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Mestre Malaquias Costa

 

 

Apesar dos seus 90 anos de idade, nhô Amancinho ainda se encontrava suficientemente rijo para cuidar de si. Pequeno e magro, só as costas um pouco dobradas e as pernas já menos expeditas denunciavam a sua bonita idade. Dispensava ajuda nas suas lidas diárias, e ele próprio confeccionava as suas morigeradas refeições. Morava num cutelo, habitando uma casinha da grande propriedade agrícola onde durante largos anos foi o feitor, muito bem considerado pelo dono e sua família. Foi pelo seu merecimento que lhe outorgaram o direito de viver ali até ao fim dos seus dias. Naquela zona do interior do Paul, ilha de Santo Antão, o habitat humano era disperso, como o era na generalidade da ilha, com as pequenas casinhas rurais salientando-se no meio das meradas[1] talhadas nos socalcos das encostas. Como vizinhança mais próxima, nhô Amancinho tinha a nha Clarisse e a sua filha, de nome Joana. Volta e meia, uma ou outra apareciam por lá para saber se estava tudo bem com ele, e sempre que calhava levavam-lhe uns pequenos mimos, como um pouco de cuscuz, uma batata-doce assada, uma canequinha de mel de cana, ou mesmo um caldinho quente acabado de fazer. Nessas alturas, trocavam sempre dois dedos de conversa e o tema era invariavelmente a família, o estado do tempo ou as lembranças dos tempos antigos. Nhô Amancinho habituara-se há muitos anos a viver em solidão, depois da morte da sua companheira e mãe dos seus dois filhos, um que morreu ainda rapaz e outro, o Mário, que vivia actualmente na Praia.

 

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 Fontaínhas, Santo Antão

 

Nesse dia 31 de Dezembro, nhô Amancinho levantou-se à hora habitual, com o Sol ainda sem despontar por trás do cume da montanha sobranceira ao lugar. Tomou o cafezinho da manhã e a seguir foi logo regar a hortinha de onde colhia a batata-doce, o inhame e as couves das suas refeições diárias, sendo a principal normalmente restringida ao almoço. O dia de São Silvestre era para ele como outro qualquer. À excepção de alguns foguetes que um ou outro entusiasta costumava atirar aqui e além pelos pequenos aglomerados das encostas, pouco ou nada diferenciava esse dia dos restantes do calendário. Ah, haveria também aquele bater de pilão logo à noite a moer a farinha de milho para o cuscuz, que ecoaria então por todo o lado. Sim, porque mesmo no interior de Santo Antão, o cuscuz tradicional não se dispensava na noite de São Silvestre.

 

Mas, nesse dia, o bater mais forte era o do velho coração de nhô Amancinho, que ansiosamente aguardava a visita do seu filho. Na véspera, viera um rapazinho das vizinhanças entregar-lhe um telegrama deixado pelo carteiro, em que o filho lhe comunicava que chegaria na tarde de São Silvestre e passaria dois dias na sua companhia. Apanharia o avião para S. Vicente e depois era só atravessar de ferryboat o canal até Porto Novo. Com esta notícia, nhô Amancinho ganhou um renovado brilho nos olhos e não cabia em si de contente, cantarolando pelos cantos como há muito não lhe se ouvia. Foi assim que recolheu os produtos da terra que iam ser o acompanhamento da galinha guisada que lá mais para a noite ia mandar à nha Clarisse preparar-lhe, pois nada como a mão de uma mulher para dar um toque especial à comida. Queria receber o seu filho condignamente, e assim a ceia teria de estar à altura do momento do seu reencontro, mais ainda em dia de São Silvestre. Também foi buscar uma garrafa de bom grogue, velho de há uns bons anos, que tinha reservado para um momento especial. E aquele era um momento que pedia meças a outros.

 

Foi com estes pensamentos em tropel que o velho viu passar as horas vertiginosamente até que o Sol, já a meio do seu percurso rumo ao poente, lhe anunciava que o seu filho não tardaria a galgar a ladeira pela única trilha nela rasgada. Mas a verdade é que o Sol se pôs e do Mário nenhum sinal. A nha Clarisse, já no quintalinho a depenar a galinha, estranhando a demora da aguardada visita, procurou no entanto tranquilizar nhô Amancinho:

 

─ Ó vizinho, num dia como hoje muita gente desembarca no Porto Novo e os carros não dão para levar tudo duma só vez. O Mário pode não ter tido lugar mas há sempre uma segunda leva...

