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"Crónicas de Mindelo" na Praia (2)

Brito-Semedo, 9 Mai 14

 

A Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL) organizou a apresentação da Esquina do Tempo - Crónicas de Mindelo na Praia. Vera Duarte, Vice-Presidente da ACL, presidu o acto.

 

 

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- Vera Duarte

 

Cumprimento a todos efusivamente e efusivamente manifesto a minha grande alegria por estar aqui em mais um momento de celebração da palavra e do livro.

 
A pedido do Dr. Corsino Fortes, mui ilustre presidente da ACL e na minha qualidade de vice-presidente, estou representando, com muita honra, a academia neste ato de lançamento de mais uma peça preciosa para o edifício literário cabo-verdiano: O livro Na Esquina do Tempo - Crónicas de Mindelo do Doutor Manuel Brito-Semedo, ensaísta e escritor.

 

Como costumo dizer, o momento de apresentação pública de uma obra literária é sempre um momento de júbilo:

Júbilo pela promessa de prazer e deleite de que é potencialmente portador qualquer obra literária;


Júbilo pelo enriquecimento que o livro vai trazer ao sistema literário nacional;


Júbilo por nós, os amantes da literatura e da cultura, passarmos a ter a nossa disposição mais um meio para ajudar as novas gerações a se iniciarem no mundo maravilhoso da leitura.

 

Daí o meu contentamento pessoal e o contentamento da ACL que, criada há menos de um ano, no dia 25 de Setembro de 2013, já vem testemunhando, apadrinhando e fomentando o lançamento de várias obras literárias, além de outras actividades ligadas a literatura como tertúlias, palestras sobre autores reconhecidos, programas de rádio e televisão, encontros nas escolas e momentos de poesia.

 

Também estamos ganhando o estrangeiro e na próxima semana um grupo de académicos irá ao Brasil, a convite da secretaria da cultura do estado de São Paulo levar um pouco da nossa literatura ao povo irmão brasileiro.

 

Na verdade, estamos a viver dias particularmente densos em termos de Cultura. E trata-se de um fenómeno holístico pois se entendermos - como entendemos - que a cultura cabo-verdiana se expressa fundamentalmente através da música, da dança e da literatura, e sublinho fundamentalmente pois as outras formas de manifestação artística são igualmente importantes, estes tem sido dias riquíssimos.

 

Ainda temos nos ouvidos os acordes que recentemente percorreram estas ilhas com o Atlantic Music Expo – AME Cabo Verde, o Kriol Djazz Festival, o festival da Laginha e os sons de Nhô São Filipe, para só nos referirmos a alguns.

 

Também a literatura e sobretudo a poesia vem tendo grande visibilidade e ainda ecoa nos nossos ouvidos a autêntica sinfonia de poemas que ontem teve lugar no Centro Cultural Português, em comemoração do dia 5 de Maio, dia da Língua portuguesa e das comunidades.

 

Dando a César o que é de César, diria que muito disso se deve ao dinamismo e engajamento do Ministério da Cultura que tem sabido ser um ponto de referência e um ponto de ancoragem para os protagonistas e promotores da cultura nas ilhas. A prová-lo está aí o Banco da Cultura e sobretudo os protocolos que vem assinando com diversas entidades culturais e nomeadamente com a ACL, permitindo a estas algum desafogo económico.

 

A cultura até já ganhou o seu cluster – o Cluster das indústrias criativas – que ombreia perfeitamente com os demais clusters, pois vai buscar a sua essência na verdadeira alma cabo-verdiana.

 

A ACL, uma novel entidade no meio cultural nacional, mas que foi beber as suas raízes na velhinha AEC, tem tido um desempenho a todos os títulos meritório, em prol da valorização e da densificação do património literário cabo-verdiano.

 

A começar pela presentificação que vem fazendo dos nossos Imortais, aqueles que com a sua escrita ajudaram a construir a nação cabo-verdiana que hoje temos.

