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CV 100 Poemas.jpg

 

 

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

 

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

 

Caminante no hay camino,

sino estelas en la mar.

Caminhante, não há caminho,

faz-se caminho ao andar.

 

Ao andar se faz caminho,

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se voltará a pisar.

 

Caminhante, não há caminho,

mas sulcos de escuma ao mar.

 

 

Extracto de Proverbios y cantares XXIX, in Campos de Castilla, 1912

– Antonio Machado (Sevilha, 1875 – 1939)

 

 

Ocorreu-me este cantar do poeta modernista espanhol Antonio Machado ao pretender, num olhar retrospectivo, ainda que breve, revisitar os marcos do caminho já percorrido pela literatura cabo-verdiana, tomando como ponto de partida o longínquo ano de 1842, quando se publicou na Boa Vista o 1.º número do Boletim Official do Governo Geral de Cabo-Verde.

 

Precisei de um ponto de partida, de um marco zero, e recorri-me a este mas poderia ter tomado o ano de 1854, data da publicação do primeiro poema de um autor de Cabo Verde no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932), “Um cipreste”, de Antónia Gertrudes Pusich, precisamente esse que abre a antologia poética Cabo Verde – 100 Poemas Escolhidos.

 

Verso a verso, poema a poema, numa caminhada ombro a ombro com 56 poetas (mulheres e homens), num horizonte temporal que vai de 1854 a 2008, pouco mais de cento e cinquenta anos – curiosamente delimitado por duas mulheres, Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, 1805 – 1883) e Eileen Barbosa (Dakar, 1982) – num percurso de 100 Poemas Escolhidos.

 

Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar

 

O processo da valorização da literatura cabo-verdiana, sua internacionalização e estudo na Academia passa, a meu ver, pela (i) reedição de obras desaparecidas ou esgotadas, (ii) organização de antologias (poesia e prosa), (iii) edição de obras traduzidas, (iv) elaboração de uma História da Literatura.

 

Reedição de Obras Desaparecidas

 

De há uns tempos a esta parte, tem havido uma preocupação louvável em reeditar livros de referência há muito esgotados, obras póstumas e espólios de autores já desaparecidos, como José Evaristo d’Almeida (1810? – 1856?), Guilherme Dantas (1849 – 1888), Eugénio Tavares (1867 – 1930), Januário Leite (1867-1930), José Lopes da Silva (1872 – 1962), Félix Lopes da Silva ("Guilherme Ernesto") (1889 – 1967), Pedro Cardoso (1890 – 1942), e Sérgio Frusoni (1901 – 1975), para além do Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro – Presença Cabo-verdiana (Lisboa, 1851-1932), do Almanaque Luso-Africano (S. Nicolau, 1895 e 1899) e da Claridade – revista de artes e letras (Mindelo, 1936-1960) e dos já clássicos da literatura moderna como António Aurélio Gonçalves (1901 – 1984), Jorge Barbosa (1902-1971), Baltasar Lopes (1907 – 1989) e Manuel Lopes (1907 – 2004).

 

Organização de Antologias

 

Antologia modernos poetas.jpg

 

Até à edição de Cabo Verde – 100 Poemas Escolhidos houve já a organização de várias antologias. Que tenhamos conhecimento, foram as seguintes:

 

Modernos Poetas Cabo-verdianos, Antologia, Edições Henriquinas Achamento de Cabo Verde (Praia, 1961), no âmbito das comemorações do quinto centenário, selecção e apresentação de Jaime de Figueiredo, tendo sido a primeira do género, que teve um papel importante na produção do cânone da literatura poética cabo-verdiana.

 

No Reino de Caliban, Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa – I, Cabo Verde e Guiné-Bissau (Lisboa, 1975), organização, selecção, prefácio e notas de Manuel Ferreira que, livre das amarras da censura, dá a conhecer a poesia dos escritores dos novos países africanos de língua portuguesa, pese embora, no caso de Cabo Verde, a falta de conhecimento sobre o período anterior à Claridade.

 

Na Noite Grávida de Punhais, Antologia Temática de Poesia Africana, Volume I (Lisboa, 1976) e O Canto Armado, Antologia Temática de Poesia Africana, Volume II (Lisboa, 1977), organização e prefácio de Mário de Andrade.

