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Capitão Júlio Almada, Uma Homenagem

Brito-Semedo, 18 Mar 16

 

JULIO ALMADA - CAPITÃO.jpeg

 

 

Júlio César Almada nasceu em Cabo Verde a 2 de Outubro de 1896, naturalizou-se cidadão do Americano e tornou-se residente dos dois países que ele tanto amou: Cabo Verde e os Estados Unidos. Mas, para este homem extraordinário, o único lugar que conquistou o seu coração foi …. o MAR, porque Júlio César Almada foi, antes de tudo, um MARINHEIRO.

 

Seu amor pelo mar manifestou-se desde tenra idade, quando passava horas a fio junto à costa, sonhando com o dia em que embarcaria para examinar e dominar o grande oceano que cercava as suas ilhas.

 

No dia 27 de Outubro de 1913 o seu sonho tornou-se realidade. Pela influência e amizade do seu pai com o capitão açoriano António T. Eduardo, Júlio César Almada, com apenas 17 anos de idade, juntou-se à tripulação da barca baleeira “Wanderer[1]” como moço de bordo. O Capitão Eduardo admirou tremendamente este jovem, reconhecendo nele a ânsia e o intenso desejo de se tornar um perito do mar. Tomou-lhe sob a sua orientação e ensinou-lhe a arte de navegação e de baleação, numa árdua viagem de 4 anos que terminou em New Bedford, Massachusetts, a 3 de Maio de 1917. Bem treinado em pilotagem, Júlio foi frequentar aulas noturnas em New Bedford, para aprender a língua inglesa enquanto esperava pela próxima viagem.

 

Baleeiros.jpg

Bordo do Wanderer, 1913. Ao centro, o capitão Eduardo, ao cuidado do qual seguiu Júlio Almada embarcado a pedido do Pai Teodoro Almada. Tinha então 17 anos.

 

A “Wanderer” estava pronta para partir novamente numa viagem de caça à baleia. Desta vez o Capitão Eduardo nomeou-o timoneiro.[2] Júlio executou essas funções perigosas, competente e habilmente. Durante esta viagem, o barco fez escala em Cabo Verde. Desta vez foi por influência do timoneiro junto do Capitão Eduardo, que ajudou a recrutar quatro dos seus irmãos para a tripulação do navio baleeiro: Rodolfo, Franklin, Jaime e Leão Almada. A viagem terminou, novamente, em New Bedford em 1921.

 

Concluída com sucesso a aprendizagem marítima, Júlio e os irmãos desembarcaram e foram trabalhar na carreira de vapor na rota Nova Iorque-Providence, enquanto ele esperava por uma oportunidade de navegar.

 

Essa oportunidade chegou em 1925, quando o convidaram para ser Mestre-de-Bordo do “Brunhilde”, um paquete de dois mastros. Júlio Almada aceitou, obtendo deste modo a distinção de, aos 29 anos de idade, ser o mais jovem navegador, nomeado de New Bedford. Fez então três viagens de New Bedford para Cabo Verde, carregando grande número de passageiros e, carga variada. Após a terceira viagem o barco foi vendido. Júlio voltou ao trabalho anterior, em vapor da carreira.

 

Em 1930, foi admitido para viajar como imediato na escuna “Burkeland”. Ficou nesse posto durante um ano, tendo desembarcado para aceitar a posição de Mestre-de-Bordo no mal fadado barco “Marian L. Conrad”. Foi durante uma viagem nessa escuna para Cabo Verde que enfrentou um furacão durante 12 horas, a cerca de 250 milhas das Bermudas. No auge da tempestade, o seu irmão Franklin Almada, que era um dos membros da tripulação, foi arrastado pelo mar bravio, perdendo a vida. Com o espírito destroçado, as velas do barco destruídas, o leme perdido, após várias tentativas falhadas para concertar o navio, o Mestre Almada abandonou-o e regressou à América, determinado a nunca mais navegar.

 

Mas o seu amor pelo mar prevaleceu, quando o convidaram para comandar a escuna “Burkeland” para Cabo Verde, desta vez como Capitão, visto ter acedido à cidadania americana desde Março de 1927. Júlio aceitou, partindo de Fall River, Massachusetts, no dia 2 de Janeiro de 1934 com passageiros e carga. Chegou a São Vicente 26 dias depois. Durante nove meses, o Capitão Almada comandou o “Burkeland”, transportando troncos de madeira de mogno da ilha do Maio para São Vicente. Finalmente, com um carregamento de ferro-velho, navegou para Génova, na Itália, onde a viagem terminou. Em 1935, regressou a casa em New Bedford.

