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Carnaval e Mandingas em Selos

Brito-Semedo, 1 Mar 14

 
 

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"Respondendo a uma reivindicação antiga da sociedade Mindelense, e sob o lema 'Viva o Nosso Carnaval', os Correios de Cabo Verde emitiram uma série constituída por três selos em homenagem ao carnaval, sendo dois alusivos ao carnaval de São Vicente, um dedicado ao desfile dito oficial e outro às manifestações populares, que encontram nos Mandingas, a sua expressão máxima, e o terceiro em homenagem ao carnaval de São Nicolau.

 

A emissão foi confeccionada pela Casa Impressora Francesa Cartor Security Printer e tem uma tiragem de 100.000 exemplares, na taxa de 60$00, correspondente ao porte de uma correspondência internacional.

 

Os interessados poderão adquirir os selos nos balcões das Agências dos Correios e na Loja Filatélica da Praia. Para mais informações, contactar pelo telefone ( 238) 2608762 ou pelo e-mail filatelia@correios.cv".

 

In Blog dos Correios

 

 

 

1. HOMENAGEAR TIAGO ESTRELA

 

Permitam-me, antes de mais, evocar neste acto o Amigo Tiago Estrela, falecido no passado dia 1 de Fevereiro com a proveta idade de 86 anos, e homenageá-lo enquanto homem de cultura, filatelista orgânico e pedagogo por necessidade e paixão.

 

O zelo que o Sr. Tiago Estrela tinha pelos selos transformava-se em cuidados por outras pessoas. Sempre procurou mostrar aos seus conterrâneos que, através dos selos, era possível percorrer outras culturas, outros mundos, outras realidades.

 

Os seus conhecimentos de filatelia permitiram-lhe apoiar tecnicamente algumas exposições de numismática do Banco de Cabo Verde, pois os princípios organizadores de exposições filatélicas e numismáticas são semelhantes.

 

No início dos anos 90, enquanto a saúde visual e o vigor físico o permitiram, Tiago Estrela desenvolveu um projeto educativo de carácter voluntário, numa das escolas da Achada Santo António, próxima à Assembleia Nacional. Todos os sábados de manhã, dirigia-se a essa escola munido de selos, classificador de selos, lupas e um grande entusiasmo para receber alunos numa das salas de aulas.

 

As professoras eram orientadas para lhe encaminhar os alunos que tivessem interesse em aprender os princípios da filatelia. Um a um, os alunos iam chegando, uns com classificador de selos, outros com selos avulsos acondicionados num envelope e outros sem nenhum material, que iam pelo simples gosto de descobrir uma actividade de lazer e cultura pouco comum nestas paragens.

 

Tiago Estrela recebia cada um com largos sorrisos e cumprimentos. Os alunos apanhavam as lupas e observavam os selos sob a sua orientação e a de uma coleccionadora de selos que o acompanhava. Atentos, os jovens observavam as imagens dos selos, as datas neles referidas, as moedas correntes anunciando o valor facial de cada estampa e, com a ajuda de mapas, conseguiam, animadamente, precisar a localização geográfica de cada país representado nos selos.

 

Como os alunos não tinham meios financeiros para comprar selos, eram orientados para falar com os seus familiares adultos para que pudessem recortar selos das cartas que chegavam dos parentes e amigos emigrados. Nos encontros, Tiago Estrela ajudava os jovens a molhar os selos para os descolarem dos recortes dos envelopes e, depois de secos, serem devidamente acondicionados.

 

O filatelista sempre aproveitava para conversar com os jovens sobre a importância da emigração e as dificuldades que muitos emigrantes passavam para se manter no exterior e ajudar a família que estava em Cabo Verde. Os alunos conversavam acerca dos familiares emigrados e trocavam entre si os selos repetidos.

 

Assim, conheciam aspectos identitários de muitos países: fauna, flora, música, gastronomia, trajes típicos, artes, personalidade célebres, efemérides, etc. Na sequência, Tiago Estrela mostrava aos alunos os selos de Cabo Verde que trouxera, contando a história de cada tema apresentado nas estampas, sendo este um contributo educativo importante em Geografia e Cultura, para além da divulgação da Filatelia.

 

Muitos jovens foram orientados desta forma original e criativa pelo Sr. Tiago Estrela, que, sem ser professor ou pedagogo, conseguia cativar os alunos com histórias pitorescas sobre países e realidades tão diversas!

