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Amílcar Cabral, Um 'Mocin de SonCent'

Brito-Semedo, 20 Jan 14

 

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Edifício do Antigo Liceu Gil Eanes. Foto Zepatta, 25.Dez.2013

 

 

Manifesto a honra do convite para fazer a apresentação deste livro devido ao peso simbólico de Amílcar Cabral e ao significado da data, o Dia dos Heróis Nacionais. Há pedidos que não se podem recusar, pela estima e consideração que se tem à pessoa ou às pessoas que no-lo fazem, se bem que, com sessenta anos, se tenda a já só se fazer aquilo que dá prazer e satisfação. Confesso que foi, pois, com satisfação e prazer que aceitei o convite e o desafio.

 

AMÍLCAR CABRAL, UM “MOCIN DE SONCENT”, DE CERTÉZA

 

Sou a afirmar, antes de mais, que Amílcar Cabral é um “Mocim de SonCent”. Sim, um “Mocim de SonCent", de certéza, no sentido em que ele é produto desta cidade do Mindelo. São Vicente tem este dom de acolher bem todos e de os fazer sentir-se em casa e filhos-de-dentro, ou não seria a sua cidade do Mindelo cosmopolita desde a sua origem, habituada a receber gente que chega e que parte para outras paragens.

 

 

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Amílcar Lopes Cabral (12.Set.1924 – 20.Jan.2013), após o exame do 2.º grau na Escola Central da Praia, vem viver para São Vicente e frequentar o Liceu, onde conclui o 7.º ano de Ciências em 1943. Esta vivência em Mindelo dos 13 aos 19 anos, numa época marcante para a sua vida, porque de aquisição de características e competências que o capacitariam a assumir os deveres e os papéis sociais do adulto, terá, por isso, sido fundamental para a sua formação enquanto intelectual, humanista e político.

 

Recorde-se que Amílcar Lopes Cabral chega a Mindelo em Agosto de 1937 e é matriculado no Liceu Central Infante Dom Henrique, sendo seu encarregado de educação o industrial Manuel Ribeiro de Almeida. As aulas iniciam-se a 6 de Outubro, mas, decorridas escassas três semanas, o liceu é encerrado, ficando São Vicente e Cabo Verde “de luto”.

 

O liceu volta a abrir a 9 de Novembro, doze dias após o seu encerramento, agora com o nome de Liceu Gil Eanes, devido a uma alargada mobilização da sociedade mindelense, que envolveu Deputados Nacionais em Lisboa, Câmara Municipal de São Vicente, associações de classe, associação dos pais dos alunos do Liceu, Organizadores da União Nacional, Imprensa, Associação dos Falcões de Cabo Verde, Associação Escolar do Liceu, Clubes desportivos, Associação Operária e de pessoas de todas as categorias.

 

Um grande susto para o menino Amílcar Lopes Cabral e para a mãe, D. Iva, que se mudara para São Vicente com os demais filhos para o poder acompanhar. Mas esta era mais uma das muitas convulsões pela qual passava a ilha e não seria a última.

 

A década de trinta entrara com uma grave crise mundial (1929-1934) e Cabo Verde, apesar de minúscula partícula desse imenso todo, não pôde deixar de sentir a sua repercussão. Havia, ainda, a “orientação política que subjazia à administração da, então, colónia de Cabo Verde, com o seu fascismo de importação e imitação e ignorava ou violava os mais elementares princípios que regem a vida do homem e do cidadão e salvaguardam a liberdade individual”, no dizer do Professor Baltasar Lopes, Reitor do Liceu Gil Eanes por vários anos.

 

Em 1932, a ilha de S. Vicente atravessava momentos torturantes. A companhia carvoeira Wilson Sons reduzira a semana a 4 dias e meio e falava-se em que, continuando a actual situação, ver-se-iam as outras companhias obrigadas a diminuir o pessoal. Os trabalhadores passavam dias e dias sem trabalho.

 

Tornando-se a situação insustentável, a 7 de Junho de 1934, dá-se a manifestação de rua conhecida como a Revolta de Nhô Ambrôze, com o povo a fazer saber às autoridades que estava passando toda a casta de privações por falta de trabalho.