 

─ Deus a ouça, Clarisse, Deus a ouça…

 

─ Bem, melhor dizendo, que ouça São Silvestre, que é santo da nossa alegria ─ respondeu a Clarisse.

 

Mas nhô Amancinho começou a ver passar as horas e já não via motivo para grande optimismo. Começou a ficar pensativo, ensimesmado, principalmente depois da poalha do crepúsculo cair sobre o lugar, antecipando a noite, que não tardou a instalar-se. No entanto, não quis que se alterasse o que estava previsto e pediu para as suas amigas avançarem com o jantar, na esperança de que o Mário sempre viria para completar a moldura humana à volta da mesa. As duas vizinhas iam fazer-lhes companhia nessa noite e a Joana começou a pôr a mesa, sobre a qual estendeu uma toalhinha lavada que estava guardada na arca do dono da casa, enquanto a nha Clarisse acendia o lume e adiantava os preparativos para confeccionar o repasto.

 

A dado momento, viram alguém a aproximar-se ao longe em passo acelerado. Mas tanto quanto permitia a escassa visibilidade, o vulto não parecia ser o do Mário, que é pessoa bem mais alta e encorpada. E nha Clarisse não demorou a reconhecer o rapaz da pequena mercearia a meia légua de distância, de onde é normalmente redistribuída a correspondência destinada às redondezas. Era, sim, o portador de um telegrama. Aberta a missiva, a Joana foi chamada a ler o seu conteúdo: o Mário explicava que lamentavelmente perdeu o avião na Praia e pedia imensas desculpas ao pai, prometendo visitá-lo numa próxima oportunidade.

 

Nhô Amancinho ouviu tudo com ar dorido, não proferindo uma única palavra ou esboçando qualquer gesto. Procuraram animá-lo dizendo-lhe que o filho não tardaria a agendar outra visita. Mas, como se mais ninguém ali estivesse, sem proferir palavra, o velho foi a uma prateleira buscar a sua rabeca, instrumento que possuía desde os seus tempos de rapaz e com que animava as pequenas festarolas das redondezas. Costumava contar que foi isso que o ajudou quando, em tempo de seca prolongada, ainda muito novo, foi numa leva de contratados para as roças de São Tomé. Para ele, sem esse passatempo teria morrido de saudade ou mirrado de corpo e alma, explicando que a alma mantida viva foi a salvação do corpo. Porém, com a rabeca na mão direita e o arco na esquerda, e tomando a pose de quem ia começar a tocar, nhô Amancinho ficou repentinamente estático, sem esboçar o mínimo movimento, parecendo uma daquelas estátuas-vivas que se postam nas ruas movimentadas das grandes cidades. Surpreendidas com a cena oferecida pelo seu vizinho, mais ainda ficaram as duas mulheres quando ele subitamente deu um grito e pousou o instrumento, clamando em voz alta:

 

─  Meninas, tristezas não pagam dívidas! Vamos ao jantar, quem está, está, quem não está que estivesse! ─ E sentaram-se os três para atacar o que cheirava bem na panela que nha Clarisse colocara sobre a mesa. A conversa animou-se como sempre com as peripécias que o idoso contava sobre as águas que correram debaixo da ponte da sua vida; as dificuldades que sentiu nas suas andanças por S. Tomé, coisa para esquecer, conforme acentuava sempre; a amizade do dono da propriedade onde trabalhou quase toda a vida e desde o regresso de São Tomé; a mágoa pela perda do filho em idade jovem e mais tarde da mulher; em suma, passou em revista praticamente aquilo que as suas interlocutoras já conheciam, de tão repetido, de conversas anteriores. Por fim, lamentou a ausência do Mário, tanto mais depois da expectativa criada à volta da sua visita.

 

Terminado o jantar, levantou-se, mostrando já o efeito indisfarçável de três grogues bem aviados, e disse, desafiando as suas vizinhas: ─  Meninas, vamos ao baile! ─ Nisto, pegou na rabeca e atacou freneticamente as suas cordas tocando as modinhas dos bailes populares antigos, enquanto incitava as companheiras a dançar dentro do espaço restrito da habitação. Elas não se fizeram rogadas e enlaçaram-se em jeito de dança ao ritmo da música mexida derramada pela rabeca. O tocador, que não tinha par disponível, ao mesmo tempo que fazia vibrar o instrumento fez dele o seu par envolvendo-o num estreito amplexo, após o que o seu corpo franzino começou a rodopiar à volta das duas mulheres, como se tivesse sido insuflado de uma carga eléctrica, a desmentir os seus 90 anos. Assim foi durante cerca de uma hora, sem que sinais de cansaço aflorassem ao seu rosto.