 

Foi nesta altura (e uma outra, antes, em 1925) que o jornal New Bedford Standard Times publicou vários artigos sobre o Capitão Almada.

 

Seis meses depois de ter regressado da Itália, recebeu um telegrama do seu primo, o Capitão João de Deus Lopes Da Silva, com uma proposta de entrada numa sociedade com ele, na compra de uma escuna que estava à venda em Portugal. O Capitão Almada, entusiasmado, partiu logo para Lisboa. Compraram a escuna[3] que os dois capitães designaram de “Ribeira Brava”, nome da vila onde ambos nasceram, na ilha de São Nicolau.

 

Começou a famosa carreira inter-ilhas do “Ribeira Brava”, que durou 10 anos. O carinho popular ao Ribeira Brava ficou evidente através de: “Seló, Seló, Ribeira Brava”, (como nos dá conta António J. Firmino, num belo artigo por ele publicado, intitulado “NATAL INESQUECÍVEL – O VELEIRO DE MINHA SAUDADE”, com referencias elogiosas ao capitão Júlio Almada e ao veleiro Ribeira Brava, do qual inserimos alguns excertos:

 

“ … Naqueles tempos (1935/1940), as ligações entre as ilhas eram asseguradas por velhos e saudosos veleiros. O meu que fazia ligação entre São Vicente e São Nicolau era o RIBEIRA BRAVA. Palhobote de dois mastros com certo conforto em comparação aos pequenos faluchos... Seus donos, Joãozinho Lopes e Julio Almada, ambos capitães de marinha mercante, naturais de São Nicolau,  mantinham o barco mais para manter uma carreira regular entre as duas ilhas, que por espírito de exploração, sentimento contrário à têmpora daqueles bons e bravos marinheiros.

 

A sua generosidade ficou bem patente quando, numa das piores fomes (anos 40) enchiam o veleiro de crianças, que levavam para São Vicente para as salvar da fome. O Ribeira Brava era o paquete dos estudantes de São Nicolau... Numa das viagens para passar o Natal com a família, largamos de São Vicente no dia 23 de Dezembro por volta das 17H00, contávamos desembarcar no Barril ou Tarrafal, se o tempo corresse de feição, à hora de passar a consoada com a família. De facto, pela amanhã encontrávamos ao largo do Barril, porém, como o vento era muito fresco, resolveu-se continuar até Tarrafal. Ali chegado, o cento continuava fresco, decidiu-se seguir para Preguiça, bem mais próximo da Vila. Por volta das 17H00, encontrávamos ao largo da Preguiça, com vento forte, mas pouco favorável.

 

João era seguro e prudente, por isso, contrário à ideia de entrarmos na baía diretamente. Tentaria a aproximação com viradas sucessivas de bordo. Às tantas aparece Júlio Almada no convés e pede-lhe o leme. João recusou. Júlio, aliava à segurança uma audácia, por vezes temerosa. Júlio insiste, João cede. Na posse do leme, anuncia: Eu vou aproar o navio diretamente à preguiça. Se conseguir efetuar a manobra que pretendo, entre as 19 e 20 horas, estaremos em terra. Não conseguindo passaremos a noite de Natal no mar.

 

Mãos firmes ao leme, com voz forte de comando, deu as devidas ordens, aqueles homens de pele crestada e músculos fortes, temperados na dura faina marítima, obedecem prontamente.

 

Velas tufadas a virarem de bordo, navio completamente tombado sobre a água, que entrava a jorros pela proa, cavalga direito à baía. Balouçou, soluçou, endireitou-se e, qual cavalo que conhece as mãos do dono, levantou a proa e, sulcando airosa e rapidamente as ondas, dentro do tempo previsto, as velas estavam a ser arriadas, ferro lançado, enquanto se escutava na ponte-cais, “SELÓ, SELÓ, RIBEIRA BRAVA”, saudando o bravo veleiro da nossa ilha.

 

E, eu, ainda nessa noite de consoada, contei em minha casa, esta façanha do capitão Júlio Almada”...

 

Ribeira Brava.jpg

Escuna Ribeira Brava ancorada no porto de Preguiça

 

Em 1940 as ilhas foram acometidas pela seca e fome. O Capitão Almada desinteressada e altruisticamente transportou famintos de ilha em ilha, à procura de comida, solo fértil e, nova vida. Presenciou a miséria, fome e, a consequente morte do seu povo. Escreveu a solicitar auxílio, ao Administrador da sua ilha. Como resultado da sua persistência, tornou-se no intermediário oficial do Governador sedeado na Ilha de Santiago e o Administrador de São Nicolau, estabelecendo e mantendo um centro de distribuição de géneros alimentares na aldeia de Praia Branca.

