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“Crónicas de Mindelo" na Praia (1)

Brito-Semedo, 6 Mai 14

 

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Apresentação da Esquina (da esquerda para a direita): Vera Duarte, Brito-Semedo e Fátima Bettencourt. Foto: Cláudia Bettencourt.

 

 

- Fátima Bettencourt, Praia

 

Há mais ou menos cinco anos o Brito-Semedo me convidou a apresentar a sua… digamos… primeira esquina. Eram crónicas que reviviam e registavam memórias antigas e por isso ele as chamou Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá. O que então me habilitava ao desempenho de tal tarefa, era uma promessa que o Brito fizera num evento anterior em que eu apresentava outro autor. Ele teria dito então que quando crescesse escreveria um livro para eu apresentar. Como facilmente se constata, o Brito cresceu bem e depressa, tanto que já vai na segunda Esquina insistindo sempre na mesma apresentadora. O título agora escolhido é Na Esquina do Tempo – Crónicas de Mindelo – as duas obras bebidas no Blogue que o autor vem mantendo há algum tempo e partilha com amigos em gostosa cumplicidade na já conhecida linha de generosidade e entusiasmo típica do Brito-Semedo. 


Ainda tentei demovê-lo da ideia de bisar a apresentadora para poupar o público duma presença já demasiado frequente. Infelizmente, fui logo silenciada com argumentos que não davam lugar a alternativa. Justificada, mais ou menos, a minha presença aqui, vamos ao que interessa e que faço com o maior prazer.

 

Meus amigos,

 

Digo-vos que em boa hora o Brito construiu esta Esquina a meio caminho entre o passado, o presente e o futuro. Não só a construiu como ali se instalou com um grupo de amigos para reforçar ainda mais a excelente tessitura do convívio, da cumplicidade, do afeto e do djuntá-mom. Diria que estou tentando justificar a escolha do Brito que incide numa esquina e não num banco da Praça ou degrau de escada à porta de casa, por exemplo. Esquinas como se sabe, são lugares por onde perpassa uma aragem fresca e repousante, melhor ainda se estivermos apoiados numa parede vetusta como a da Alfândega Velha no Mindelo, não por acaso representada na capa do livro. Não menos determinante é o facto de a esquina ser também um ponto de observação privilegiado de onde se pode captar o pulsar da cidade, da ilha e até do país e do mundo. Esta esquina em particular é aquela que nos permite o acesso à Marginal, ao Monte Cara e seu soberbo pôr-do-sol, aos ruídos do Porto Grande e das ruas que confluem para ela. Do chão que pisamos ecoam vozes, risos, sussurros à mistura com o murmúrio do mar. Ora de tal conjugação paisagística e humana só podia resultar coisa boa, tão boa e tão bonita que foi escolhida, entre os bens do autor, para ser embalada e atada para presente no centésimo trigésimo quarto aniversário da cidade do Mindelo completados no dia 14 de Abril. Tão boa ainda para merecer um belo prefácio de Germano Almeida e agora este evento apadrinhado pela Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

O livro que aqui temos é um somatório de contribuições de vários autores, a maior de todas o próprio Brito-Semedo, naturalmente. Não se trata de temática concertada pois alguns desses cronistas nem sequer se conhecem. Estão irmanados apenas num ponto: o amor pela sua cidade, a sua ilha, o seu país e sobre eles escrevem às vezes com paixão. Eis porque, em minha opinião, quem ama e canta o seu torrão, a sua ribeira ou cutelo, cidade ou vila, está apenas tentando retribuir o que a terra lhe oferece – um lugar a que ele possa chamar de seu. Só quem já viveu longe da sua terra é que sabe da necessidade vital de sentirmos debaixo dos pés um chão que é nosso.

 

Mas não vamos afastar-nos da Esquina até porque no sentido comum é ela que nos oferece uma visão panorâmica do espaço em volta que dá para acompanhar os passos de quem vai e quem vem. A esquina é o lugar de encontros e pequenas reuniões mais ou menos casuais de 3/4 pessoas que recebem as contribuições dos que passam e nunca deixam de parar uns minutinhos para, como se diz na gíria mindelense, pôr um boné. O ritmo de vida é tranquilo, aquilo que o mindelense chama de slow, pelo menos durante o dia. O tempo dá para tudo, principalmente para cultivar a convivência e a amizade, a amena cavaqueira descompromissada que pode até se transmutar em conversa séria sempre que estão em causa questões que afetam a comunidade. Com todos os defeitos que o mindelense possa ter e que parecem estar por aí divulgados dentro e fora das nossas fronteiras, não se lhe pode negar esse espírito gregário, de solidariedade, de interajuda, o que transforma o mindelense e a sua cidade praticamente num corpo só. Devo esclarecer aqui que quando se diz “mindelense” estamos falando de todos os habitantes da ilha quer sejam da cidade, do Calhau ou do Pé-de-Verde; quer sejam naturais ou  adotados.

 

Desculpem falar assim, como diria o Zé Vicente, tão ternurenta, mas eu me sinto sempre em dívida para com a ilha de S. Vicente de quem sou apenas filha adotiva que de lá saiu há 26 anos, e ama agora outros lugares como esta cidade da Praia onde vivo, Assomada, o Tarrafal, a ilha toda cujos recantos não pude ainda descobrir completamente.