 

No plano literário e cultural, é publicada a Revista Claridade, cujos três primeiros números sairiam em 1936 (Março e Agosto) e 1937 (Março), que viria a dar origem ao “Movimento Modernista Cabo-verdiano” ou o “Movimento da Claridade”. Outrossim, para além da componente académica e cultural do Liceu Gil Eanes, com a criação da Academia Cultivar, a própria cidade do Mindelo era um viveiro efervescente de actividades culturais.

 

Seguiu-se a década de quarenta que entrara sob o impacto da segunda Guerra Mundial, tendo também contribuído para a crise do Porto Grande, levando ainda mais à diminuição da entrada de barcos.

 

A agravar a situação, há a crise agrícola de 1941-1943, que leva à desesperante emigração forçada para São Tomé. Tudo isso vivido pelo jovem Amílcar Cabral, agora, de uma forma mais consciente e intensa, como estudante do segundo e do terceiro ciclos do Liceu Gil Eanes.

 

Apesar da dimensão que Amílcar Cabral viria a alcançar a nível de Cabo Verde, da África e do Mundo, e do importante período da sua formação como pessoa que viveu em S. Vicente, é de se observar o facto de a Cidade do Mindelo não o ter assumido como sua pertença, uma vez que é dos principais centros urbanos de Cabo Verde, senão, o único, onde não existe uma estátua, um busto, uma avenida ou uma rua com o seu nome.

 

A ligação de Amílcar Cabral à toponímia da cidade do Mindelo está unicamente na atribuição do seu nome à “Praça Nova”, cujo “nominho de casa” – Praça Nova – é tão antigo e está tão arraigado na gíria dos mindelenses, que é este que prevalece na sua identificação no dia-a-dia, ficando o nome de Amílcar, portanto, esquecido. Aliás, acontecendo o mesmo com a Rua de Lisboa, apesar de todas as tentativas em lhe atribuir outra designação – quem se lembra que ela é Rua Libertadores de África? – ou a Pracinha da Igreja, que ninguém conhece por Praça Pidjiguiti, ou ainda a Salina ou a Praça Estrela, baptizada de Praça da Independência.

 

Situação diferente é a da Praça Dom Luiz, na verdade, a praça principal ou a “praça velha”, cujo nome lhe foi atribuído em 1860 para comemorar a visita do então infante Dom Luiz, segundo filho da rainha Dona Maria II e herdeiro do trono depois da morte do irmão mais velho, Dom Pedro V. Essa praça viria a ser demolida em 1895 para, nesse local, serem construídos os quintalões da Companhia Nacional. O nome original da praça foi recuperado em 2010, quando a Câmara Municipal fez obras nesse espaço, restituindo-o à sua função primeira.

 

Embora a maior parte dos sanvicentinos de hoje não saiba quem é Dom Luiz, esta praça é assim identificada por todos. A acompanhar os tempos e os ventos da História, melhor seria se a Praça fosse baptizada de Luís de Musa ou Luís Morais.

 

Um exercício curioso seria analisar as razões que estarão por trás da não apropriação em São Vicente dos nomes das toponímias ligados à África e atribuídos depois da independência nacional.

 

Regressando ao nosso tema, permitam-me daqui sugerir à Comissão Municipal de Toponímia analisar a eventualidade de colocação do busto de Amílcar Cabral na sua “Praça Nova” ou, mesmo, numa das principais rotundas da cidade.

 

20 DE JANEIRO, O DIA DOS HERÓIS NACIONAIS

 

Considero, pelo que acabo de dizer, que a realização deste acto central do “20 de Janeiro” em Mindelo, no ano do 90.º aniversário de Amílcar Cabral, com o lançamento deste seu Pensar para Melhor Agir, é de particular importância.

 

Vejo nisso um reconhecimento da Fundação Amílcar Cabral e do seu Presidente à ilha de São Vicente e à cidade do Mindelo, pelo seu contributo na formação deste grande “arquitecto das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde”. Ao mesmo tempo que Mindelo surge como um lugar simbolicamente importante para a divulgação do pensamento de Amílcar Cabral.

 

Estou em crer que, só com o conhecimento do seu pensamento e da sua obra, Amílcar Cabral será visto e apropriado, com toda a legitimidade e orgulho, como um dos mais ilustres filhos de Cabo Verde e de África.