 

Mirabilis de Veias ao Sol, Antologia dos Novíssimos Poetas Cabo-verdeanos (Praia/Lisboa, 1991), recolha, organização, selecção e apresentação de José Luís Hopffer Cordeiro Almada, onde figuram 57 poetas revelados após o 25 de Abril de 1974 cujos critérios são mais de dar visibilidade aos que escreviam e que ainda não tinham publicado do que propriamente uma preocupação com a estética literária.

 

Destino de Bai, Antologia de poesia inédita cabo-verdiana (Coimbra, 2008), organização de Francisco Fontes, jornalista que foi Delegado da Agência Lusa na cidade da Praia entre 2001 e 2004.

 

Para além dessas antologias referenciadas, houve outras preparadas por investigadores universitários no Zaire, no Brasil, nos Estados Unidos da América e na Itália, em francês, português, inglês e italiano:

 

No Zaire, Panorama de la Poésie du Cap-Vert (Zaire, 1980), organisation de J. Castro Segovia;

 

No Brasil, Sonha Mamana África, Antologia Panorâmica – Moçambique, São Tomé, Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde (Rio de Janeiro, 1987), organização de Cremilda de Araújo Medina; e Palavra de Poeta – Cabo Verde e Angola (São Paulo, 1999), Entrevistas, Antologias, Bibliografia dos Maiores Poetas de Cabo Verde e Angola, organização de Denira Rozário;

       

Nos Estados Unidos da América, Across the Atlantic: An Antology of Cape Verdean Literature (Univ. Massachussetts, 1988), edited by Maria M. Ellen; e Vozes Submersas (Tauntun, Massachussetts, 1990), organização de Donaldo de Macedo;

 

Na Itália, Isolie di Poesia (Turin, 1999), cura, traduzioni e introduzioni di Roberto Francavilla e Maria R. Turano.

 

De destacar, duas antologias bilingues, crioulo-português e português-inglês. Curiosamente, ambas editadas nos Estados Unidos da América:

 

Contravento, Antologia Bilingue de Poesia Caboverdiana (Tauntun, Massachussetts, 1982), selecção, tradução e apresentação de Luís Romano, dispondo os poetas por ordem alfabética, de Abílio Duarte (n. 1931) a Virgílio Pires (n. 1935).

 

Poets of Cape Verde/Poetas de Cabo Verde, A Bilingual Selection/ uma selecção bilingue (Provo/Praia/Lisboa, 2010), traduções, introdução e notas de Frederick G. Williams, que percorre toda a poética cabo-verdiana, de Guilherme Dantas (n. 1849) a José Luiz Tavares (n. 1967), num total de trinta e cinco poetas e 135 poemas.

 

Como ia dizendo, Cabo Verde, 100 Poemas Escolhidos, é a mais recente antologia poética, com organização de Érica Antunes Pereira (Brasil), Maria de Fátima Fernandes (Cabo Verde) e Simone Caputo Gomes (Brasil), edição Pedro Cardoso Livraria, Praia, 2016.

 

Curiosamente, são três mulheres investigadoras universitárias a escolher 100 poemas de uma maioria de autores homens. Talvez outras pessoas escolhessem outros textos e ou outros poetas, não é isso que está em causa já que qualquer escolha é a “vista do meu ponto” ou o “meu ponto de vista”, mas a necessidade da explicitação dos critérios seguidos e adoptados.

 

Procurarei muito rapidamente traçar o perfil dos 56 poetas antologiados, pois a meu ver, isso pode mostrar o que é importante e realçar o que é essencial, segundo a época (século), o género (masculino/feminino) e a região (barlavento/sotavento/outra).

 

 

ÉPOCA

GÉNERO

REGIÃO

Século

Masculino

Feminino

Barlavento

Sotavento

Outra

M

F

M

F

M

F

Séc. XIX

6

5

1

2

1

3

-

-

-

Séc. XX

50

45

5

26

3

15

2

3

1

TOTAL

56

50

6

28

4

18

2

3

1

 

 

Perante este quadro, constata-se que há uma predominância de autores do género masculino (89%) sobre o feminino, em que 50% é proveniente da região de barlavento, 32% de sotavento e 5% nascido fora do arquipélago (Bafatá, Cacheu e Lisboa).