 

Caro amigo Brito, quero felicitar-te primeiro pela ideia generosa da construção deste livro e segundo pela forma brilhante como arrumaste as várias contribuições que para ele mobilizaste, fiel ao espírito de Esquina onde ninguém fica só porque qualquer passante se preocupa com aquele ou aquela que parece triste ou solitário e resolve o assunto parando para perguntar com um ar casual: “Manêra? Bô ta li ta guentá esse squina? Ao que o interpelado responde: “Hoje m’ca ta sabe, m’ta cum spirt boxe…” E assim o desanimado vai sendo arrastado para uma voltinha, agora já muito melhor e pronto a integrar a sugestão do outro.

 

O que ressalta do índice deste livro é que ninguém teve grandes preocupações de protagonismo a começar pelo próprio autor que nunca se põe em bicos de pés. É uma obra coletiva e é isso que a engrandece num tempo em que imperam o egoísmo e o atropelo ao próximo, cada um procurando o melhor ângulo para puxar o tapete aos demais.

 

Temos assim um ótimo prefaciador – o escritor Germano Almeida - que como um gentil mestre-sala nos conduzirá pelos caminhos do livro levando-nos às "Memórias Vividas" e depois às "Memórias Partilhadas", as duas partes do livro na feliz opção do autor. Iremos então passear pelas ruas e becos da cidade, pelos cheiros e paladares que de longe nos fazem revisitar Mindelo, a infância e a adolescência, os amigos e companheiros, os lugares típicos, as lojinhas de que já ninguém se lembra mais, a não ser por esta romagem de saudades e delícias que do mesmo passo nos levam a acompanhar o crescimento da cidade e os males que constrangem a ilha enquanto promove o seu resgate do esquecimento através deste registo feito de memórias vivas.

 

Com uma pena leve e uma escrita que dispõe bem o leitor, o livro acaba sendo a cara do autor, esse mesmo que anda pelas ruas de Mindelo saltitando como um passarinho e farejando no ar o cheirinho bom do pão de trança da Padaria de Anacleto. Repito, este livro é mesmo o rosto do seu dono, o tal cuja simpatia contagiante não dá lugar a que se lhe diga um “não”- na abalizada opinião de Germano Almeida que eu subscrevo inteiramente. Resta na primeira parte o espaço que o Brito dedica aos livros dos amigos que ele gentilmente apresentou: António Leão Correia  Silva, Osvaldo Osório, Carlos Gonçalves, Maria Santos, Gláucia Nogueira e Tchalê Figueira são os homenageados neste capítulo.

 

Caros Amigos,

 

Já tive oportunidade de agradecer ao Germano uns confetis que ele gentilmente atirou sobre mim e é sacudindo confetis do cabelo que vamos entrar na segunda parte do livro onde Brito-Semedo reúne amigos como: Adriano Lima, Luís Silva, Joaquim Saial, Viriato Barros e eu própria naquilo que podemos chamar de “milagre” pois ignorando detalhes como espaço, tempo e fronteiras, consegue nos juntar a todos no mais delicioso convívio. Os ícones de Mindelo não podiam ficar de fora desta festa, sim porque mais do que um livro temos aqui uma festa das letras, das memórias e das cumplicidades. Sendo Mindelo um lugar repleto de referências, o problema terá sido escolher duas: 'Memórias do Eden Park' e 'Memórias da Rádio Barlavento'. Na primeira irão os leitores encontrar outro simpático leque de participantes com os mais tocantes testemunhos. Na segunda evoca a Rádio Barlavento enquanto estende um fraterno amplexo de dez braços às outras ilhas que compõem o nosso país. Ali irão deparar com nomes cimeiros da intelectualidade cabo-verdiana como sejam: Baltasar Lopes, Adriano Duarte Silva, Jorge Pedro Barbosa, Aníbal Lopes da Silva, Júlio Monteiro Jr., Teixeira de Sousa e Maria Helena Spencer, a mais antiga jornalista cabo-verdiana, num texto lindo em que enaltece a ilha Brava nestes termos: “Nesta terra-jardim, sob uma permanente primavera, a luz tamisada pela cortina translúcida do nevoeiro, como poderiam nascer criaturas que não fossem meigas, amáveis, serenas e lindas como princesas de contos de fadas?”

 

Termino apoiando-me no escritor e amigo Germano Almeida para juntar aos dele os meus votos de que este livro do Manuel Brito-Semedo além de uma leitura muito prazerosa ajude ainda a uma reflexão geral sobre o futuro da cidade do Mindelo e da ilha de S. Vicente.

 

Praia, 06 de Maio de 2014

 

NOTA: Despacho da Lusa sobre o evento aqui.

 

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1 comentário

De Maria José Macedo a 07.05.2014 às 11:25

Parabéns Esquina do Tempo que  agora vira livro. Dr. Brito Semedo esqueci-me ontem de lá estar na BN para o lançamento do seu livro, peço desculpas ao mesmo tempo desejando para si sucessos com o  seu e livro.


Com os melhores cumprimentos
Maria José Macedo
Jornalista

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