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1. Em 2009 tive a veleidade de publicar um livrinho de crónicas históricas e memorialistas onde lanço um olhar retrospectivo sobre factos e figuras que marcaram a minha vida de criança e adolescente. Não foi, certamente, por isso que Daniel Medina me convidou para festejar com ele e participar da apresentação pública deste seu livro de crónicas. Se fosse por essa razão, ficaria melhor servido com a autora de Um Certo Olhar (2001), a cronista da praça, a escritora Fátima Bettencourt, por quem ambos nutrimos uma profunda admiração. Deferências destas só se faz aos amigos do peito e de diazá, de quem também sabemos que não nos recusarão um pedido que, diga-se, é praticamente uma ordem. Assim, não podendo fazer uma desfeita ao Amigo e Irmão, como faz questão de me tratar, pelo nosso passado comum na Editora Nazarena,em S. Vicente, procurarei não “fazer feio” ou desmerecer a honra.

 

Daniel Medina, o meu amigo Magnífico, não é nenhum neófito nestas andanças. Jornalista desde os tempos da Rádio Voz de S. Vicente é, concomitantemente, Professor universitário da área da Linguística, do Jornalismo e das Ciências Políticas, e Poeta, com três livros publicados, dois deles disponíveis nas nossas livrarias – Pela Geografia do Prazer (2008) e Tambor (2010) – este último, de que tive o prazer de ser o apresentador. Crónicas que a Vida Conta só é, pois, “primeiro livro” por pertencer ao género “crónica”, de que, pelos jeitos, haverá outros.

 

2. Crónica, segundo os entendidos, é um género literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Significa isto que ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: dirigir-se aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se, no transcurso dos dias ou das semanas, numa familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem. Assim, o facto de a crónica ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois, à crónica de “hoje”, seguem-se muitas outras nas edições seguintes.

 

Constata-se que há semelhanças entre a crónica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista inspira-se nos acontecimentos diários, que constituem a base do seu texto. Entretanto, há elementos que distinguem um tipo do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode dizer-se que a crónica se situa entre o Jornalismo e a Literatura e o cronista pode ser considerado o “poeta dos acontecimentos” do dia-a-dia.

 

A crónica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado na primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está em diálogo com o leitor. Isso faz com que a crónica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver o seu estilo e ao seleccionar as palavras que utiliza no seu texto, o cronista está a transmitir ao leitor a sua visão do mundo. Ele está, na verdade, a expor a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crónicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária, o que contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba por se tornar no porta-voz daquele que lê.

 

3. Em Cabo Verde, existe uma longa tradição de crónicas veiculadas pela imprensa escrita, cultivadas pelos nossos melhores jornalistas e escritores, nomeadamente Eugénio Tavares (Brava, 1867-1930), José Lopes (S. Nicolau, 1872-1962) e Afro, ou melhor, Pedro Cardoso (Fogo, 1890-1942), mantendo-se até aos nossos dias, de que Daniel Medina é um exímio cultor.

 

Só a partir de 1955, com o nascimento da Rádio Barlavento, viriam a surgir as crónicas radiofónicas. Em 1956, Baltasar Lopes leria os seus ‘apontamentos’ intitulados “Cabo Verde Visto por Gilberto Freyre” e, nos anos 60, o Poeta Sérgio Frusoni (S. Vicente, 1901-1975) e João Cleófas Martins, de facto Nhô Djunga Fotógrafo (S. Vicente, 1901-1970), fariam sucesso, com as suas rubricas “Mosaico Mindelense” e “Roupa de Pipi” e “Bom Senso”, respectivamente.

 

Estas Crónicas que a Vida Conta, de Daniel Medina, têm uma particularidade. Diferentemente dessas outras, estas foram “escritas para rádio, ou seja, para serem ditas e não simplesmente lidas ao microfone”. Sobre as características desse tipo de crónicas falou já o meu amigo Carlos Santos, um expert na matéria.

 

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4. O livro Crónicas que a Vida Conta, a que atribuo o subtítulo “Cronicando o Quotidiano ou A Vida em Espaço Exíguo”, contém pouco mais de 80 textos curtos e está organizado em três partes: “Confluências… ou crónicas ao sabor da pena”, “Crónicas dos nossos dias… entre Sinais dos tempos” e “Espiritualidades… ou da Arte de Ser”, antecedido por um excelente prefácio assinado pelo Presidente da República que, pela sua qualidade analítica e literária, dispensaria perfeitamente este apresentador.

