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Adriano Duarte Silva.jpg

Durante todo o período colonial houve apenas três reitores do liceu cabo-verdianos: Dr. Adriano Duarte Silva, Reitor do Liceu Infante D. Henrique de 1927 a 1929 e de 1933 a 1936; Dr. Baltasar Lopes da Silva, Reitor do Liceu Gil Eanes de 1949 a 1960 e de 1965 a 1969; e Dr. Antero de Barros, Reitor do Liceu Gil Eanes, de 1960 a 1961, com uma média durável de mandato, perto de 40% do tempo total, com o desenvolvimento dessas funções com notório protagonismo de qualquer um deles.

 

Adriano Duarte Silva, Professor liceal

 

Na abertura solene do ano lectivo 1937-1938, o professor Dr. Adriano Duarte Silva proferiu no Liceu Infante D. Henrique a lição inaugural, com o tema “O corporativismo e sua oportunidade histórica”. O Professor justificou perante o Governador da colónia que, “ao contrário do que malèvolamente e com fins inconfessáveis se tem por vezes propalado, não há aqui dentro do liceu, por parte de qualquer dos seus membros, a mais leve animosidade nem a maior resistência à obra do Estado Novo”.

  

Nessa ocasião o ex-reitor estava longe de imaginar que esse mesmo liceu seria extinto daí a poucos dias e que esse “ambiente de franca simpatia e de sincera e consciente admiração” iria ruir.

 

O golpe foi dado com a aprovação do Decreto n.º 28.229, de 24 de Outubro que extinguia o Liceu, ouvido através da Rádio Colonial Portuguesa, dois dias depois. A notícia caiu que nem uma bomba e propagou-se qual rastilho em pólvora seca.

 

Como reacção, houve uma mobilização geral para que o liceu reabrisse. A Câmara Municipal reuniu-se prontamente em sessão extraordinária e decidiu expedir um telegrama ao Governador da Colónia solicitando empregar “todo seu valimento telegraficamente Lisboa sentido manutenção liceu aspiração máxima cerca 160.000 habitantes”, e desenvolveu-se uma cruzada para salvar o Liceu, que envolveu a Associação Industrial, Comercial e Agrícola de Barlavento, a Associação de Pais, a União Nacional, os Sokols de Cabo Verde, professores e alunos e população de todas as categorias.

 

Dr. Adriano Duarte Silva deslocou-se pessoalmente a Lisboa para defender essa causa donde só regressou quando teve a garantia da reabertura do liceu.

 

Face a essa grande e intensa movimentação, o Ministro das Colónias aprovou o Decreto n.º 28.262, de 8 de Dezembro, suspendendo a execução do Decreto n.º 28.229 na parte que se refere “à extinção do Liceu Central Infante D. Henrique” e comunicava que o liceu iria iniciar as aulas imediatamente. Na sequência, o Liceu de São Vicente passaria a designar-se Liceu Gil Eanes.

 

Adriano Duarte Silva, Jurista e Deputado

 

Adriano Duarte Silva (São Vicente, 12.Janeiro.1898 – 23.Julho.1961), filho do advogado Roberto Duarte Silva e sobrinho-neto do químico com o mesmo nome, foi, durante trinta anos, professor e Reitor do Liceu Infante D. Henrique e professor do Liceu Gil Eanes e, em sucessivas legislativas, desde 1945 até à sua morte, deputado por Cabo Verde à Assembleia Nacional, cuja “maior ambição foi sempre servir Cabo Verde e, assim, servir Portugal”.


João Nobre de Oliveira, no seu livro A Imprensa Cabo-verdiana (1998), sistematizou as várias preocupações que o Deputado Adriano Duarte Silva levou para debate na Assembleia: protecção à imigração, defesa dos produtos cabo-verdianos, medidas contra as estiagens e as crises, defesa da igualdade entre os funcionários da metrópole e das colónias, aumento das pensões; informou sobre o “Desastre da Assistência” de 1949 na Praia; em 1951 a utilização da expressão “indígena” referida a uma unidade militar de Cabo Verde, defendendo que perante a nova legislação, devia ser banida o seu uso quanto à população de Cabo Verde; em 1952 pediu informações respeitantes a serviçais contratados para São Tomé e Príncipe, levantando assim a questão; em 1953 referiu-se ao problema da erosão e arborização de Cabo Verde e à aplicação de novas disposições sobre o funcionalismo ultramarino; em 1954 pediu a protecção para as pozolanas de Cabo Verde; em 1956 conseguiu do governo a atribuição de subsídios ao Aeroclube de Cabo Verde, Rádio Clube de Cabo Verde e Rádio Barlavento; em 1958 exigiu aos Ministros das Obras Públicas e do Ultramar que fossem cumpridos os despachos que recomendavam o emprego da pozolana de Cabo Verde nas obras do porto do Lobito; em 1959/1960 comentou uma notícia de jornal segundo a qual se teria formado em Dacar um movimento denominado “Frente de Libertação das Ilhas de Cabo Verde” no que terá sido, talvez, a primeira referência feita na Assembleia Nacional à existência de movimentos de libertação das então colónias portuguesas, assunto a que voltaria em 1960 ao referir-se à campanha anticolonialista, etc. Mas como deputado a sua grande vitória pessoal foi conseguir convencer o governo de Lisboa a ordenar a construção do cais acostável do Porto Grande, assunto que levava a discussão todos os anos.

 

Quando, em Julho de 1961, em Lisboa, Adriano Duarte Silva pressentiu a gravidade do seu estado de saúde, pediu que o deixassem seguir para sua ilha onde queira que o seu corpo repousasse para sempre.

 

À sua chegada a São Vicente, pôde ver com os seus próprios olhos quase concluído o Cais Acostável do Porto Grande, o grande sonho da sua vida. Conta-se que um grupo de amigos íntimos o persuadiu a desembarcar por sobre aquele imenso dorso. Foi assim que o Dr. Adriano desembarcou, e pela última vez, na sua amada ilha.

 

Falecia oito dias depois, no seu solar, a “Casa Adriana”, quase fronteiro ao Liceu, e sobranceiro, como miradouro, à baía do Porto Grande, hoje demolida.

 

O povo do Mindelo prestou-lhe a última homenagem ocorrendo em massa ao seu funeral. O cortejo teve sempre a acompanhá-lo músicos que tocaram a “sua morna”, a morna “Dr. Adriano”, feita por B.Léza em sua honra. O féretro desceu à campa ao som da morna “Hora di Bai” de Eugénio Tavares. Em 01 de Dezembro de 1964 foi inaugurado um busto em sua memória na sua cidade natal na praça fronteira ao edifício do antigo liceu. Em 1975, após a independência, o busto foi retirado e seu nome votado ao ostracismo durante algum tempo, mas não foi esquecido. Alguns anos depois o busto voltou ao seu pedestal.

 

Pelas celebrações do centenário do Liceu de Cabo Verde é de justiça homenagear o Dr. Adriano Duarte Silva, ilustre professor e primeiro reitor do liceu cabo-verdiano.

 

- Manuel Brito-Semedo

 

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1 comentário

De jose lopes a 27.11.2017 às 08:23

Excelente artigo. Bravo pela homenagem merecida

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