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Cabo Verde e o (Des)Acordo Ortográfico

Brito-Semedo, 25 Fev 15

 

acordo-ortografico.jpg

 

Em Cabo Verde, em princípio, este é o ano da implementação do novo Acordo Ortográfico. Contudo, que se saiba, desde a sua assinatura  até hoje, as autoridades do País não fizeram nada internamente para a sua implementação.

 

O Ministério da Cultura é o guardião do Acordo mas o Ministério da Educação está na onda dos editores portugueses e já o aplica nos manuais escolares. Do resto, há uma clara indefinição. Basta dizer que nenhum dos semanário nacionais - "A Semana", "A Nação", "Expresso das Ilhas" e a novel "A Voz" - nenhum deles segue o novo Acordo Ortográfico.

 

Em que ficamos? Afinal, aplica-se ou não se aplica o novo Acordo Ortográfico?

 

novo-acordo-ortográfico.jpg

 

A implementação do Acordo Ortográfico, que visa a uniformização da escrita em língua portuguesa, decorre a várias velocidades e a um ritmo lento. O acordo ainda conta com muitas vozes opositoras.

Se em Portugal a nova grafia vai entrando timidamente no hábito dos cidadãos e das instituições, em países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, o processo ainda está atrasado por fatores diversos, entre os quais - sobretudo - os de ordem logística e financeira". Fonte

 

Wikipédia traz uma matéria sobre o assunto, que o Esquina do Tempo transcreve com a devida vénia, mas facto curioso é ser já com base no novo Acordo:

 

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado em 1990 com o objetivo de criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos ospaíses de língua oficial portuguesa. Foi assinado por representantes oficiais de Angola, Brasil,Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990. Depois de recuperar a independência, Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004. O processo negocial que resultou no Acordo contou com a presença de uma delegação de observadores da Galiza.

 

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial unificada para a língua portuguesa, com o objetivo explícito de pôr fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes, uma no Brasil e outra nos restantes países de língua oficial portuguesa, contribuindo assim, nos termos do preâmbulo do Acordo, para aumentar o prestígio internacional do português. Na prática, o acordo estabelece uma unidade ortográfica de 98% das palavras, contra cerca de 96% na situação anterior.

 

O teor substantivo e o valor jurídico do tratado não suscitaram consenso entre linguistas, filólogos, académicos, jornalistas, escritores, tradutores e personalidades dos setores artístico, universitário, político e empresarial das sociedades dos vários países de língua portuguesa. Na verdade, a sua aplicação tem motivado discordância por motivos técnicos, havendo quem aponte lacunas, erros e ambiguidades no texto do Acordo ou simplesmente conteste a adequação ou necessidade de determinadas opções ortográficas, como a introdução de facultatividades (i.e., possibilidade da mesma palavra ter mais do que uma grafia permitida) em vários domínios da ortografia (acentuação, maiusculação e "consoantes mudas"), a supressão das chamadas "consoantes mudas" (i.e., as que não se pronunciam), as novas regras de hifenização, a supressão do acento diferencial em diversas palavras e a supressão do trema.

 

Também tem havido contestação ao Acordo com fundamentos políticos, económicos e jurídicos, havendo mesmo quem tenha afirmado, em Portugal, a inconstitucionalidade do tratado. Outros ainda afirmaram que o Acordo Ortográfico serve, acima de tudo, a interesses geopolíticos e económicos do Brasil.

 

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11 comentários

De Jorge Pinheiro a 25.02.2015 às 19:25

Espero bem que os governantes de Cabo Verde tenham melhor senso que os de Portugal e se levantem contra este atentado, não o aplicando. Este mostrengo que, para além de ser ilegal (um tratado internacional tem de ser assinado por todos os participantes e não apenas por 3, como sucede com o AO90 ), é um verdadeiro crime contra a língua portuguesa, além de não cumprir o seu desiderato maior que é unificar a ortografia.