 

2013, O ANO DE AMÍLCAR CABRAL

 

Para assinalar os 40 anos da sua morte, foram realizadas actividades que marcaram o ano de 2013 e tiveram o propósito de contribuir para a divulgação do pensamento de Amílcar Cabral:

 

• Declaração “2013, Ano de Amílcar Cabral da Universidade de Cabo Verde”, com a aula magna de abertura do ano académico 2012/2013 sendo proferida pelo guineense, Doutor Julião Soares Sousa, autor de Amílcar Cabral (1924 – 1973). Vida e Morte de um Revolucionário Africano, e a criação da Cátedra Amílcar Cabral, um centro de investigação sobre o pensamento e obra do seu Patrono (Praia/Mindelo, Novembro.2012);

 

• Realização do Fórum Amílcar Cabral, “Por Cabral, Sempre”, pela Fundação Amílcar Cabral (Praia, Janeiro.2013);

 

• Reedição dos dois volumes de Unidade e Luta I – A Arma da Teoria e Unidade e Luta II – A Prática Revolucionária, publicados pelo Comité Executivo da Luta do PAIGC em 1974, com coordenação de textos de Mário de Andrade, reeditados em 1977 pelas Edições Seara Nova, de Portugal (Praia, Junho.2013);

 

• “Comemorações 5 de Julho”, sob a responsabilidade da Fundação Amílcar Cabral (Mindelo, Julho.2015);

 

• Edição cabo-verdiana de Amílcar Cabral (1924 – 1973). Vida e Morte de um Revolucionário Africano, pela Spleen Edições, com o patrocínio da Fundação Amílcar Cabral e da Cátedra Amílcar Cabral (Praia/Mindelo/Espargos, Outubro/Novembro.2013).

 

PENSAR PARA MELHOR AGIR – INTERVENÇÕES DE AMÍLCAR CABRAL

 

Pensar para Melhor Agir é uma compilação das intervenções pronunciadas em crioulo da Guiné-Bissau por Amílcar Cabral no Seminário de Quadros destinado aos responsáveis do Partido, que decorreu de 19 a 24 de Novembro de 1969, em Conacri, capital da República da Guiné, um acontecimento que marcou “um dado estádio da evolução, do avanço, da nossa luta”.

 

Quarenta e cinco anos depois de ser formulada no Seminário de Quadros, mantém-se actual a certeza de Amílcar Cabral:

 

“[…] o valor de um homem ou de uma mulher mede-se pelo conjunto das ideias, pela força das ideias que tem na cabeça. E sabem bem que um seminário como este vai reforçar o conhecimento que temos sobre o caminho que estamos a seguir na etapa actual da nossa marcha para a liberdade, onde estamos e para onde vamos” (pág. 25).

 

O facto de Amílcar Cabral ter podido definir e analisar a posição do Partido em relação a muitos problemas de forma profunda, de improviso, sim, de improviso – “não tive tempo para escrever nada” – e expor a verdade clara sobre a situação da luta e sobre os seus sucessos mostra que ele foi, para além de um grande político e estratega, um grande intelectual.

 

Não tenho a pretensão de aqui fazer a análise do discurso político de Amílcar Cabral nesse seminário, pois estão nesta sala pessoas melhor preparadas para o efeito.

 

Vou, tão-somente, referir-me à importância da publicação dessas intervenções e do significado da sua organização e apresentação em livro numa data simbólica como o “20 de Janeiro”, Dia dos Heróis Nacionais, enquanto fonte de conhecimento do passado, para nos ajudar a entender o presente e, assim, projectar um futuro melhor e mais digno.

 

Antes de mais, destaco o excelente trabalho de transcrição e de passagem do registo oral do crioulo da Guiné para um Português escorreito e literário, retirando-lhe as marcas da oralidade sem deturpar o sentido. Esta é uma mais-valia desta obra, mas o seu maior mérito é o facto de, pela primeira vez e depois de 45 anos, este conjunto de intervenções estar disponível e acessível a todos os estudiosos e interessados.

 

Pensar para Melhor Agir encontra-se organizado em sete capítulos que, de uma maneira geral, seguem a ordem cronológica das intervenções – (1) Saudação; (2) Situação actual da luta; (3) Os princípios do partido e a prática política (com a temática Unidade e luta, Realidade cultural, realidade política, O nosso Partido e a luta devem ser dirigidos pelos melhores filhos do nosso povo, Luta do povo, pelo povo, para o povo, Independência de pensamento e de acção, Nem toda a gente é do Partido, Democracia revolucionária, Fidelidade aos princípios do Partido); (4) Análise dos tipos de resistência (temas Resistência política, Resistência económica, Resistência cultural); (5) Para a melhoria da nossa luta (focando Evolução e perspectivas da luta, Aperfeiçoar o trabalho político no plano interno, Desenvolver o trabalho político no plano exterior, Intensificar a acção das nossas Forças Armadas); (6) Debate geral e (7) Intervenção de encerramento.

