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Foto Hélder Doca, Outubro de 2015

 

 

– Boa-noite! Deus nos dê boa-noite!

 

Cumprimento-te, Djô, à moda de diazá, do tempo da Nha Violante e da Nha Liza, as nossas avós, de saudosa memória.

 

Desde ontem que me deste fala e me puseste perante e o facto de ter de te responder e retribuir pelas estórias que vens partilhando comigo há já algum tempo, que tenho estado ansiosamente à espera da boquinha da noite para “assistir no largo”, que é como quem diz, inverter os papéis, dirigindo-me agora eu a ti. Sim, à noite porque os afazeres do dia não deixam espaço para viagens pela memória dos tempos.

 

Djô, vejo em ti todas as características de quem viveu a sua infância com a avó. Falo por mim. É que sabes coisas e estórias de diazá na munde, mais antigas do que a tua própria idade. Só pode.

 

Na verdade, o que tu tens, Rapaz, é um dom incrível de, juntando as estórias de diazá – ouvidas umas, imaginadas outras – às tuas vivências de infância, recriar outras estórias, num estilo e numa linguagem próprios que já te são peculiares e que classifico como “estórias do Djô”. Elas mais parecem uma cachupa cozinhada no lume de lenha ou de carvão de pedra, temperada com uns bons nacos de toucinho velho salgado ou cabeça de albacória e bem apurada. Sabe de munde! Come-se e lambe-se os beiços, ou melhor, lê-se e quere-se ler mais, sempre mais.

 

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Foto Hélder Doca, Novembro de 2015

  

 

Estas estórias, contadas pelos dedos de uma mão – “Jog de futbol na fraldas”, “Última Serenata”, “Griga câ voltá”, “Ca’d Massong” e “Quel boi d’sobd lá na D’jacô – parecem contas de um mesmo rosário que compõem um conjunto especial de cinco mistérios e que retratam a vida nhanhida das gentes do povo de Soncente das décadas de quarenta, cinquenta e sessenta.

 

De fora ficaram quatro outras estórias contadas ao Lalela, “Senhôra non”, “Djidjê Fanock”, “Passeio de fim de tarde” e "Sonsilvestre", e duas outras mais do mesmo teor, que preencheriam uma novena de encontros diários do Djô mais o Lalela na Morada.

 

Estas estórias são uma mostra significativa da tua aptidão em criar, recriar e contar. Estórias essas que, a meu ver, mostram a tua capacidade de resistir culturalmente na terra-longe, sempre com a cabeça na tua Soncent, a terrinha querida deixada há mais de quarenta anos.

 

"Ainda hoje, refaço essas viagens na minha imaginação [...], percursos dessa realidade da infância de todos nós", dizes numa das tuas estórias. É o que o povo canta no batuque da Ilha de Santiago:

 

Corpo, qu’ê nêgo, sa ta bai,

Coraçom, qu’é fôrro, sa ta fica…

 

“O corpo, que é escravo vai;

O coração, que é livre fica…”

 

Salongue! Até à vista, Djô!

 

Lalela

 

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2 comentários

De Jorge Martins a 28.02.2016 às 21:41

Lalaela, fiquei tocado pelas tuas palavras e sem mais que te dizer, senão um grande obrigado, num abraço do tamanho desse mar que nos aparta, mas que não nos separa.


Mantenhas

De Valdemar Pereira a 29.02.2016 às 15:40

Bosóra, Djô e Lalela:
Diqui a nada ê de nôte, hora de contà estôria e bocês dôs bem intchi-m' de sodade.
Devera ! Gente ca podê chquecê Tchã d'Sumeter e aquis estorinha contode depôs de jantar, antes de ba durmi, pa Maria de Beta.
Deus btà nôs tude bençom !

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