De Isolete Calheiros a 25.02.2015 às 19:46

O melhor que Cabo Verde tem a fazer é não implementar o "Acordo" Ortográfico de 1990 (AO90), pois a maior parte dos países da CPLP não o está a fazer. Em Portugal a luta contra o AO90 está na ordem do dia, com inúmeras iniciativas de cidadãos através das redes sociais e acções populares na justiça. Ver aqui (http://www.publico.pt/portugal/noticia/pela-nao-aplicacao-do-acordo-ortografico-de-1990-aos-exames-nacionais-1686992).

 Podem também consultar no Facebook algumas páginas contra o AO90 

https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/ (https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/)


https://www.facebook.com/groups/178207905663865/ (https://www.facebook.com/groups/178207905663865/)



Como antiga colónia de Portugal é natural que Cabo Verde se sinta ultrapassado se não adoptar o AO90. Quanto a mim só têm razões para não o fazer.
Em Portugal o AO90 foi imposto à Administração Pública e organismos do Estado através de uma mera resolução do Conselho de Ministros de um governo que já ninguém respeita. 
Mais vale esperar para ver. Entretanto degrada-se a Língua Portuguesa em vez de a enriquecer com as suas diferentes variantes. 

De Suzana Abreu a 25.02.2015 às 20:26

Eu não escrevo em conformidade com o Acordo e duvido que o venha a fazer. 


Existem variedades de inglês na Europa e nos EUA, por exemplo, e não é pelas diferenças das variantes que os falantes de inglês deixam de se entender. Preservar ambas é manter a língua viva, deixando-a seguir o seu caminho, as suas especificidades. Unificar por decreto é acorrentar, é acabar com o espaço onde nasce a diferença e a evolução, é limitar o idioma... Novos termos irão sempre surgir em todas as variantes por influências culturais directas e depois, como fazemos?... Banimos as palavras novas, para que a língua pare no tempo? Decreta-se que todas as variantes têm de as usar também, ainda que essas palavras tenham surgido especificamente de um lado do Atlântico e nada digam ao outro?... Deus me livre de um mundo sem cores, em que se usa a língua por decreto aplanador. Acredito na coexistência pacífica e um lugar de igualdade para todas as variantes. 


Se a língua é a minha pátria (devida vénia, salvo erro, a Fernando Pessoa), não quero ser apátrida...

Muito mais preocupante é haver tanta gente que não sabe usar o seu próprio idioma com correcção, tantos alunos que passam por muitos anos de escolaridade obrigatória e continuam a escrevê-la e falá-la a trato de polé, com erros que causam um arrepio na espinha! Alunos e educadores que nunca leram um livro e não vão começar a ler por influência do acordo. 

Acabar com os erros e a ignorância deveria ser a prioridade de todos os países que se juntaram para este grande "desacordo". 


 E assim me despeço, com cumprimentos, saudações, mantenhas e o equivalente do termo que desconheço e é usado nas outras variantes. É essa a riqueza de uma língua...

De Luís a 25.02.2015 às 23:13

Hoje estranho tanto o "ato" que para mim sempre será, com afe(c)to o "ato"; com que nasci, como Pessoa preferia comprar o seu absinto na Brazileira. Para mim, o que é feminino e vem do Brasil, eu chamo de brasileira.

Sinais dos tempos?

Sim.

Nós mudamos. A língua muda. Adapta-se. Se não, não chamaríamos rato ao que temos na mão ao ler esta página da <i>net</i>. Ou rede. Ou que quer que Gil Vicente lhe chamasse...<br /><br /><br />

O atraso de CV em aderir ao AO é um erro. Um país que produz muito pouca literatura, emparedado entre o que Portugal e Brasil lhe enviam devia clamar um acordo. Se fosse ortográfico, tanto melhor...<br /><br /><br />Luís Rodrigues

De Pedro M a 26.02.2015 às 14:40

Já faltavam cá os profetas da desgraça... nem em Cabo Verde. Em Portugal, o Acordo já é aplicado por quase toda a gente e instituições, fora um ou outro reacionário e não veio disso mal ao mundo. Em Cabo Verde as coisas vão devagar, mas vão. Na Educação por exemplo já é aplicado no ensino público e na comunicação interna de vários ministérios o mesmo acontece sem daí advirem problemas. Daqui a uns anos o processo está concluído e ninguém se há de lembrar do assunto, sequer. Em Cabo Verde o que faz falta é regulamentar a escrita do crioulo, para se assumir como língua de estado que devia ser, isso sim era mais importante do que aplicar ou não aplicar o acordo ortográfico que todos os países já assinaram, logo em 1990, ao contrário do que diz um comentador desinformado aí acima.