 

Confesso, com alguma vergonha, que não conhecia nenhuma destas crónicas. Mas não foi nenhuma desfeita, isso sabe o Daniel Medina muito bem! O dia da semana em que são ditos e, sobretudo, a hora em que passam, muito cedo para mim, diga-se de passagem, impediram-me de as escutar. Mas, confirmando a minha teoria de que “na Natureza nada se perde, tudo se atrasa”, vieram-me agora cair no colo e deliciei-me com a sua leitura. Daí merecer “destaque a oportunidade e a pertinência da edição, em livro, de várias das suas crónicas”, usando a expressão do Senhor Presidente da República no seu Prefácio.

 

Das “crónicas ao saber da pena” respigo um intitulado ‘As notícias… ou confluências de interesses globalizantes?’:

 

“… os nossos pontinhos de terra plantados, por vezes só visíveis à lupa bem graduada, nos últimos tempos, parecem ter ganhado estatuto de país a sério. (…) os investidores estrangeiros abriram os seus olhos grandes para estas ilhas castanhas, enfim…

 

Há tempos fomos vistos em Macau e depois em Xangai e quase que deixávamos alguns orientais de olhos em bico.

 

A rainha Sofia esteve cá pelas bandas da Cidade Velha para nos ensinar as regras da boa preservação daquilo que é nosso. Fomos parar às páginas internacionais, aquando dos treinos da Natoem Cabo Verde. Oshomens do tio Sam, são sei porque carga de água, viraram as suas antenas para as suas bandas e nos deram o prémio de bom comportamento (MCA), os europeus começam a ver-nos como parceiros especiais, mas, tudo isso será verdade ou especulação política de uma terrinha que parece ter de repente, caído no goto, dos glutões ou tubarões famintos?”.

 

Desta secção, outra crónica, muito a propósito, é ‘Carnaval!’, um dos “dias que se cronicam…”:

 

”Que amanhã é dia de Carnaval, isso já sabemos de cor e salteado (como se dizia na escola).

 

De cores também se faz a festa que arredonda nos tambores e nas letras das músicas – muito criativas por sinal –, em que a arte se traja de encanto e mística popular. Porque a festa é das gentes que as merecem todos os anos, brincando e salteando nos próprios sonhos.

 

Talvez seja esta a festa popular onde se faz jus à afirmação de Claude Nereidy, quando diz que “o povo consegue colorir os seus próprios sonhos”. Trata-se, com efeito, dos poucos momentos em que as pessoas se sentem verdadeiramente livres, numa assunção plena das suas fantasias e em que a imaginação e a criatividade se misturam com uma certa dose de loucura – mansa ou não.

 

De uma forma risível podia-se dizer que é um género de democracia. Só que, paradoxalmente, é absolutista, ou seja, vale tudo (…).

 

Na vida – há limites para tudo –, como no cerne da própria liberdade, conjugam-se deveres e direitos já conquistados. E a independência e a dignidade humana não são passíveis de flexibilização. Caso contrário, entraremos numa espiral sem retorno de permissividades tais que na terça-feira do Entrudo não sabemos quem é Rei e quem faz de Palhaço”.

 

Detenho-me, agora, numa das “Crónicas dos nossos dias… entre Sinais dos tempos”, ‘Gente estranha’:

 

“… há muito tempo que não encontrava uma população com essas características: gente educada, simpática, afável, hospitaleira, cheia de morabeza, em que o respeito ainda faz parte das normas, em que saber receber e tratar bem os outros é uma prática constante e um desafio, em que a delicadeza e o sorriso são parte integrante de cada pessoa e onde parece que todos esses itens são exercitados de tal forma e a melhor de todas é mesmo aquela pessoa que consegue reunir todos esses predicados.

 

(…) Gente estranha mesmo… – pensei para com os meus botões.

 

(…) E eu que pensava que a morabeza tinha morrido. Nalgumas paragens parece estar mais viva do que eu”.

 

5. Em síntese, estas Crónicas que a Vida Conta estão imbuídas de elementos como informação, fantasia, ficção, e, principalmente, espírito crítico, que lhe dão um gostinho especial e fazem pensar nas palavras largadas pelo seu autor.

 

Uma amiga confidenciou-me: “oiço essas crónicas enquanto vou para o trabalho e, ao chegar, se não tiver terminado, fico parada no carro à espera”.

 

Concluo do mesmo jeito que o Daniel Medina fechava as suas crónicas na rádio: “Pensem nisso!”

 

Título: Crónicas que a Vida Conta

Autor: Daniel Medina

Edição: Autor
Ano de edição: 2011

 

 

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