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Nova Sintra.jpg

Vila de Nova Sintra, Brava

 

 

Embora uma obra de ficção se possa basear na história e em factos reais, o que a caracteriza enquanto tal é o facto de ser uma composição literária de invenção ou produto da imaginação[i]. Contudo, a não ficção é aceitável numa obra romanesca desde que seja em certa dose, pois de contrário pode cair no memorialismo que se define como um género literário que aparece nas primeiras manifestações de prosa em vernáculo, assimilado com a historiografia cronística, e em obras de recorte acentuadamente biográfico. É, contudo, nos séculos XVIII e XIX, sobretudo neste, que o livro de memórias ganha toda a diferenciação possível, cingindo-se à definição de ser "aquele cujo autor nele recorda progressivamente quanto num qualquer sector experimentou ou presenciou com interesse pessoal e convivente"[ii].

 

A prosa literária de Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 25.Junho.1849 - 24.Março.1888), embora sendo ficção (contos e romance) pode ser enquadrada no género evocativo, memorialista, contendo muito do biográfico ou do autobiográfico. O título ou o conteúdo dos contos indexa para isso – "Nho José Pedro ou Cenas da Ilha Brava", memórias da ilha natal; "Bosquejos dum Passeio ao Interior da Ilha de Santiago", memórias de uma viagem realizada ao interior da ilha; "Amor! Ai! Quem Dera", memórias de um amor sublime; "A Morte de D. João", memórias do hospital; e "O Sonho", memórias de um doido – pois faz o registo da experiência, ainda que ficcionada, do autor, ao mesmo tempo que retrata para a posteridade factos e acontecimentos da sua época.

 

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A ficção de Guilherme Dantas por nós recuperada encontra-se editada em periódicos hoje classificados como fundo bibliográfico raro e foi publicada, como era usual na época, em género de folhetim na imprensa local. A maior parte destes textos é de publicação póstuma. Porém, dada à sua qualidade literária e devido à recriação que fazem de uma época histórica e literária, decidiu-se por as dar a conhecer.

 

O género de folhetim – uma forma de publicação de vários géneros literários, de índole, em regra, ligeira, em jornais que reservavam uma secção especial para esse material, geralmente a parte inferior duma página, separada do restante texto por um traço – esteve particularmente em voga na segunda metade do século passado e obras de escritores como Almeida Garrett (1799-1854), Camilo Castelo Branco (1825-1890) e Eça de Queirós (1845-1900) foram inicialmente publicadas sob essa forma[iii].

 

Com origem em França, nos finais do século XVIII, o folhetim desenvolveu-se extraordinariamente na imprensa do século XIX, para corresponder aos gostos e anseios de um público burguês, ávido de informação e enriquecimento cultural. Tematicamente, os folhetins publicados na imprensa cultivavam assuntos variados: da criação literária ao ensaio, passando pela crítica literária e pela polémica, o folhetim constituía, na esfera do entretenimento, uma prática cultural, complementar da função primordialmente informativa da imprensa. Essa feição complementar reflecte-se na localização gráfica do folhetim que se distingue das restantes matérias, podendo ser destacado do corpo do periódico e posteriormente coleccionado[iv].

 

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A nível do conteúdo, detecta-se nos textos ficcionais de Guilherme Dantas características comuns que apontam para a cultura humanística clássica do autor, de mistura com características atribuídas ao Romantismo português (1825-1865) – pessimismo, insatisfação, melancolia, ânsia de absoluto, religiosidade cristã, pendor confessional, idealismo amoroso, elevada temperatura dos afectos, sentimentalismo burguês, cujos temas são o baile, onde nascem paixões "vulcânicas", a mãe e o filho morto, o cemitério, etc.[v]

 

Subjazem aos textos de Dantas referências históricas extra-literárias e conceitos ideológicos perfilhados pelo autor, enquanto representativo da sua geração e da sua época.

 

Acontecimentos, datas e nomes, facilmente identificáveis, são tratados ou referidos nos textos com função do seu enquadramento. Essas referências serão retomadas e analisadas em relação aos textos a que dizem respeito. Por outro lado, a preocupação e a ânsia do autor em glorificar a Pátria, no caso, o espaço geográfico e humano das ilhas, particularmente da ilha Brava, e da sua cultura, manifesta-se numa forma dupla de estar e de sentir, assumindo-se ora como Português, ora como Africano ou filho do Ultramar, ora como Cabo-verdiano, referindo-se ao Arquipélago ou à Ilha ou mesmo à sua aldeia natal como Pátria.

 

A nível da estrutura formal, ou da sua organização interna, o conjunto dos contos de Dantas apresenta aspectos comuns que contribuem para a caracterização do estilo do autor – a dedicatória, a epígrafe e a mistura de planos de comunicação literária.

 

A dedicatória constitui uma componente facultativa e historicamente motivada pelas circunstâncias economicosociais e ideologicoculturais em que se desenrola a comunicação literária.

 

Até ao século XVIII, antes da existência de um significativo mercado do livro que deu ao escritor uma certa independência económica e sempre se encontravam em funcionamento poderosos mecanismos de controle ideológico, o mecenatismo muitas vezes vigente aconselhava não raro a composição de dedicatórias; o escritor abrigava-se então à sombra de uma certa protecção política e económica[vi].

