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Noite de 7 ou Noite de Guarda-Cabeça

Brito-Semedo, 25 Out 14

 

Sete.jpg

 

 

  

Aos Amigos Nuno Ferreira, Pai de Primeira Água; João Branco, Pai veterano;

e Lígia Pinto, Avó de fresco.

 

 

A mim e rusga de certéza na próxima festa de sete ou noite de guarda-cabeça! Bocês podê mandá boca!

 

Ná, ó menino ná,

Sombra rum fugi de li!

Ná, ô menino ná,

Dixa nha fijo dormi…

 

“Ná, Ó Menino ná…”

 

in Mornas Cantigas Crioulas, 1932

 

EUGÉNIO TAVARES

 

 

Tradicionalmente as crianças em Cabo Verde nasciam em casa com a ajuda das parteiras curiosas que, logo após o nascimento, prendiam-lhes ao pescoço um cordel com “contas de quebranto” e outros amuletos dentro de um saquinho (“guarda”) e banhavam-nas numa infusão de ervas aromáticas contra o “mau-olhado”.

 

A placenta era levada para ser enterrada num local escondido, com a "boca" para cima para que o recém-nascido não apanhasse “frieza” (resfriado), bem como o cordão umbilical, para o ligar à terra (1).

 

O umbigo era curado com tabaco moído, pó fino que se forma nos beirais das casas ou colhido do casulo de certos insectos e mesmo com cal tirada da parede.

 

Este pó estaria contaminado por micróbios, pelo que acontecia que muitos recém-nascidos sofriam de infecção do coto umbilical, que se manifestava nos primeiros sete dias, e morriam (2).

 

Na verdade, esta infecção do coto umbilical ou tétano neonatal, em linguagem técnica, ocorria devido à má higiene e ferrugem no instrumento de corte (tesoura) na hora de separar o recém-nascido da mãe e devido aos produtos utilizados na cicatrização.

 

Cria-se, por outro lado, que se o coto umbilical não fosse mantido limpo, as bruxas podiam vir para sugar o sangue da criança. Daí a prática da família velar o recém-nascido durante estes dias críticos, mas principalmente no sétimo.

 

Após o nascimento do bebé, a superstição exigia realizar uma cerimónia contra o “mau-olhado” na noite do sexto para o sétimo dia. Assim, familiares e amigos sentavam-se durante toda a noite a tocar e a cantar para afugentar as bruxas.

 

Bruxa.jpeg

 

A cerimónia realiza-se à meia-noite com todas as pessoas reunidas em casa à volta do recém-nascido, com destaque para a madrinha, o padrinho e a pessoa que faz a oração.

 

Começam por colocar uma agulha e uma tesoura aberta debaixo do travesseiro. Estando o bebé nos braços da madrinha, com o padrinho segurando uma vela acesa e os pais um copo de água, inicia-se a oração “Pai Nosso”, “Ave-Maria” e “Credo”.

 

Terminada a oração, derramam a água na cabeça do recém-nascido e pedem aos pais para tocar na cabeça do bebé a fim de este receber a bênção de Deus. A seguir todos entoam cânticos para afugentar as bruxas.

 

O Poeta Eugénio Tavares (Brava, 1867-1930) compôs a morna “Ná, Ó Menino ná…” (3), para esconjurar o mal, a sombra ruim, nessa noite de guarda-cabeça (do recém-nascido) - Ná, ó menino ná, / Sombra rum fugi de li! / Ná, ô menino ná, / Dixa nha fidjo dormi…

 

Abro parênteses para explicar que embora os conceitos de "bruxa" e "feiticeira" sejam usados entre nós como sinónimo, na essência não são a mesma coisa.

 

Em Santiago usa-se o primeiro termo para se referir à pessoa que nasce com rabo e com poderes, geralmente para fazer o mal, que lança “mau-olhado” que pode causar o definhamento e a morte, principalmente da criança, enquanto o segundo termo é empregue para a pessoa que é dotada de poderes mágicos, quer para fins benéficos quer maléficos.

 

Em Santo Antão e, por extensão, São Vicente, o termo usado é feiticeira, com o mesmo sentido de bruxa em Santiago. Contudo, para Manuel Bonaparte Figueira (4), “o bruxo é uma classe evoluída de feiticeiros”, inclusivamente com o dom de adivinhação.

 

Recorda-se, a propósito, a estória narrada por esse mesmo autor e que deu origem à morna "Papá Joquim Paris” – Futchera de Rbêra de Janela / Tá c'mê na got / Tá c'mé na catchorre / Cantamá que pás cá c'mé / Nha Fernandinho di meu, nha primero amor.

 

O esconjuro às bruxas é feito da seguinte forma (5): "Fisga canhota, tosca marosca, mar de Espanha, bordolega, barba de góte prete. Cabéça pa mar, róbe pa terra. Bá fundiá na Stótcha pa mo ei bô N t' entrá!".

 

Ultimamente, quando já ninguém se lembra desses perigos do antigamente, tem surgido entre nós um novo fenómeno, organizar um “Chá de Bebé”, uma importação do Brasil e dos Estados Unidos cujo objetivo principal é proporcionar um apoio emocional dos amigos à futura mamãe e presenteá-la com os itens que ainda faltam para o enxoval do bebé. A festa é normalmente organizada entre o 6.º e o 8.º mês da gestação.

 

Uma amiga minha, avó babada de primeira água e muito criativa, teve a genial ideia de adaptar esse costume inventando um “Chá de Ansiedade”, à crioula, como forma de partilhar essa doce ansiedade e celebrar os últimos dias de reinado na barriguinha da  mamã. Se a moda pega, é caso para se dizer que a tradição já não é o que era!

 

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O Criôl, que é genial em arranjar pretextos para tomar um caco, comer umas bafas e fazer uma tocatina, não abre mão desse costume e da sua tradicional noite-de-sete ou de guarda-cabeça (do recém-nascido) para fazer uma festa onde se toca e se dança pela noite fora, não faltando a canja de galinha e o grogue.

 

Não é que acreditemos nas bruxas, mas que elas existem, existem! (6)

 

A mim e rusga de certéza na próxima festa de sete ou noite de guarda-cabeça! Bocês podê mandá boca!

 

 

____________

[1] João Lopes Filho, Defesa do Património Sócio-Cultural de Cabo Verde, Lisboa, 1985.

[2] Conferir José Lopes, “A ‘noite de sete’ (Costumes populares de Cabo Verde)”, in Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, N.º 146, Novembro de 1961.

[3] Eugénio Tavares, Mornas Cantigas Crioulas, Lisboa, 1932.

[4] Manuel Bonaparte Figueira, Narrativas e Contos Cabo-verdianos, Lisboa, 1968.

[5] Versão de Santo Antão. Informante Armandina Tourinho (Custódio).

[6] Referência ao provérbio espanhol “No creo en brujas, pero que las hay, las hay".

 

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 27.10.2014 às 14:19

A narração de "Guarda Cabeça" me agradou imenso e gostaria de tê-la ouvido antes de ter feito o sketch homônimo hà uns 50 anos  no Senegal onde foi apresentado.
Que não me venham dizer que esta mùsica não é cabo-verdiana so porque não està cheia de tambores...
Obrigado à ESQUINA.

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  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

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