 

A páginas tantas, e depois de tanto dar ao pé, nhô Amancinho disse: ─ Alto e pára o baile, raparigas! Então, a música da rabeca transitou do ritmo acelerado dos bailinhos para a dolência dos momentos graves. O tocador, de olhos vidrados e fixos na rabeca, qual cobra fitando a presa, parecia ter-se transferido para outra dimensão da realidade. Agora, a música arrastava-se em notas prolongadas e carregadas de melancolia, numa espécie de rapsódia que percorria o registo cabo-verdiano do sentimento magoado, da dor da saudade, da tristeza da hora di bai[2], dos males do amor. Nhô Amancinho e a sua rabeca formavam uma mesma entidade, homem e instrumento unidos na mesma vibração de alma, não se distinguindo onde estavam as cordas musicais e onde estavam as mãos febris que as faziam vibrar. Tal era o estado catatónico do seu vizinho que nha Clarisse e a filha perceberam que ali havia coisa para durar e não se sentiram com coragem para desfazer aquele quebranto. Se assim o pensaram melhor procederam quando saíram em silêncio, pé ante pé, apenas com um leve sinal de mão dirigido ao seu anfitrião.

 

Horas depois, já em sua casa, elas ainda ouviam os acordes da rabeca de nhô Amancinho a escapar-se pelas frinchas do seu tugúrio, como que procurando auditório entre o povo das cercanias.

 

Adriano Miranda Lima

Tomar, Dezembro de 2015

 

__________

[1] Designação de horta na expressão popular santantonense.

[2] Hora de partida, em crioulo cabo-verdiano.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

7 comentários

De Maria da Glória a 31.12.2015 às 20:44

Mas que maravilhosa história de ficção! Quem é este senhor?

De Brito-Semedo a 02.01.2016 às 03:58


Adriano Miranda Lima é militar reformado do exército português, natural de S. Vicente de Cabo Verde, residente em Tomar, Portugal. Longe da terra natal desde 1963, mas com ela incrustada no núcleo do ser, em contínua reprodução imagética dos tempos de menino e moço entre a ourela do mar e as ruas poeirentas do Mindelo.
Um abraço.

De Djack a 01.01.2016 às 18:26

Bela escolha de ilustrações. O Malacas era dos melhores, a paisagem das Fontainhas é soberba.


Braça do blogue irmão Praia de Bote,
Djack

De Joaquim ALMEIDA ( MORGADINHO ) a 02.01.2016 às 09:14

Nao me canso de repetir que por motivos que desconheço , ( complicaçoes desta técnologia de ponta ) , so consigo abrir e entrar , na ESQUINA DO TEMPO  , jà me foi proibida a entrada na " Praia  de Bôte " e também , no  " Arroz com Atum  e até o fim deste ano 2015 , ninguém teve a amabilidade de me dar uma esplicaçao sobre este assunto . Assim através da Esquina do Tempo , desejo a todos os meus amigos , particularmente os  bloguistas , BOAS FESTAS  e que o ano 2016 , seja mais alegre com mais tranquilidade , paz e harmonia entre os seres humanos !..Votos de Um Criol na Frânça ; MORGADINHO  !..

De Djack a 02.01.2016 às 11:28

Caro Morgadim, nha nome,
Se tu tivesses um endereço de email do gmail, a coisa era mais fácil, mas tu tens um endereço franciú, o que complica um bocadito. Mas não há problema de maior. Clicas onde diz "Comentários", escreves o que desejares e depois escolhes uma das opções que estão por baixo (abre onde diz "Comentar como") e talvez a melhor seja "Anónimo", mas assina a tua mensagem para a gente saber quem és. Se não assinares no final da mensagem e escolheres a opção "Anónimo", a gente não sabe quem escreveu. Espero que esta explicação chegue. Depois de fazeres este percuros verás como ´é fácil e ficaremos muito contentes se começares a aparecer no Praia de Bote.


Um braça pa bô e bô trompete,
Djack

De Djack a 02.01.2016 às 11:30

ALI NO FINAL DA MINHA MENSAGEM, COMETI DUAS GRALHAS. EIS A FRASE SEM GRALHAS:


Depois de fazeres este percurso verás como é fácil 

De JOSÉ MANUEL FARIA DE AZEVEDO a 08.01.2016 às 12:09

OBRIGADO, BOM E VELHO AMIGO...CONFIRMO AS INSTRUÇÕES DO DJACK PARA ENTRARES NOS NOSSOS BLOGS...BOM ANO!
BRAÇA PERTÓDE,
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