Fonseca não pôde sirvir pamode el fala muite clare. Ele só quer na Lisboa ê gente mude que não pode falar o qu’ele pensa na seu coraçom. Nhô padre disse, diante de eu, come senhor Bento stá falar mentira, pamode el não podia benzer judeu pesode, quanto mais judeu leve.


Você pode dizer senhor Governador come sou pessoa pra ler tude seu cartilha. Eu sei come els mandou vir pliça de Lisboa pra vir spreitar gente das ilha mas eu não tenho mede de pliça de Lisboa, nem de senhor Governador, nem de senhor Rei de Lisboa. Eu só tem mede de Deus na Ceu. Até els disse como senhor Governador tambê era pliça, mas na fim ês ê que fica tude pliçode. Se quês português de strada panhava gente de Santantão daquês tempe antigue, eles panhava de pau bem dade, mas, agora, gente das ilha ê uns coitode que não tem liberdade nem pra dar de pau. Mas tude fica entregode na conta de Deus.

 
Senhor Presidente, você não squeça daquel degrau de scada. Eu não tem más nada para dizer você. Esturdia panhei um topada naquel degrau de scada, eu ficou com um pé molestrade, nem fui pra sirvice da tarde. Você pode perguntar senhor Serafim.

 

Ali vai mantenha pa tude gente de Cambra, grande e piquenim, e vai galopê pa senhor engenher.

 

Nho Djunga

 

Djunga.jpeg

 Foto dos anos 60, gentilmente cedida por Jorge Martins. Nhô Djunga, no Albergue, com as crianças

 

 

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13 comentários

De Jorge Martins a 16.04.2011 às 22:18

Obrigado Lalela.


Alem das famosas cartas de que esta é um dos exemplos, muitas e muitas estorias " se contam do fino humor do Nhô Djunga.
Figura indissociável do Djunta Mom que Mindelo conheceu nos seus tempos de maior crise.


Abraço

De Brito-Semedo a 17.04.2011 às 10:01

Obrigado, Amigo, pelas fotos, estas e outras que se seguirão. Um forte e rijo abraço e votos de bom domingo!

De Brito-Semedo a 19.04.2011 às 08:35

Alvíssaras , alvíssaras ! O jornalista mindelense da RCV , Fonseca Soares, perguntado sobre o estado e o paradeiro das bobines com o património sonoro do Nhô Djunga Fotógrafo, e que foi propriedade da ex-Rádio Barlavento, respondeu categoricamente: “Estão cá 'guardados'... e tb já digitalizados... pq são Património CV)”.

De Jorge Martins a 19.04.2011 às 09:52

Obrigado pela informação. Assim ficamos todos mais aliviados.
Um abraço

De tchale a 17.04.2011 às 10:36

Belo Post Lalela... Um visionário Nhô Djunga. Uns foram mas os nossos ficaram. Se eu naõ fosse gente de bem, tambem mandava tude ês pa dardamerda!

De Brito-Semedo a 17.04.2011 às 18:09

Caro Tchalê, Seria interessante e muito útil se se pudesse recolher, transcrever e publicar essas crónicas do Nhô Djunga, com um estudo de enquadramento. Quem diz o espólio do Nhô Djunga, diz de tantos outros. Há muito por fazer nesse sentido! Um abraço!