 

Pelo seu contributo na área da filatelia, Tiago Estrela conquistou o direito a ser, ele próprio, estampado num selo em sua homenagem.

 

Aproveito para desafiar publicamente a Senhora Presidente do Conselho de Administração dos Correios de Cabo Verde a assumir tal compromisso e o Artista Leão Lopes para não se aposentar destas lides antes de fazer a proposta técnica deste selo. Os Correios, os amantes da cultura de Cabo Verde, os amigos, todos devemos isso ao Sr. Tiago Estrela. Temos compromisso?!

 

APRESENTADOR CONVOCADO

 

Não foi inocente a minha escolha para fazer a apresentação destes selos do Carnaval, tanto é que o convite me chegou como a comunicação de uma decisão tomada nas costas deste trabalhador.

 

Quatro anos atrás, ao criar o blogue Na Esquina do Tempo incluí no menu uma secção “Selos”, onde cheguei a publicar e divulgar selos de Cabo Verde de praticamente todas as séries, num total de oitenta posts. O último selo foi publicado a 9 de Outubro de 2013, Dia Mundial dos Correios, em homenagem ao Padre Campos.

 

Na minha procura de exemplares para divulgação, recorri, desde o início, a amigos e elegi a Secção de Filatelia dos Correios de Cabo Verde como minha parceira informal, tendo reforçado a minha amizade com a sua responsável, Bela Mimoso Duarte. Reconhecido o trabalho de divulgação e de serviço público do Na Esquina do Tempo, conquistei espaço, ganhei estatuto e passei a dar palpites nas programações dos Correios! Uma das falhas então apontadas por mim era a falta de uma série de selos que homenageasse o Carnaval. Já havia selos de várias manifestações culturais tradicionais, mas nada sobre o Carnaval! Falha grave, argumentava eu, defendendo a minha posição com ênfase.

 

É assim que, quando os Correios de Cabo Verde criaram esta série Carnaval, fui informado e imediatamente requisitado, “sem comida de caminho”, para fazer a sua apresentação em São Vicente.

 

“– Ah, queres? Agora toma!” É o que eu digo, “o peixe morre pela boca e alguns homens, dos quais eu, também”.

 

3. SELOS DO NOSSO CARNAVAL

 

Série: Carnaval do Mindelo, Carnaval de São Nicolau e Mandingas de São Vicente.

Autores: Leão Lopes e Rogério Rocha (M_EIA)

 

 

 

A partir de agora, o texto é a Memória dos Selos, feita por Leão Lopes, que mo enviou para esta apresentação, e que vou usar na íntegra:

 

“A celebração do Carnaval nas ilhas de S. Vicente e de S. Nicolau constitui um dos momentos mais altos de animação cultural e das mais exuberantes manifestações da criatividade popular destas duas ilhas.

 

O Carnaval convoca todas as classes sociais para, em comunhão, brincar e materializar toda a sua imaginação criativa que se expõe e se esgota num momento; o quanto dura o Carnaval. Uma efemeridade que mobiliza, talvez, o maior investimento criativo do povo destas duas ilhas à volta de uma festa.

 

Artesãos e artesãs, compositores, coreógrafos, artistas populares de todas as áreas são chamados para materializar projectos e fantasias, para, generosamente, oferecer a todos, sem excepção, o que tem de mais genuíno. A maior parte deles anónimos, alguns, todavia, destacam-se e deixam memória na história do Carnaval destas duas ilhas. É o caso de Artur Boxe (Artur António Andrade) de São Vicente, Capote (José Moreno) também de S. Vicente, Negro Sarafe (Serafim António Lopes), de S. Nicolau, homenageados pelos Correios de Cabo Verde nesta série de selos, que assim se associa a esta grande festa do povo das ilhas.”

 

 

Artur Boxe (Artur António Andrade) nasceu em S. Vicente a 1 de Maio de 1910 e faleceu na mesma ilha a 23 de Junho de 2004. Grande animador de Grupo e também do boxe, daí o nominho. Artur Boxe foi o catalisador do renascimento do Carnaval de Mindelo, após a independência, como co-fundador de grupos como o “Belo Horizonte” e o “Flores do Mindelo”. Mobilizador de jovens artesãos talentosos, são estes os herdeiros do espírito do Carnaval, legado de Artur Boxe, hoje preservando e ampliando, com a sua capacidade criadora e generosa dedicação, esta celebração popular.