 

É meu entendimento que a apresentação de um livro consiste, essencialmente, em fazer a sua apreciação, dar pistas interpretativas e criar o gosto pela sua leitura, objectivo este que creio já ter alcançado; por isso, não me vou alongar mais nas minhas considerações.

 

Termino, assim, com as palavras premonitórias e de testamento de Amílcar Cabral no encerramento do Seminário de Quadros:

 

“Camaradas, estamos no fim do nosso seminário e não posso falar muito mais, pois estou esgotado. Vivemos seis dias de trabalho intenso, trabalho que o camarada Vasco classificou, com razão, como tendo sido uma das maiores vitórias do nosso Partido. Temos a certeza de que todos os camaradas saem daqui mais enriquecidos”.

 

“Camaradas, (…) jurei a mim mesmo trabalhar para o meu povo. Jurei a mim mesmo que, até ao dia em que morrer, darei a minha vida, toda a minha energia, coragem e a capacidade que posso ter como homem ao serviço do meu povo, na Guiné e Cabo Verde, ao serviço da causa da Humanidade, para dar a minha contribuição para que a vida do homem no mundo se torne melhor. É esta a minha missão”.

 

“Camaradas, (…) no fim deste seminário, tenho a sensação de ter cumprido o meu dever, porque tenho a consciência do que estou a fazer e a dizer e sei muito bem o que a Direcção do Partido quer com este seminário” (pág. 433).

 

Quatro anos mais tarde, em 1973, num dia como o de hoje, Amílcar Cabral viria a ser assassinado, não antes de ter deixado todo um legado político e intelectual à sua geração e às gerações vindouras. Apropriemo-nos, então, desse legado!

  

Mindelo, 20.Janeiro.2014

 

Pensar para Melhor Agir

Edição da Fundação Amílcar Cabral

Praia, 2014 

 

NB – Este é o post n.º 1.700  

  

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4 comentários

De José F Lopes a 21.01.2014 às 19:13

Pois é Amilcar Cabral é um Mnin de Soncent por adopção. Acredito que na formação da sua dimensão humana, incluindo o social e o intelectual, contou muito o ambiente cultural da ilha época em que ele viveu. Não diria o político pois as teorias políticas que ele oi portador como todos sabemos foram adquiridas em Portugal, França e nos países da África onde residia.
 O Liceu Gil Eanes era a ante-câmara para a Universidade e para o mundo e estava destinado somente à elite económica e social do arquipélago. Amilcar muito beneficiou desta Escola hoje em decrepitude, ela mesma situada numa ilha hoje totalmente apagada.

De Valdemar Pereira a 21.01.2014 às 20:39

Incrivel que não apareça ninguém para, junto do Governo, defender a causa do Liceu Gil Eanos por onde passaram vàrios alunos que enriqueceram (enriquecem) a Nação Cabo-verdiana.
Além disso, trata-se de um Patrimônio Nacional que merece ser acarinhado por todos.

De Monica Dias a 02.06.2014 às 14:31

Muito boa tarde. Estou a fazer uma pesquisa sobre os antigos edifícios da cidade do Mindelo e o seu Blog tem me servido imensamente. Nos conhecemos no ano passado, lhe dei uma boleia ao Hotel Porto Grande mas se não se lembra não há problema nenhum. O meu comentário tem a ver com a Praça Dom Luiz que aqui o Sr. diz que foi reconstruida em 2010 mas segundo outras pesquisas e pelo que me lembro também porque sou da ilha teria que ser mais tarde (2005) poderia confirmar???? Também se não for abusar terá um email que lhe posso escrever para o Sr. (se tiver disponibilidade de me facultar algumas informações)? Desde ja grata pela atenção 

De Brito-Semedo a 02.06.2014 às 18:45

Cara Amiga, Use o contacto da Esquina para me contactar, que terei imenso prazer em lhe responder. Um abraço.

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