 

Em 1945, quando o perigo da seca passou, as chuvas regressaram e as colheitas brotaram esperançosas, voltou para a América e começou uma carreira intermitente de 15 anos na Marinha Mercante dos Estados Unidos. Viajou para todos os portos na Europa e América do Sul e, para quase todos os países do mundo, incluindo Índia, África, Japão e Formosa. Entre viagens, visitou Cabo Verde inúmeras vezes.

 

Típico de um homem-do-mar, teve nove filhos. Um nasceu na América, outro na ilha Brava, sete na ilha de São Nicolau. Típico do cabo-verdiano, casou-se com o seu primeiro amor em New Bedford.

 

Muitos cabo-verdianos que emigraram para a América vieram com ele, outros tantos viajaram com ele no regresso à sua terra natal. Outros, se estivessem vivos, poderiam testemunhar do seu humanismo durante a carestia e fome dos anos 40, nas ilhas.

 

A sua popularidade entre os muitos cabo-verdianos em Massachusetts e Rhode Island poderia muito facilmente, elegê-lo Governador de qualquer dos dois Estados, fosse Democrata ou Republicano. Mas ele foi simplesmente um Marinheiro e um homem, especializado no que já foi apelidado como o mais temperamental dos meios de transporte: A escuna à vela. Exige controlo simultâneo de equipamentos, tripulação e o mar.

 

Com residência nos Estados Unidos, manteve sempre a sua modesta casa em São Nicolau, onde viria a falecer no dia 1 de Março de 1974.

 

Júlio César Almada: Moço de Bordo – Marinheiro Experiente - Timoneiro - Arpoador – Baleeiro – Imediato – Navegador – Mestre-de-Bordo – Capitão – Humanista.   

 

Logo Museu.jpg

Discurso de homenagem na celebração do 75.º aniversário e de despedida, aquando da partida definitiva do Capitão Júlio Almada para São Nicolau, onde viria a falecer.

 

Traduzido do inglês por Carlos A. Almeida

 

Brochura Edição Museu da Pesca, Tarrafal, São Nicolau

 

___________

[1] Chegou a escalar o porto de Preguiça em São Nicolau, mereceu citação no célebre romance Chiquinho. Realizou a última viagem de baleação que se fez numa embarcação Americana. Viria a naufragar durante uma tempestade em Agosto de 1924.

[2]  Como definido no Dicionário Webster, na terminologia de baleação Americana, um timoneiro é um tipo de aspirante a oficial que arpoa a baleia e depois passa para o leme, enquanto o oficial lanceta a baleia.

[3] Tratava-se de um hiate, denominado Espadarte III, de 16,82 mts, de cumprimento, construído em Setúbal, à data, matriculado em Vila Real de Santo António, e que foi pertença da Firma Ramires & C.ia.

 

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5 comentários

De Anónimo a 19.03.2016 às 23:07

I wish I had the opportunity to have known him. What an adventurous spirit my grandpa had!

De Dennis Almada a 20.03.2016 às 07:10

I am proud of my dad Napoleon and his dad Capitão Júlio César Almada.

De eduardo cardoso a 22.03.2016 às 18:10

Fico também orgulhoso pela parte que me toca (a minha tia Maria do Carmo Almada Faial, que vive nos Estados Unidos, é filha do Capitão Júlio Almada).

De Joaquim ALMEIDA ( MORGADINHO ) a 22.03.2016 às 21:58

A primeira vez que viajei neste navio , RIBEIRA BRAVA  , de Sao Nicolau para Sao Vicente , disse-me a minha mâe , tinha eu dois anos de idade ; mas depois com o tempo jà ia sozinho visitar os meus avôs maternos, que viveram sempre em Sao Nicolau ,Praia Branca onde nasci e me lembro perfeitamente do Sr.Jùlio Almada como capitao do navio e às vezes também com o Sr.Joaozinho Lopes de Silva ,( irmao do Dr . Baltazar Lopes da Silva  ) e  que era também capitao de ilhas e costa !..Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

De Anónimo a 27.03.2016 às 16:10

O Pai era sobrinho do Capitão Júlio Almada,o meu Pai falava-me muito do Capitão, ele viajou com o tio de São Nicolau para o porto de Leixoēes Portugal.

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