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Capitão dos mares, só na imaginação

Brito-Semedo, 26 Mai 17

 

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 Veleiro Carvalho

 

 

Sendo Cabo Verde um arquipélago no meio do Atlântico e na intercepção de dois mundos, os poetas tornaram-se marinheiros e navegaram nos rumos longínquos de todos os mares – Capitão dos mares /foi só na imaginação que o fui…/ […] / Era tudo mentira/ dos meus versos/ impossíveis/ da minha fantasia. Capitão dos mares!/ nem sabia navegação – e a temática do mar tornou-se uma obsessão e um fascínio.

 

Apresentamos hoje uma proposta de navegação pelos mares da nossa literatura como se de uma “viagem” pelas ilhas se tratasse, com portos de chegada e de partida.

 

Os portos serão as ilhas dos marcos da literatura, perfeitamente datados, em função das publicações usadas pelas diferentes gerações de escritores.

 

As razões desta viagem surgiram pela necessidade sentida, por um lado, de haver trabalhos de cariz didáctico que possam levar a desenvolver o gosto pelo estudo da literatura cabo-verdiana e, por outro, de proporcionar uma visão e uma leitura próximas da realidade social e sociolinguística das ilhas, conhecidas e vividas por alguém de dentro.

 

Soprando de barlavento, o vento é de feição… e o veleiro lá vai com o rumo traçado através da literatura.

 

E como é bom partir mesmo dentro da nossa fantasia!

 

 

Capa Arquipélago.jpg

Porto dos Veteranos dos Almanaques[1], São Nicolau, 1854-1932

 

Largamos as amarras onde tudo começou, no Seminário-Liceu (1866-1917), sob o desígnio da cultura greco-latina, e com um discurso decalcado do português vernáculo. Esta geração tem o mérito de ter criado as condições primeiras e necessárias para o surgimento de uma verdadeira literatura cabo-verdiana.

 

Porto Grande da Claridade[2], São Vicente, 1936-1960

 

Tendo como tripulantes a primeira geração da Claridade, saímos carregados com nove números da sua revista de arte e letras, num discurso híbrido do crioulo com o português falado. As suas “certezas sistemáticas” (fincar os pés na terra) tiveram como auxílio metodológico a investigação de outras latitudes: o modernismo da Presença (Portugal) e o Realismo Nordestino (Brasil), de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado e tantos outros.

 

Porto Deslumbrante da Certeza[3], São Vicente, 1944 e 1945

 

Com uma força catalisadora que veio de fora (o neo-realismo português), António Nunes, Henrique Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Nuno de Miranda e alguns outros integraram a tripulação com a força das suas ideias e juventude. António Nunes, com uma poesia visionária, antecipa em trinta anos a independência política de Cabo Verde – sonho que, um dia,/ estas leiras de terra […] serão nossas.

 

Porto Novo do Suplemento Cultural[4], Santiago, 1958

 

Das cidades portuguesas de Lisboa e Coimbra, integra a plêiade de marinheiros, uma nova geração, a que “não vai para Pasárgada”, que é “mais culturalmente activa” que as gerações anteriores. O seu discurso é cheio de interferências, de misturas e de alternâncias do crioulo e do português. Destacam-se Gabriel Mariano, Ovídio Martins e Onésimo Silveira. A sua poesia, em verso e em prosa, é de luta mas também de amor e de certeza. A sua abordagem do tema serviçal/contratado/escravo para as roças de São Tomé é feita em tom de protesto e de revolta.

 

Porto Novíssimo do Seló[5], São Vicente, 1962

 

Içamos poemas da “novíssima geração” e embarcaram Arménio Vieira e Oswaldo Osório; aquele, pela metaforização do discurso, e este, pela ligação que estabelece com os primeiros marinheiros das ilhas, homenageando-os com um livro de poemas. Outro marinheiro, Mário Fonseca que viria depois seguir os sons da francofonia.

 

Porto de Chegada da Nova Poesia, São Vicente, 1974/1975

 

Vindos de longe, das sete partidas do mundo, Corsino Fortes e João Varela (i.e. Timóteo Tio Tiofe) integram a já longa lista de marinheiros, usando uma linguagem agressiva e vibrante e soçobrando poemas épicos, Pão & Fonema e O Primeiro Livro de Notcha, respectivamente. É a tentativa de fazer “a epopeia de um povo”.

 

Chegámos ao fim desta viagem à procura de Cabo Verde pelos mares da literatura. Mantivemos como rumo o percurso temático, à latitude, e a evolução do discurso literário, à longitude.

 

Chegámos companheiros!

…………………………

Chegámos intermináveis e actuais às docas

Betão aço cargueiros e braços precisados

Chegámos numa dimensão nova

e poremos todo o nosso esforço!

 

Em síntese, o surgimento da Claridade, em 1936, com uma rotura formal e temática, em relação à geração anterior, é o grito da independência literária de Cabo Verde.

 

A herança claridosa foi tão pesada que as gerações posteriores não conseguiram libertar-se dela e a literatura cabo-verdiana navegou sempre no mesmo mar temático e formal. Contudo, em 1974/1975 surge a proposta de uma “Nova Poesia” com uma renovação temática e a elaboração de uma nova gramática poética.

 

Sob o signo da renovação, o período da pós-independência tem revelado alguns valores e acrescentado novas publicações às anteriores, destacando-se a revista de intercâmbio cultural Ponto & Vírgula (São Vicente, 1983-1986), que vem retomar o fio geracional interrompido no Seló.

 

Para um estudo objectivo deste período, é preciso que haja distanciamento temporal suficiente. No domínio da poesia, revelaram-se Jorge Carlos Fonseca, Henrique Oliveira, Vera Duarte, dos mais antigos; Velhinho Rodrigues, José Luís Hopffer Almada, José Luiz Tavares, Filinto Correia e Silva, Danny Spínola, dos mais actuais; Eneida Nely e Margarida Fontes, dos mais recentes. No domínio da ficção, Germano Almeida, Dina Salústio, Fátima Bettencourt, Jorge Araújo, António Ludgero Correia.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

______________ 

[1]Almanaque Luso-Brasileiro de Lembranças (Lisboa, 1851-1932) e Almanaque Luso-Africano (São Nicolau, 1895 e 1899).

[2]Claridade, revista de arte e letras (São Vicente, 1936-1960).

[3]Certeza, fôlha da academia (São Vicente, 1944 e 1945).

[4]Suplemento Cultural ao Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação (Praia, 1958).

[5]Seló – Página dos Novíssimos ao Notícias de Cabo Verde (São Vicente, 1962).

 

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