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"Chiquinho" pelo seu 80.º Aniversário

Brito-Semedo, 25 Abr 16

 

Chiquinho.gif

 

“Como quem ouve uma melodia muito triste,

recordo a casinha em que nasci, no Caleijão”

 

– Baltasar Lopes, in Chiquinho, 1947

 

 

Há precisamente oitenta anos, em Março de 1936, Baltasar Lopes da Silva (São Nicolau, 23.Abril.1907 – 28. Maio.1989), Professor do Liceu Central Infante D. Henrique de S. Vicente, com 29 anos de idade incompletos, assinava no número inaugural da Claridade, revista de arte e letra (São Vicente, 1936-1962), que fundara juntamente com Manuel Lopes e Jorge Barbosa, o texto “Bibia”, anunciado como um excerto do romance ‘inédito’ Chiquinho, obra em curso de escrita, de que viria a ser o cap. 24 (Parte “Infância”).

 

Um ano depois, no seu n.º 3, a revista voltaria a publicar “Infância”, mais um extracto desse romance inédito (os cap. 16, 29, 23, 18 e 22, Parte ”Infância”). Seguiu-se um interregno e Claridade só voltaria a sair dez anos mais tarde, em Janeiro de 1947. Nesse ano, as Edições “Claridade” dão à estampa Chiquinho, “romance caboverdeano”, cuja escrita foi concluída em 1937.

 

Chiquinho

 

O romance, considerado a principal obra literária de Baltasar Lopes, é hoje um clássico da literatura em língua portuguesa e um marco da literatura moderna cabo-verdiana, iniciada em 1936 com a publicação da Claridade.

 

O livro que está estruturado em três partes – Infância, S. Vicente e As-Águas – é, do ponto de vista antropológico, um romance iniciático. Conta a estória de Chiquinho, estória essa que se confunde com a história do seu autor.

 

A primeira parte, a maior e a mais substancial do romance, é a infância de Chiquinho em São Nicolau, lugar onde vive a sua meninência e parte da adolescência, faz a instrução primária e estuda até ao 5.º ano no Seminário-Liceu e na Escola Normal Superior.

 

A segunda parte, de transição para a vida adulta, é vivida em São Vicente, na cosmopolita cidade do Mindelo, onde Chiquinho faz o 6.º e o 7.º ano do liceu e entra na vida adulta.

 

 Grupo Claridade.jpg

Grupo da Claridade: Gregório Chantre, Mário Macedo Barbosa, Félix Monteiro, Manuel Coelho Pereira Serra, Jorge Barbosa, Manuel Velosa, António Aurélio Gonçalves e Baltasar Lopes
 

A terceira parte do romance é a de um Chiquinho adulto que regressa à sua ilha natal para trabalhar como professor de posto e vive o drama da falta de as-águas e as angústias de um meio pequeno e acanhado. A única saída é Chiquinho seguir as pisadas do pai e emigrar para a América. Contudo, “corpo, qu’ê nêgo, sa ta bai; / coraçom, qu’ê forro, sa ta fica…”.

 

A nova edição de Chiquinho (10.ª edição portuguesa e 4.ª fac-similada), de 2014, a ser distribuída na edição de 4 de Maio com o Expresso das Ilhas, por um preço módico, não deixa de ser uma homenagem ao seu autor, Baltasar Lopes, que, se estivesse vivo, completaria no próximo dia 23 de Abril, data institucionalizada por Decreto n.º 25/90, de 21 de Abril, como o Dia do Professor Cabo-verdiano, 109 anos.

 

Esta edição é igualmente uma homenagem ao primeiro Editor de Chiquinho, Manuel Velosa (S. Vicente, 1901 – 1956), grande comerciante, durante anos, presidente da Associação Comercial de Barlavento, elemento do grupo da “Claridade” (no dizer de Baltasar Lopes, “como um outsider”) que, às suas expensas, tornou possível essa publicação. É também um reconhecimento a mf. [Manuel Filipe] (Condeixa-a-Nova, 1908 – 2002), pintor neorrealista português e professor do Liceu de Leiria, onde Baltasar Lopes lecionava, o autor do desenho da capa.

 

De recordar que a última edição cabo-verdiana de Chiquinho é de Dezembro de 1997, da Edições Calabedotche (S. Vicente), com uma tiragem de 3.000 exemplares, há muito indisponível, apesar de ser obra de leitura obrigatória no 11.º ano (área humanística) do Ensino Secundário do nosso sistema educativo. Houve, entretanto, mais duas edições saídas em Portugal – pela Edições Nova Vega, em 2006 (reimpressa em 2014), e pela Biblioteca Editores Independentes / Cotovia, edição de bolso, em 2008 – ambas esgotadas.