De Brito-Semedo a 17.04.2011 às 21:56

Mário Matos escreveu: "A personagem composta por Nhô Djunga é de uma riqueza extraordinária. Mulher, depreende-se, madura ou como se diz na ilha "entróde n' idade", com sotaque de S. Nicolau que, quanto a mim, acentua a ironia fina, o humor mordaz e inteligente das gentes dessa ilha, e... cortante sima faka de cana, de "poucas letras", como diz a Professora Gabriela Mariano, mas com um olhar crítico certeiro e verrinoso em relação aos "poderosos da terra" e aos desmandos dos que chegam da "metrópole" para mandar, mas com menos engenho e arte dos filhos da terra, enfim, uma complexidade e riqueza extraordinárias numa personagem aparentemente inócua, feita para nos fazer rir... Nhô Djunga sabia passar a perna aos poderosos de antanho... O humor é uma arma demolidora e é por isso que os autocratas geralmente têm pouco humor e perseguem quem o tem e o usa...Brito Semedo, ficamos todos à espera do livro com o estudo de enquadramento. Adê mose, bô sabê ke kalasiria ka andá ba bôx lóde i, kma bo ten prenda na kabesa, ta tude arremóde pa no ten livre. Abraço."

 

De judith wahnon a 19.08.2011 às 05:05



A foto ficou mesmo bem e no lugar de destaque que merece.  O discurso de Nho Djunga com tanto humor, disfarça bem a mensagem politica que ele estava dando. Nao sei como a Pide nunca lhe pos a mao...E que ele sabia falar o que queria,,,,sem ser em tom serio, mas falava o que pensava. Grande homem !   Esta "Esquina" esta  crescendo...e ficando sempre melhor.  Braça, Judith

De José Figueira,Junior a 20.08.2011 às 00:04


Dear Manuel, Ulim li pam dobe nhas parabens pa ês bom traboi que bô tem estode ta fazê li na bô blog NA ESQUINA DO TEMPO.Nhô Djunga ê sem duvda um figura MINDLENSE SÂO VICENTINA que ta merecê tude
ês homenaja.E inda bem que nô ta li pa lembrà pove dês nôs figura pa
ca dexás morrê, quê ês ta fazê parte integrante de nôs VIDA e de nôs CULTURA. FORÇA NH'IRMON.Quel braçona de Zizim Figuera

De Brito-Semedo a 20.08.2011 às 22:49

Bróda, êss elogio e um grande honra pa mim. Aliás, M fcá preocupôd q'onde N soube que Zizim , nôs grande caçador de memórias de SonCent tava em baixo. Saúde i muita força, Amig!
Cada um de nôs devê fazê i dá tud quel podê pa ca tchá perdê na temp i na sxqueciment stórias i figuras de nôs terra!
"Na Esquina do Tempo" e um lugar de registe i de divulgação de nôs cultura i abert a colaboração. Braça i votes de bom dming!

De zito azevedo a 10.03.2012 às 22:08

É extraordinário...De novo, Djunga vem à tona e as águas turvas da sociedade ondulam ao ritmo das pedradas certeiras quem cultivou, como ninguém em Cabo Verde, a critica politico-social sob a máscara de textos aparentemente inócuos, ardilosamente armadilhados na linguagem enérgica e lúcida de uma velha senhora farta de dar topada naquel degrau descada que é, todo ele, um hino à inteligência e ao contador de histórias que pertencem à História do Povo que tanto  amou e por quem tanto foi amado. Nhô Djunga é um marco irrecusável da alma das Ilhas. A minha saudade só se compara com a minha admiração...

De Brito-Semedo a 11.03.2012 às 22:10

Do Amigo Arsénio de Pina, a quem endereço um abraço, recebi um comentário que transponho para aqui:

Caro amigo Brito Semedo
Felicito-te pela iniciativa. Li todos os comentários, mas estranhei que ninguém tivesse falado do meu livro "Coisas do Djunga "!... o primeiro a fixar os textos da sua obra radiofónica e a apresentá-lo ao grande público, em 2002, antes de Mesquitela Lima, que também lhe dedicou um livro. No mesmo livro há uma apreciação minha ao livro de outro artista mindelense , Sérgio Frusoni , Vangêl contód d´nôs moda". Esse livro foi oferecido ao Centro Juvenil Nhô Djunga como contributo meu ao centro. Um abraço.

De LG a 25.09.2015 às 16:20

Olá, podem me disser onde posso comprar o livro " Coisas do Djunga" se é que ainda se encontra a venda :). obrigada

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