 

Os escritores recorriam, também, ao velho uso das dedicatórias como meio de captar ou agradecer favores e, directa ou indirectamente, contribuir para o êxito do lançamento editorial das suas obras[vii]. Contudo, com o evoluir das circunstâncias socioculturais que envolvem a produção literária, modificou-se o tom e o conteúdo da dedicatória.

 

Em Cunha Dantas as dedicatórias assumem-se como uma declaração de amor ou a manifestação de uma profunda amizade. No caso do conto "Amor! Ai! Quem Dera", embora o nome da pessoa homenageada não esteja expresso, existe a indicação implícita de uma declaração de amor. Em "A Morte de D. João", a dedicatória é explícita, "ao meu amigo Francisco Xavier Crato". A fazer fé em Hypolito da Costa Andrade, fiel depositário dos manuscritos do autor, Dantas teria um número muito reduzido de amigos, daí essa preocupação e deferência.

 

O autor faz igualmente uso sistemático de epígrafes, ou seja, fragmentos de textos inscritos antes de se iniciar a narrativa propriamente dita, de poetas de reconhecida autoridade. É assim que "Amor! Ai! Quem Dera" seja introduzido por versos de Shakespeare, "A Morte de D. João" ser antecedido em cada capítulo por versos de Soares de Passos e Camões e "O Sonho" ser introduzido por versos de Garrett, com Gonçalves Crespo e Castro Alves abrindo secções internas.

 

As epígrafes parecem assumir a função de palavra autoritária, ao mesmo tempo que esboçam pistas de leitura nos planos semântico e pragmático.

 

Uma outra prática utilizada por Guilherme Dantas é a da mistura de planos ou de níveis de comunicação. É comum explicar que existem na comunicação literária dois níveis de comunicação: um, fora da obra, que se estrutura em Emissor ou Autor  Mensagem ou Obra  Receptor ou Leitor; e um outro, dentro da obra, estruturando-se em Emissor ou Narrador  Mensagem ou Narração  Receptor ou Narratário. Acontece que em Dantas esses planos se interpenetram e se misturam quando, na narração, o autor intervém para fazer considerações ou expressar opiniões e dirigir-se ao leitor. Ou seja, confunde-se o criador (autor) com a criatura (narrador), prática também anteriormente adoptada por Almeida Garrett.

 

A nível linguístico, Cunha Dantas faz uso de um português clássico em nível alto e sem qualquer regionalismo, caracterizado por um vocabulário que indexa para a mitologia grega, que pressupõe o seu domínio pelo leitor, salpicos do latim e citações do francês[viii], aliás, como era estilo na época.

 

3

 

Os textos de ficção de Cunha Dantas são, pois, memórias ou invocações saudosas da sua terra natal, a ilha Brava. Apenas “Bosquejos de uma Viagem” e “Amor! Ai! Quem Dera” não se situam naquela ilha. O primeiro situa-se na ilha de Santiago, em cuja cidade da Praia o autor viria a falecer, e o segundo, reparte-se entre a ilha de S. Vicente e a Guiné Portuguesa.

 

Vivendo em Mafra, para onde tinha ido estudar mas onde se achava “exilado”, distante da sua terra natal e saudoso, Guilherme Dantas foi levado a verter para o papel as suas reminiscências. Esse período no Reino, em que o autor leu "bastantes romances, contos, lendas, etc.," terá contribuído para a sua formação cultural e literária e de motivação para a sua escrita de ficção (não nos esqueçamos que Dantas é, acima de tudo, poeta).

 

A segunda metade do século dezanove é um período rico e marcante da história da Monarquia Portuguesa e, logo, do Arquipélago, e, pelo facto de Dantas registar com rigor alguns desses factos e pintar cenas e acontecimentos da sua ilha Brava desse período, estes textos ganham ainda maior importância, ao mesmo tempo que se revela através das confissões dos seus desamores, sofrimentos e infelicidades.

 

Finalizo com o mesmo sentimento e desejo de Hypolito da Costa Andrade (1888): “Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a sua [de Guilherme Dantas] memória, e por largos tempos lhe vão os conterrâneos esfolhar piedosamente goivos e saudades sobre a campa amiga![ix].

 

Manuel Brito-Semedo

 

___________

[i] Harry SHAW, Dicionário de Termos Literários, Lisboa, 1982.

[ii] Dicionário de Literatura Vol. 4, Direcção de Jacinto do Prado COELHO, Porto, 1982, p. 624.

[iii] SHAW, op. cit.

[iv] Carlos REIS, e Ana Cristina M. LOPES, Dicionário de Narratologia, Coimbra, 1996.

[v] Prado COELHO, op. cit.

[vi] REIS e LOPES, op. cit.

[vii] Maria de Lourdes Costa Lima dos SANTOS, Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos, Lisboa, 1988.

[viii] Dantas devia dominar muito bem a língua francesa já que no B. O. n.º 17, de 27 de Abril de 1872 mandou inserir um anúncio em que se oferecia para "tirar cópias dos escriptos que lhe forem confiados, ou de traduzil-os do idioma francez para o portuguez, e vice-versa". Nesse mesmo anúncio, Dantas indica o tempo disponível para o efeito, das 10 da manhã às 4 da tarde, como o lugar de contacto, a sua habitação, contígua à Biblioteca Nacional.

[ix] Hypolito O. da Costa ANDRADE, “Guilherme Dantas”, in Boletim Official, N.º 14 (Parte Não Official), Praia, 7 de Abril de 1888.

 

 

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