 

Também ajudando a dar visibilidade e valorando os nossos Contemporâneos que, com a sua pena, vêm contribuindo para dilatar as fronteiras reduzidas do nosso país e exponenciar o escasso número dos seus habitantes;

 

Mas sobretudo pretende levar o gosto pela leitura e pela escrita a um número cada vez maior de cabo-verdianos principalmente os mais jovens, ciente como está, da verdade intrínseca da célebre frase de José Marti: “Ser culto é a única forma de ser livre”.

 

E é por isso, caros amigos, que hoje nos encontramos aqui reunidos:

 

Para comemorar o lançamento de mais uma obra do escritor e ensaísta Manuel Brito Semedo que, de forma verdadeiramente engajada, vem oferecendo a sociedade cabo-verdiana o belo resultado dos seus estudos, das suas investigações e das suas inspirações.

 

Não só através dos livros que vem dando a estampa, como através do blog homónimo “Na Esquina do Tempo”, que nos oferece sempre com muita clarividência, respostas às nossas várias indagações de índole literário.

 

A apresentação do livro, Na esquina do tempo - Crónicas de Mindelo está a cargo da nossa confrade Fátima Bettencourt que dentro de momentos nos irá deliciar com o que mais a impactou no livro de Brito-Semedo.

 

Mas acontece que a Fátima é também autora de seis crónicas contidas no livro e um natural pudor impede-lhe de a elas se referir. É assim que me coube a prazeirosa missão de, além de representar a ACL neste ato, também fazer a apresentação das crónicas da Bettencourt.

O que faço naturalmente com muito prazer.

 

Considero aliás um privilégio fazer a apresentação de qualquer escrito da Fátima pois, além do selo de garantia que já contem, é uma forma agradável de continuarmos a manter uma tradição que já vem de longe e, com a permissão dela, vos relato:

 

Tive o grato prazer de ter a Fátima como minha professora da 4ª classe e desde essa altura, apesar das diferenças de estatutos – ela professora e eu aluna – no imediato se estabeleceu uma cumplicidade que hoje chamo de premonitória: Ela tornou-se na minha professora preferida e eu numa das suas alunas mais queridas.

 

E quando publiquei pela primeira vez ela reviu-se na minha escrita e enviou-me uma bela missiva – que até hoje guardo – em que me perguntava se o magistério dela teria influenciado aquela escrita que ela chamava de brilhante.

 

E a resposta só pode ser uma: IMPACTOU É CLARO, como impacta sempre tudo o que de bom aprendemos nos bancos da escola.

 

E seguimos sempre trocando bouquets de flor, metaforicamente falando é claro!

 

Eis agora o meu bouquet:

 

A Fátima é uma natural contadora de estórias. Sobretudo estórias de Santo Antão, sua ilha natal. Às vezes, no meio de uma reunião da ACL uma palavra despoleta-lhe um pensamento e na hora ela conta estórias breves mas de uma riqueza inimaginável. Como há dias no momento em que o tesoureiro da academia o companheiro Kaká Barbosa falava das dificuldades em cumprir várias despesas com pouco dinheiro, ela contou como era simples fazer contabilidade segundo um comerciante de Santo Antão:

 

Para ele era assim “tomou – pontou – pagou – riscou” e nas palavras dela isso surgiu, cristalinamente como a quinta-essência da contabilidade. É isto que aconteceu nas seis crónicas da Fátima contidas no livro Na Esquina do Tempo – Crónicas do Mindelo de Brito-Semedo.

 

Ela conta-nos estórias. E enquanto lemos vamos ouvindo a sua voz doce e melódica a desenhar-nos quadros de grande expressividade como a “madrugada de beleza e mistério de Mindelo vista de uma varanda sobre o mar”. Para nos contar uma estória de marinheiros e contrabandistas pois jamais saberemos o que levam os botes minúsculos com motores fora de borda que evoluem na Baía do Mindelo entre um iate e outro. “o que todos sabemos – e já estou a citar a Fátima da crónica Madrugadas – é que a Baía sempre albergou clandestinidades e contrabandos mesmo debaixo das barbas das autoridades.  Desde os tempos áureos do contrabando de aguardente em que homens sem medo varavam noites e mares em botes a remos para desembarcar grandes carregamentos em praias escuras, a altas horas da noite”.