 

As razões podem ser explicadas pelas realidades das diferentes épocas: (i) a mentalidade de que as mulheres deviam estar confinadas à família, à música e aos bordados, (ii) as condições socio-económicas das famílias e (iii) a criação de instituições de ensino, primeiro o Seminário Liceu em São Nicolau, de 1866 a 1917, e depois o Liceu laico em São Vicente, a partir de 1917.

 

A única mulher a figurar no quadro do século XIX é Antónia Gertrudes Pusich, filha de António Pusich, austríaco que foi Intendente da Marinha e Governador-Geral de Cabo Verde.

 

Em 1801 António Pusich fora nomeado Intendente da Marinha de Cabo Verde, mudando-se para as Ilhas, onde lhe nasceu a filha. Posteriormente foi Governador-Geral de Cabo Verde, entre 1818 e 1821, ficando o seu nome ligado à ilha de São Vicente ao rebatizar, em 1819, a Aldeia de Nossa Senhora da Luz com o nome de Vila Leopoldina (em homenagem à Dona Maria Leopoldina, Arquiduquesa de Áustria e primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826).

 

Seria igualmente relevante saber quem são esses poetas, eventualmente funcionários públicos, professores, juristas e jornalistas, bem como a data da publicação dos poemas e de onde foram retirados, para que nos pudessem ajudar a entender como, através da poesia, foram as vozes de seus tempos, espaços e lugares.

 

Sendo as organizadoras deste Cabo Verde – 100 Poemas Escolhidos docentes e investigadoras universitárias, destaco o papel que a Academia tem nas vertentes investigação, ensino e extensão, em parceria e em articulação com o Estado, com o Privado e com as Associações de Escritores e as Academias de Letras.

 

Edição de Obras Traduzidas

 

Nestes dois últimos anos, com as novas editoras cabo-verdianas Pedro Cardoso Livraria e Rosa de Porcelana a disponibilizar as suas publicações nas principais livrarias portuguesas, estabeleceu-se uma plataforma importante para se poder chegar a todos os países de língua oficial portuguesa. Contudo, se se pretender ampliar esse mercado e chegar, por exemplo, ao mundo anglófono ou francófono, será preciso apostar na tradução, eventualmente em edições bilingues, e, claro está, participar nas principais feiras internacionais do livro e em fóruns internacionais de escritores.

 

Nesse caso, será preciso a definição de uma política nesse sentido e uma forte intervenção do Estado no apoio ao sector editorial e livreiro.

 

 Elaboração de uma História da Literatura

 

Com o corpus documental já existente – obras reeditadas, organização de antologias, elaboração de dissertações e teses académicas – sem esquecer a investigação que deve haver sobre a literatura infantil, as cantigas, os mitos e os provérbios populares, a próxima etapa deverá ser a elaboração de uma História da Literatura, a ser preparada por uma equipa integrada por académicos, investigadores e estudiosos da literatura e da cultura cabo-verdiana.

 

Caminante no hay camino, / sino estelas en la mar

 

Os 100 Poemas Escolhidos percorrem todos os caminhos/períodos da literatura cabo-verdiana, indo do Romantismo ao Simbolismo da contemporaneidade, passando pelo Realismo Telúrico e da Modernidade, os mesmos períodos que, grosso modo, designo de Cabo-verdianismo (1842-1936), Cabo-verdianidade (1936-1974/75) e Universalismo (1974/75 -), espelhando as características de cada um deles, bem assim a renovação formal e temática ocorrida ao longo dos tempos.

 

Este é um caminho que vem sendo construído e pavimentado por cada um que deixa suas marcas, seus sulcos. E as estrelas-do-mar, que foram, pela lenda, apanhadas do céu para marcar o mar, mostram possíveis caminhos, assim como as estrelas no céu sempre foram guias para os navegantes/caminhantes. Tudo a ver com a saga crioula, com as ilhas da Macaronésia, com o topo da Atlântida, com o reino de Caliban! Tudo a ver, diria, com a construção da História da Literatura Cabo-verdiana ou com qualquer outra construção histórica.

 

 Manuel Brito-Semedo

 

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