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Crónica para o Dia dos Namorados

Brito-Semedo, 14 Fev 17

 

Cartas de amor.jpg

Depois de te ter dado as Crónicas de Diazá para leres, ainda em formato digital, esperei poder, nas nossas já frequentes idas ao Café, nos nossos momentos de cumplicidade, conversar sobre essas minhas estórias e contar-te outras ainda por registar.

 

Achei graça quando, em 2007, percebeste que a RTP estava a celebrar os seus 50 anos e, muito admirada, voltaste para este teu velho e lhe perguntaste como era a vida antes de haver a TV. Na tua cabecinha eu era um ser ATV (antes da televisão) e tu, uma DTV (depois da têvê), da mesma forma que eu era um ADI (antes da internet) e tu, uma DDI (depois da internet). Mais admirada ficaste quando te disse que em Cabo Verde a TV era coisa recente, que só tinha aparecido três anos antes de teres nascido… e a preto e branco!

 

Uma outra vez ficaste a olhar para mim, nesse teu jeito sisudo, quando te disse, meio a brincar, meio a sério, que se os rapazes te convidassem para sair e não te tratassem com o mesmo respeito e a mesma delicadeza com que o teu pai e os teus irmãos te tratavam não devias ir com eles. Pois…

 

Hoje reencontrei, perdido na minha memória, um livrinho que vi pela primeira vez na montra da Papelaria de Toi Pombinha, em São Vicente, era eu rapazinho, livrinho esse que marcou a adolescência e a juventude dos rapazins e das menininhas de Soncente nos anos sessenta do século XX. Queria partilhar contigo… txan-txan-txan-txan (sonoro dos filmes)… As 100 mais lindas cartas de amor ou O livro dos namorados (secretário completo dos amantes), Declarações de Amor, Cartas Amorosas, Correspondência Secreta, Linguagem das Flores, etc.

 

Pracinha da Igreja.jpeg

 

Antes, é bom que saibas que na Morada, por essa altura, havia duas boas papelarias, a Papelaria Leão, situada na enfiada da Igreja Matriz, mesmo ao lado da Câmara Municipal, virada para a Pracinha, e a Papelaria Gomes, conhecida por todos como Papelaria de Toi Pombinha, que ficava nas traseiras da Câmara, na lateral do Mercado Municipal. Esta era a papelaria mais popular porque com preços módicos, frequentada pelas gentes das zonas periféricas que ali convergiam antes de abrirem as escolas e de começarem as aulas.

 

Lembro-me que a Papelaria de Toi Pombinha vendia toda a espécie e qualidade de material escolar, livro infantil e infantilóna, livros de escola-de-rei, pedra de conta e peninha, cadernos de linha estreita, linha larga e quadriculado, lápis de carvão e de cor, borracha de lápis e de tinta, aparador e uma trupida de coisas mais como papel almaço, papel de seda e de lustro, papelão, revistas para bordado, de culinária e de quadradinho, fotonovelas, literatura infantil e juvenil, livros policiais, romances de escritores portugueses, brasileiros e estrangeiros e alguns poucos cabo-verdianos. Estava lá tudo misturado. Alguns livros expostos na pequena montra exterior, outros no interior, na prateleira superior do balcão com tampo de vidro e muito, muito material no armazém, no quarto ao lado cuja porta estava normalmente fechada. Era um corrupio de gente a entrar e a sair que era atendida pelo Sr. Toi Pombinha (António Ramos Gomes), Dona Sílvia e filhas que não tinham mãos a medir.

 

Como te dizia, Filha, reencontrei hoje na Esquina do Tempo esse livrinho As 100 mais lindas cartas de amor ou O livro dos namorados. Queria falar-te dele e partilhar algumas das peripécias que os mais velhos nos contavam. Das cartas copiadas em papel de flores e de cheiro e que eram mandadas às meninas a quem se queria pedir namoro, que nós os mais novos entregávamos a troco de uns tostões, das respostas, por vezes desencontradas, e das maldades que se fazia aos pretendentes quando não os queriam, indicando, inclusive, a página do livro onde o rapaz devia encontrar a resposta, das cartas que eram guardadas pelas meninas como prova de compromisso e que eram devolvidas ao rapaz se acabasse o namoro… Sobretudo, queria ler-te alguns trechos dessas correspondências, declarações de amor, expressões de diazá, frases pirosas, mas deliciosas. Ah, como queria!...

 

Carta de Amor.jpg

 

Se o Pai chegou também a escrever cartas de amor?! Claro! Não copiadas d’ As 100 mais lindas cartas de amor, mas outras cartas, uma pilha delas. Adivinhas para quem?

 

Pisco-te o olho e encomendamos o nosso café ao empregado que nos interpelou:

 

– Fraco para a Menina e normal em chávena escaldada para mim.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

_________

NB – E é com este post n.º 2.027 que o Esquina do Tempo entra no seu 7.º aniversário.

 

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2 comentários

De Djack a 15.02.2016 às 11:51

O blogue "Praia de Bote", que recentemente comemorou o seu 5.º aniversário, felicita o cumpanher más bedje "Esquina do Tempo", desejando-lhe muito mais "tempo".


Braça,
Djack

De Carlos Filipe Gonçalves a 15.02.2016 às 16:24

Fiquei com agua na boca... Então para quando uns excertos daquelas cantas? Para já vai uma piada... Nos tempos do Liceu Velho, estávamos no 3.º ano... Um dos nosso amigos (não vou dizer quem) foi apanhado a escrever uma carta de amor para uma crioula (bonitona) por sinal ela estudava na Escola Técnica... O nosso amigo não pode escrever mais do isso: "Minha querida pombinha Manu: Não imaginas como o meu coração fica aos pulos quando te vejo. Venho suplicar   " E foi neste ponto que a malta o interrompeu e foi-lhe arrebatada a folha do caderno em ele escrevia. O início da carta foi depois lido em voz alta, para gozo da malta, que às gargalhadas, repetia «minha querida pombinha Manú»... E o nosso apaixonado, ficou vermelho, enrascado.. não sabia o que fazer...     

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