 

Já num registo mais pessimista mas muito curioso, a Fátima de 'Nocturno de Mindelo' lança um olhar saudoso ao passado de grandes glórias para lhe compensar de um presente em que vê Mindelo “exactamente uma filha segunda cujas qualidades não são vistas nem reconhecidas; uma filha segunda que dificilmente estará nas prioridades de quem quer que seja; uma filha segunda que não consegue superar o trauma de o ser para capitalizar o que tem de bom e só ela sabe que tem; uma filha segunda que vai morrendo de inanição enquanto se injecta mais sangue em quem está saturado de globos vermelhos”.

 

Mas a declaração de amor vem logo a seguir em 'Cidade Adormecida'. Aí ela se pergunta “quem resiste a tentação de olhar um rosto amado a dormir” e responde “por isso saí para a varanda quando ainda não se distinguiam bem as sombras furtivas e hesitantes dos boémios mais renitentes quase diria resistentes, na última tentativa de regressar a casa. Um deles acaba por entregar os pontos e estende-se ali mesmo num banco da Praça, sob o fino orvalho que humedece a cidade enquanto uma paz fora do tempo envolve tudo.

 

Na crónica ao 'Encontro do Milénio' Fátima brinda-nos com uma descrição, verdadeiramente na esquina do tempo pois que na passagem do século XX para XXI ou se quisermos do milénio segundo para o terceiro milénio, em solo mindelense, enaltecendo a beleza da cidade. Diz assim “O primeiro contacto com a cidade dizia-nos que Mindelo se preparara para a entrada no ano 2000 com ou sem milénio. Diria até que o vinha fazendo desde o distante 14 de Abril de 1879 quando um decreto régio transformara a vila em cidade, passados apenas 22 anos sobre a eliminação da escravidão na ilha. Era a cidade que eu encontrava pulsando em harmonioso compasso, com os seus espaços verdes confundindo-se com pequenos presépios, as ruas enfeitadas, casas pintadas, luzinhas piscando por todo o lado, até nas casinhas mais modestas, tudo muito limpo e arrumado, enfim um colírio para os olhos.

 

Num sentido 'Tributo a Cesária', de que todos comungamos, ela começa com estas palavras carinhosas “estamos mais uma vez órfãos. Pelo menos é assim que eu me sinto na morte dos nossos artistas e poetas. A Cise deixa um vazio sem tamanho que tentaremos preencher com a saudade e o respeito pela sua memória que inclui naturalmente a preservação da sua obra e o engrandecimento da nossa canção nacional que ela tão bem soube dignificar nos maiores palcos do mundo. A MORNA merece ser elevada à condição de património mundial, julgo que o Moacyr já está empenhado nisso, mas acho que está é uma tarefa de todos os cabo-verdianos. Não há dúvidas que se um dia viermos a conseguir esse desidrato, ninguém terá contribuído com um quinhão maior do que Cesária Évora, a menina simples de Mindelo, de voz doce e falar malicioso que agora nos deixa para sempre”.

 

Cabe dizer Inch állah, ou seja, Deus te ouça!

 

Finalmente, Numa Esquina Outra' Fátima dá-nos um saboroso cunho pessoal do início da sua vida profissional. “Há uma data de anos atrás, findos os estudos, regressei a S. Vicente e a minha pronúncia lisboeta foi considerada adequada para a locução na Rádio Barlavento apesar de que na gozada opinião do Dr. Baltasar, isso não passasse de um gôgo na goela que eu deveria curar com leite e alho à semelhança das galinhas dos nossos terreiros. A despeito do douto parecer, senti-me o máximo quando recebi o convite para fazer uns testes logo aprovados e comecei, com o coração na boca, a titubear os primeiros avisos e discos pedidos”.

 

Senhoras e senhores, caros amigos,

 

Eu apenas quis dar-vos um gostinho do que está escrito nestas crónicas, só para vos criar água na boca como se diz. Elas estão realmente deliciosas e por isso vos convido, sem rodeios, a degusta-las ao lado das outras para as quais passo agora a palavra a escritora Fátima Bettencourt para vos abrir o apetite.

 

Praia, 06.Maio.2014

 

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