 

 

Capote (José Moreno), nascido em S. Vicente a 6 de Outubro de 1916 e falecido a 24 de Setembro de 1985. Um inesquecível animador do Carnaval mindelense, encarnando a figura mais carismática desta festa: o “Mandinga”. Figura hoje incontornável da animação mindelense. O Carnaval de Mindelo sem “Mandinga” não é Carnaval. E Capote, padeiro de profissão na antiga Fábrica Favorita, deixou a sua marca indelével na memória do povo de S. Vicente, especialmente na das crianças, que tanto o temiam e à sua espada como o adoravam, fascinados pela sua fantasia de guerreiro (maquilhado com fuligem de caldeira) e com o seu inesquecível grito de “guerra”: “ariaáa… ariaáaa…”

 

 

Negro Sarafe (Serafim António Lopes), nascido em São Nicolau a 12 de Maio de 1924 e falecido a 27 de Novembro de 1992. Animador cultural de excelência, o renascimento do Carnaval de São Nicolau muito lhe deve, pelo seu espírito empreendedor e mobilizador de jovens entusiastas e criativos, que hoje são a alma desta grande festa popular, uma das mais genuínas da ilha.

 

Serafim António Lopes, ex-emigrante no Brasil e nos Estados Unidos que regressa à terra e nela deixa história, não só no Carnaval da ilha, onde foi co-fundador do grupo “Copacabana”, mas também como a inesquecível personagem de grande popularidade: o “Negro Sarafe”. O seu humor, o seu carismático chapéu e o indispensável fato de linho branco eram adereços que pareciam ironizar a personagem criada por si e para si próprio. Ninguém o esquece, nem na sua ilha natal nem em São Vicente, onde era também muito estimado pelo seu caráter de homem bom e sempre bem-disposto.

 

 

 

CONCLUIR

 

Resta-me apenas concluir. Com o Carnaval de São Nicolau e de São Vicente em selos, os festejos não acabam na quarta-feira de cinzas. Passam a durar o ano inteiro viajando para lugares distantes e acabando por ficar para a História numa esquina do tempo qualquer.

 

Parabéns aos Correios de Cabo Verde pela iniciativa; parabéns aos autores Leão Lopes e Rogério Rocha (M_EIA) pelo excelente trabalho destes selos; parabéns São Nicolau e São Vicente pelo seu Carnaval.

 

- Manuel Brito-Semedo

 

São Vicente, 28 de Fevereiro de 2014

 

 

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6 comentários

De Djack a 01.03.2014 às 10:57

Ó Naise, com ess bô atitude esclaricid, bô scapá de ser mitido lá na sótão de Gil Eanes rodeód de canilinha, gongon, massongue, catchorrona ma capotona e otes bruxa varióde.


Um braça dess cumpanher bloguista mondrong,
Djack

De Brito-Semedo a 01.03.2014 às 12:48

    
Ó que alívio! Há gente que me entende!
Braça, Djack, e votos de Bom Carnaval dalî de SonCent.
Nice Provocador ma Compintcha.

De JOAQUIM ALMEIDA a 03.03.2014 às 07:52

Na verdade é uma boa noticia deste mês de março ; a visita da nossa querida (Esquina) Jà estàvamos com saudades suas ?? O vasio se fazia sentir com a falta das suas boas noticias!.. Falando do Artur " boxer " , lembro-me perfeitamente dêle  pessoa amàvel e que na verdade era organizador de combates de boxe -amadôr !.. Que a nossa Esquina nos faça de vez enquando uma visitazinha , que faz alegrar os nossos espiritos !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho !..

De Valdemar Pereira a 02.03.2014 às 12:48

Graças a Deus, Manel jà bem !!!
Ê que a espectativa era grande. A falta se fazia sentir.
Com o selo fico a conhecer mais uma figura do nosso
Carnaval. Serafim não foi do meu tempo.
Bolas, que estou ficando velho !!!
Braça e grande Carnaval pa tude lode.

De João Sá a 03.03.2014 às 12:10

Mas que boa surpresa ver que é o próprio 'esquinense' quem (já) não consegue 'abandonar' de vez este filho, que é nosso irmão, de tertúlia desta Esquina que nos faz falta.


Claro que, pela temática (post interessantíssimo, como sempre) e pela ocasião, este post tem que estar em destaque Na Rede na homepage do SAPO Cabo Verde.


Fez-me feliz, digo-o com sinceridade.


Obrigado por não deixar 'morrer' esta Esquina.


João

De Teresa Alves a 03.03.2014 às 12:47

Obrigada :-)

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