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As Pirinhas-das-Ilha

Brito-Semedo, 10 Mar 17

 

Rebuçados 2.jpg

 

 

Para ti, Mulher

 

 

Nestes últimos dias tenho andado com saudades e às voltas com as pirinhas-das-ilha da nossa infância.

 

Vamos lá a ver se encontro alguma dessas pirinhas neste meu bolso sem fundo e no meio destas tralhas todas que são a minha memória – botões, pratins (caricas) e bolinhas de vidro para jogo de berlinde, tiras de borracha para fazer forquilha, cordel para apanhar pardal, giz para desenhar no passeio, fio de nylon para pescar e outras coisas mais.

 

As imagens e o sabor chegam-me desfocados, porque de há quase sessenta anos!

 

Para a precisão das informações e afinação das imagens desse tempo de diazá recorro normalmente ao meu amigo Valdemar Pereira, a viver em Tours, França, que foi colega da minha Mãi Xanda. Sim, esse mesmo, o Val do Nhô Hermínio e Nha Maninha, que moravam na casa de esquina na rua por trás da minha, do lado contrário da Nha Tereza. Lembras-te, Tchalê?! Pois, fui-lhe bater à porta/e-mail de novo.

 

Rebuçados

 

O Val, esse homem que tem uma memória fílmica fabulosa, explicou-me a orisma da coisa, como dizia a Ma Liza, recorrendo ao seu arquivo implacável e às suas memórias de m’nine d’ Tchã d’Sumtêr de um tempo ainda mais de diazá que o nosso.

 

Quem "inventou” as pirinhas, segundo Val, ou pelo menos quem foi a maior fazedeira e vendedeira dessa guloseima na Soncent no seu tempo de m’nine, foi a Nha Candinha, cuja filha Clarice foi companheira d'Anton Puntchinha, e tinha a sua vendinha na Rua Moeda, porta n.º 07, nos Armazéns da Casa Feijó, perto da Igreja de Nossa Senhora da Luz. Nha Candinha vendia, para além das pirinhas, rebuçado-de-cor, rebuçado-puxado, rebuçado-de-vidro, rebuçado-de-mancarra, açucrinha, doce de côco e, claro, bolacha e pão de trança.

 

As pirinhas eram vendidas a 4 por tostão – de recordar que 1 tostão era 10 centavos, ou seja, dez cêntimos de 1 escudo – moeda essa que os rapazins guardavam no fuksim, a algibeirinha das calças-de-perna-curta de suspensório.

 

– Bolas, pensar que por mei-tston qualquer m’nine dessa altura chupava uma guloseima... Arremata o Val!

 

Já no nosso tempo, Tchalê, as pirinhas, as nossas pirinhas-das-ilha, assim chamadas, eventualmente para as diferençar das que vinham de Dakar ou eram adquiridas nos ship-schandlers trazidas dos barcos estrangeiros que tocavam o Porto Grande do Mindelo, eram vendidas a meio tostão cada uma e tinham spirt, essência de uma fruta ou de uma erva-de-terra qualquer, sendo as de sabor a hortelã-pimenta, as minhas preferidas por me deixarem na boca um hálito fresco.

 

As nossas pirinhas preferidas eram as do Nhô Céza (do Monte), feitas de uma forma mais “industrial”, onde a pasta de açúcar era espalmada e recortada numa maquineta de prensa, fabrico dos irmãos Matos da Fábrica Favorita, que lhe dava a forma.

 

As pirinhas podiam ser compradas na Tchã d’Sumtêr em pontos estratégicos, na esquina do Nhô Afonso, junto à estrada, ao pé da Escola, ou em frente à casa da Ma Liza, minha avó.

 

As esquinas sempre presentes na minha vida e no meu imaginário!

 

As nossas pirinhas-das-ilha eram de chupar, fechar os olhos e estalar a língua no céu-da-boca de tanta satisfação. Sábe, sabin d’munde!

 

– Bróda, eu sempre fui guloso. Quando ainda muito pequeno, ia comprar pirinha em casa da Nha Bidjódja, uma casa no seguimento da nossa. Como ainda não sabia falar direito, eu pedia, nessa minha linguagem de criança, pirinha d’spirt d’nánáfa, querendo dizer, "espírito (essência) de ananás".

 

Por causa disso, a Da Luz, a filha da Nha Bidjódja, que foi colega da minha Mãi Xanda, até ela morrer, sempre me chamou Nánáfa. E eu detestava, mas nunca tive coragem de lhe dizer.

 

Já adulto, quando a via ao longe nas ruas da Morada, fugia dela a sete pés para ela não ter de me chamar por esse nome. Às vezes, fingia que não a ouvia, mas ela insistia chamando-me em voz alta (rrrr!!! Que raiva!):

 

Nánáfa, Ná-ná-fa, ó, Ná-ná-fa!.. Espera lá Môçe, preciso dar-te uma fala!

  

Manuel Brito-Semedo

 

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4 comentários

De Edna Tomar a 10.03.2017 às 21:14

Obrigada pa ese lembransa tão sabe de nha infância! Nha Candinha (Titita pa minine de lá de nôs rua) tava mora na rua da Luz. Nô tá morá quase frent a frent. El tinha rubsode mas sabe duqui tude ques ote (pelo menos pa nôs que fcá ta sperá quel "cabeça" de rubsode). :)

De Djack a 11.03.2017 às 19:15

Texto mais que saboroso: pelo que é e pelo que evoca. Nuam classificação de 1 a 5, dou 6.


Braça mindelense,
Djack

De Djck a 11.03.2017 às 19:16

Escrever directamente nos blogues dá nisto. Ali atrás, obviamente era "numa".

De Brito-Semedo a 11.03.2017 às 19:26

Brigada pela nota que arrebentou com a escala, rsss!!! Mas também quando se tem informantes como o Valdemar de Nhô Hermínio e Nha Maninha para nos fazer a cábula fica tudo mais fácil. Braça.

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