De Anónimo a 26.02.2015 às 15:45

Não podia estar mais de acordo com a mensagem anterior: tal como em Portugal, e se  os tão  furiosamente anti-Acordo Ortográfico se preocupassem mais com os erros de toda a natureza que enxameiam os media e demais espaços públicos? E, já agora, porque não  voltam à grafia  anterior a 1911 (essa mesma que aboliu os "ph" e amofinou tanto os intelectuais da época)? E porque não falam, já agora, de que foi graças ao fim, finalmente,  da existência de  duas grafias oficiais para a língua portuguesa (eram duas, porque não, qualquer dia, oito?!), países como Cabo Verde, Moçambique e Timor-Leste passaram a dispor, eles também,  de vocabulários ortográficos nacionais?<br />http://ciberduvidas.pt/noticias.php

De Rui Duarte a 04.03.2015 às 20:59

Excelentes os dois últimos comentários. Tudo se resume a "reaccionários". Oops, perdão, reacionários ou ria-cionários. É tudo uma questão ideológica, portanto. E reaccionários são a maioria da população portuguesa, que, informalmente inquirida, é contra o AO90. Reaccionários são Manuel Alegre (poeta, deputado histórico do PS), António Arnaut (PS, criador do Sistema Nacional de Saúde), Pedro Barroso e Pedro Abruhosa (músicos, como se sabe, de direita), Mário de Carvalho (escritor, da área do PCP, logo reaccionário), Pacheco Pereira (ah, esse é do PSD, mas tem falado mal do governo, logo reaccionário), Miguel Sousa Tavares, sua mãe a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen (reaccionários retintos), Baptista-Bastos (de esquerda, reaccionário, portanto). E claro que não foram reaccionários os governos que se meteram onde não deviam e decretaram as ortografias: a Primeira República em 1911, a Segunda (Estado Novo) em 1945 e a Terceira em 1990 e depois 2011. Todos reaccionários. E claro que o AO90 é excelente, todos os pareceres prévios são positivos, é um portento da filologia e as consequências da aplicação não são visíveis no caos, na disortografia, no fim da ortografia, como escrevera o linguista António Emiliano reinantes, mas também nas mudanças na pronúncia que vão sendo induzidas. E claro que deixou de haver duas ortografias para a língua, perfeitamente estáveis: agora há quatro pelo menos: o acordês tuga, o acordês brasuca, a brasileira de 1943, a portuguesa de 1945 (usada em Portugal por gente esclarecida, perdão, reaccionária, oops ria-cionária e em outros países, como Angola). Melhor, e porque se deram mais separações do que "unificações", há o mixordês, a ortografia "à la carte", o faça-você-mesmo em que cada um escreve como lhe parece e adopta do AO90 o que lhe convém. Não, nada disto existe. Dizê-lo é reaccionário, perdão ria-acionário. É tudo fantasia dos reaccionários, perdão ria-acionários. Como se fosse preciso fantasiar: a realidade ultrapassou largamente, em menos de 3 anos (vai-se já em 4) as profecias mais desgraçadas. Não é necessário: basta recostarmo-nos nas cadeiras, as luzes apagadas, e assistir ao filme enquanto se roem pipocas e se bebem umas coca-colas.
E porque não se volta à ortografia pré-1911? Curioso: nunca um reaccionário, perdão ria-acionário pediu tal. Ou está a escapar alguma coisa a alguém? Não seria mal pensado, não senhor. Sempre se aproximaria o português de outras línguas europeias, que não foram tão revolucionárias, coitadas, como o inglês ou o francês. Mas preferiu-se seguir a tendência das línguas românicas meridionais, como o castelhano e o italiano e regressar a uma velha tradição portuguesa "vulgar", antes da ressurreição da influência clássica a partir do Humanismo.
Com efeito, ler coisas destas é um espectáculo, não um espetáculo, para não ficar com os olhos espetados. Com pipocas e colas a acompanhar.