 

Baltasar Lopes

 

Romancista, contista, poeta, filólogo e ensaísta, com incursões pela etnologia e pela sociologia. Baltasar Lopes fez os estudos primários e secundários em São Nicolau, primeiro no Seminário-Liceu e depois na Escola Normal Superior, em São Vicente, no Liceu Infante D. Henrique, e  em Lisboa, no Liceu Camões. Licenciou-se em Direito e em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa.

 

"Auscultei-me, auscultei-me, até que um dia cheguei à conclusão: eu gosto é de ensinar. Ser professor" – Baltasar Lopes, in “O Mago Baltazar”, Entrevista a Fernando Assis Pacheco, Suplemento de “O Jornal”, Maio de 1988.

 

Liceu Gil Eanes- Gpo. Professores 1938.jpeg

  Grupo de Professores do Liceu Gil Eanes, 1938. Baltassar Lopes é o segundo à direita.

 

Regressado ao seu arquipélago em Outubro de 1930, Baltasar Lopes fixou-se na Ilha de São Vicente, onde exerceu a advocacia e foi professor do Liceu Central Infante D. Henrique, posteriormente Liceu Gil Eanes, onde veio a ser Reitor na década de 60.

 

A última aula do Professor Baltasar Lopes da Silva foi dada a 23 de Abril de 1972 no Salão Nobre do Liceu Gil Eanes, acto presidido pelo Governador da Província. Após a independência, Baltasar Lopes foi, por pouco tempo, membro do Conselho de Justiça (anterior designação do Supremo Tribunal de Justiça).

 

Fundador e grande animador da revista Claridade, revista de arte e letra, Baltasar Lopes é autor de Chiquinho, 1947; Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, 1956; O dialecto crioulo de Cabo Verde, 1957; Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (Org.), 1960; Cântico da Manhã Futura (poemas), 1986 (com o nome poético de Osvaldo Alcântara); Os trabalhos e os dias (contos), 1987; e Escritos Filológicos e Outros Ensaios, 2010.

 

Baltasar Lopes recolheu e traduziu contos e poesias populares crioulas, teve colaboração dispersa em múltiplas publicações e figura em várias colectâneas. Como poeta, assinava com o pseudónimo de Osvaldo Alcântara.

 

Foi advogado durante dezenas de anos, defendendo muitas vezes as pessoas socialmente desprotegidas.

  

Ao longo da sua vida, Baltasar Osvaldo Alcântara Lopes da Silva foi distinguido cinco vezes por Portugal:

 

  1. com a comenda da “Ordem do Infante D. Henrique”, em 1962, que lhe foi entregue Pelo Ministro do Ultramar Adriano Moreira, em nome do Estado Português;
  2. com a “Comenda de Instrução Pública”, em 1972, atribuída pelo Presidente da República Portuguesa, Américo Thomaz, que lhe foi entregue pelo Governador Lopes dos Santos durante o acto público da sua última aula;
  3. com o título deDoutor Honoris Causa, em 1981, pela Universidade de Lisboa, para cuja Faculdade de Letras havia sido convidado em meados da década de quarenta como professor, convite que declinou;
  4. com a “Medalha de Cavaleiro da Ordem do Infante”, em 1988, entregue pelo Presidente Mário Soares em sua residência;
  5. com o “Grande Colar” pela Academia de Ciências de Lisboa, em 198…?, devido ao seu trabalho na área da linguística.

 

Em Cabo Verde Baltasar Lopes foi agraciado postumamente em 1994 pelo Presidente António Marcarenhas com a "Medalha de 1.ª Classe da Ordem do Dragoeiro", a mais alta distinção atribuída pelo Estado cabo-verdiano a personalidades ligadas à cultura.

  

______________

Fonte:

AAVV, Claridade, revista de arte e letra, S. Vicente, 1936-1962.

ASSIS PACHECO, Fernando, Suplemento de “O Jornal”, Lisboa, Maio de 1988.

LOPES, Baltasar, Chiquinho, S. Vicente, 1947.

LOPES, Leão, Baltasar Lopes. Um homem arquipelágico na linha de todas as batalhas, S. Vicente, 2011.

 

Manuel Brito-Semedo

 

Nota: Texto saído no Jornal Expresso das Ilhas

 

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