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 Antónia Gertrudes Pusich, São Nicolau, 1805-1883

 

 

Antónia Gertrudes Pusich, conhecida como “grande escritora, jornalista, música e ‘feminista’ portuguesa”[1] do século XIX, é, na verdade, natural de Cabo Verde, ilha de São Nicolau, onde nasceu a 1 de Outubro de 1805, e quinta filha de António Pusich, que foi Intendente da Marinha e Governador-Geral de Cabo Verde.

 

Em 1801 António Pusich fora nomeado Intendente da Marinha de Cabo Verde, o único intendente que o arquipélago de Cabo Verde alguma vez teve, mudando-se para as Ilhas, onde lhe nasce a filha Antónia Gertrudes. Terminada a sua comissão como intendente da marinha em 1811, Pusich volta a Lisboa, prosseguindo dali para a Corte, na altura sediada no Rio de Janeiro.

 

Posteriormente Pusich foi nomeado Governador-Geral de Cabo Verde, entre 1818 e 1821, ficando o seu nome ligado à ilha de São Vicente ao rebatizar, em 1819, a Aldeia de Nossa Senhora da Luz com o nome de Vila Leopoldina (em homenagem à Dona Maria Leopoldina, Arquiduquesa de Áustria e primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826).

 

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Capela de Santo António dos Navegantes, Preguiça, São Nicolau, mandada construir em 1805 por António Pusich pelo nascimento da sua filha Antónia Gertrudes. Foto Leontina Barreto

 

Primeira mulher jornalista e directora de periódicos

 

Antónia Gertrudes Pusich foi a primeira mulher que, como jornalista e directora de publicações periódicas, pôs o seu nome no cabeçalho, sem se esconder, como até aí outras mulheres o haviam feito, atrás de um pseudónimo masculino.

 

Antónia Pusich fundou e dirigiu os jornais “Assembleia Literária” (jornal de instrução), Lisboa, [1849?]-1851; “Beneficência” (jornal dedicado à Associação consoladora dos aflitos), Lisboa, 1852-1855; e “A cruzada” (jornal religioso e literário), Lisboa, 1858, a testemunhar a sua intervenção na pedagogia e na vida social e política da sua época[2].

 

Da vasta obra que deixou publicada, destaca-se o poema Olinda ou A Abadia de Connor Place (1848) e Saudade (1859). Fez teatro e escreveu sobre membros da família real, como Canto saudoso ou lamentos na solidão á memoria do Dom Pedro Quinto (1861). Redigiu uma monografia sobre o seu pai em 1872: Biographia de Antonio Pusich contendo 18 documentos de relevantes serviços prestados a Portugal por este illustre varão; Resumo da história da republica de Ragusa e sua antiga literatura, um documento importante para o conhecimento da História de Cabo Verde de um determinado período.

 

Primeira mulher no Almanaque de Lembranças

 

Antónia Gertrudes Pusich colaborou no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932)[3], tendo sido o primeiro escritor de Cabo Verde, e mulher, a ali publicar, no caso, o poema “Um cipreste”, no seu número de 1854:

 

Ou de bronze s estátuas douradas,

Ou gigantes marmóreos padrões,

Representem das eras passadas

As grandezas, vitórias e acções.

 

Sejam vozes de eterna harmonia,

Da virtude o devido troféu;

Doire as sobras da morte a poesia,

Dê-lhes vida essa luz que é do Céu.

 

Sob as campas descanse o passado,

Que me soube tão ledo sorrir!...

No horizonte, de nuvens guardado,

Seus mistérios esconda o porvir.

……………………………..

 

Seguiram-se em 1855, “Ao Sr. A. F. de Castilho. No encerramento do curso normal de leitura repentina. Memória”; em 1856, “Madeira. Saudação lírica”; em 1857, “Lamentações. Oremos pelos finados”; em 1858, “Chora!”; e em 1859, “A uma viúva inconsolável. A flor pendida”, num total de cinco poemas longos seguindo os cânones da época do Romantismo Português.

 

De recordar que Guilherme da Cunha Dantas, outro dos fundadores da literatura cabo-verdiana, só faria a sua estreia poética no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro em 1875 – se bem que já tivesse publicado Contos Singelos (Mafra, 1867) e um texto em prosa no Almanaque Luso-Brasileiro no ano de 1872 – seguido da Africana, em 1883 (ano da morte de Antónia Gertrudes Pusich); Eugénio Tavares, em 1885; e José Lopes da Silva, Sénior, em 1888.

 

Numa época em que as mulheres estavam confinadas à família, à música e aos bordados, Antónia Gertrudes Pusich defendeu que deveriam também aprender a ler e a escrever para poderem participar na vida social e política do País. Através dos jornais que fundou despertou nas mulheres o sentido cívico que viria a ser uma realidade nos séculos que se lhe seguiram.

 

Não apenas coser, pintar e bordar

 

“Nos outros colégios do Estado e ainda nas escolas particulares igual esmero se vai tendo com a instrução dos meninos e honra seja feita aos professores e directores desses colégios. Mas as meninas!... As meninas imploram atenção, e de todas as pessoas que nutrem sentimentos de humanidade e desejos de ver prosperar a sua pátria. [...]. Enquanto em nossa terra as mulheres não tiverem a precisa instrução literária, ensinam a coser, marcar, bordar, música, etc. Porém a ler, escrever, contar, etc., não. E ainda menos outros estudos. Que mal pode ensinar alguém o que mal sabe... Poucas senhoras sabem escrever bem [...]. Aparecem numa sociedade, ostentam uma brilhante conversação, fazem uma elegante figura... encantam os espectadores... seduzem... adquirem nomeada, estudam todas essas aparências fosfóricas (sic); vai um sábio entrar com elas em discurso... onde está o espírito dessas fascinantes beldades?... Evaporou-se! Nem sabem dar uma razão do que dizem.” – Antónia Pusich, 25 de Agosto de 1849

 

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 Casa onde morou a 1.ª mulher que ousou o seu nome no cabeçalho de um jornal.
Rua de São Bento, Lisboa

 

Por tudo aquilo que ficou aqui dito, Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, 1.Outubro.1805 – Lisboa, 6.Outubro.1883) não pode ficar confinada às estantes das bibliotecas portuguesas nem à lápide que a Câmara Municipal lhe colocou na última casa onde morou, na Rua de São Bento, em Lisboa, ela precisa ser conhecida, estudada e apropriada por Cabo Verde como uma das pioneiras e fundadoras da sua literatura.

 

Manuel Brito-Semedo

 

_____________

[1]TALAN, N., “In memoriam à esquecida Antonià Gertrudes Pusich” – SRAZ L, 145-192 (2005).

[2] BOLÉO, Maria Luísa V. Paiva, in “O Leme”, http://www.leme.pt/biografias/pusich/

[3] Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro – Presença Cabo-verdiana, 1851-1900, Vol. I, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2012.

 

 

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