De Jose Lopes a 26.02.2015 às 16:09

O Acordo ortográfico é para mim o equivalente do ALUPEK. Só tem um destino o caixote do lixo

De Adriano Miranda Lima a 26.02.2015 às 21:34

Sem tempo para me pronunciar, limito-me a manifestar o meu regozijo pelas opiniões aqui expressas. Se eu tivesse de fundamentar a minha opinião, reeditaria tudo o que já escrevi em outros espaços online. Bastará que eu diga que nunca, jamais e tempo algum!!!, escreverei conforme este acordo. Até porque aos 70 anos é tarde demais para mudar.
Os meus cordiais cumprimentos a todos.

De Brito-Semedo a 26.02.2015 às 23:28

"Mais Lenha na Fogueira", do blog - https://quincasblog.wordpress.com/2013/01/14/mais-lenha-na-fogueira/ - do Embaixador Laura Moreira (Brasil), que fica livre para participar ou não deste nosso debate made in Cabo Verde:


"Publiquei vários artigos, inclusive um para o Livro do Ano da Enciclopédia Barsa, proferi inúmeras palestras, escrevi prefácios de livros sobre o assunto, participei de debates sem fim no radio e na TV, dei entrevistas aos jornais e revistas, enchi a paciência de amigos e interlocutores em geral  – e tudo porque acreditava piamente, como ainda acredito, nos reais benefícios que esse Acordo trará para a própria expansão da lusofonia no mundo".


Um abraço destas ilhas perdidas no meio do Atlântico.

De Sónia Jardim a 27.02.2015 às 15:16

Abordar o Desacordo Ortográfico não é, manifestamente, um tema que me agrade e isto porque, como é de conhecimento público, entristece-me (para não dizer revolta-me).

Sou contra todo e qualquer tipo de agressão e o que se pretende fazer é uma verdadeira agressão.

A língua é a base político-social de um povo, basilar para a sua caracterização psicológica e sociológica. Exprimindo a essência, a identidade, o património de um povo deve por ele ser estimada. Essencial e complexa envolve variadas áreas como a fonética, a morfologia, semântica e sintaxe.

É evidente, e concordo plenamente, que o tempo encarrega-se de modificá-la, por influências externas e até mesmo internas, mas essas modificações deverão ser positivamente evolutivas. Evolução e não adopção deliberada de erros, verdadeiros atentados.

Sim, muito estudo, dito científico, desenvolvido mas, sincera e infelizmente, contrariando o percurso histórico e heróico do povo português, em Portugal aplica-se, cada vez mais, a história dos cinco macacos que foram colocados numa pequena jaula, apenas com água e comida para não morrerem, mas com uma vida terrível e limitada, olhando através das grades. No topo da jaula, o cruel tratador colocou um cacho de bananas e uma escada para que os macacos conseguissem alcançar o delicioso fruto.

A medo, um trepa as escadas, mas, inesperadamente, uma mangueira de água gelada encharca todos os macacos.

Dia após dia vão tentando alcançar as bananas, mas resignam-se. Um dia, o cruel tratador substitui um dos macacos. Sem saber o que lhe espera, o novo macaco trepa a escada e os outros começam logo a puxá-lo.

Mais uma vez, o grupo de macacos resigna-se. Durante cinco dias, o cruel homem vai substituindo os macacos. Nenhum chegou a sentir a água gelada, mas todos sabiam que não podiam subir a escada. Um macaco questiona os restantes sobre a razão que os impede de comer as bananas que estão no topo. Os restantes respondem que não sabem, apenas sabem que não podem…

Nota: escrito na grafia antiga (sempre).

Mantenhas,

Sónia Jardim

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