Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

 

Cronicas.jpgCrónicas da Terra Longe, a obra que aqui apresentamos, é não só um produto desta emigração, mas também a epopeia dessa partida do povo cabo-verdiano para outros horizontes. Um produto na medida em que o autor teve também que partir para a terra longe, um sonho que acalentou desde a infância de ir à procura da mãe que também emigrara quando ele apenas tinha 5 anos. A este factor veio acrescentar-se a sua consciencialização da realidade cabo-verdiana, da vida de luta do seu povo contra as secas e a fome que dizimaram, em diferentes épocas, milhares de cabo-verdianos. Foi certamente por ter partido para novos horizontes e conhecido a realidade dos cabo-verdianos emigrados que Luiz Silva se interessou por este tema da emigração. A presente obra reúne diversos artigos e ensaios publicados de há 3 décadas para cá em diversos jornais e revistas, nomeadamente em Cabo Verde, França, Holanda e Estados Unidos.

 

Crónicas da Terra Longe é também uma epopeia da emigração cabo-verdiana na medida em que descreve a história deste povo em terra estrangeira, os seus combates nos países de imigração e também em Cabo Verde pela preservação dos seus plenos direitos de cidadão, as suas conquistas e a sua contribuição para o desenvolvimento “des dez grãozinho di terra espaiode na mei di mar".


Uma breve apresentação do autor permite uma melhor compreensão da razão de ser desta obra:


Natural de Mindelo, foi nesta ilha que Luiz Silva fez os estudos primários e secundários, tendo partido aos 19 anos, por razões profissionais, para a ilha do Maio e depois para Santiago.


Na ilha do Maio, teve a oportunidade de aprofundar o seus conhecimentos sobre a história das ilhas e em particular da do Maio, graças a informações colhidas junto de amigos e colegas de trabalho, mas também às pesquisas que efetuou nos arquivos do Município.


Regressando a Mindelo, 3 anos mais tarde, trabalhou nos serviços administrativos de S. Vicente, o que lhe permitiu acompanhar de perto a saga da emigração para a Holanda. Nessa altura, a emigração para esse país europeu já tinha transformado o panorama urbano da cidade de Mindelo e seus arredores.


Perante esta constatação, Luiz Silva compreendeu que a hora di bai não constituía um ato evasionista, mas sim uma missão ao serviço de Cabo Verde, porque a partida de uns permitia que outros pudessem ficar no país, ali estudar e trabalhar sem ter a necessidade de conhecer a saga da emigração.


Em 1968, decidiu partir para a Holanda, tendo acabado por se instalar na França. Trabalhando de dia e estudando à noite, obteve um mestrado em Sociologia e um Diploma de Estudos Aprofundados em História Africana na Universidade da Sorbonne em Paris, bem como um diploma de animador sociocultural especializado no meio migrante.


Sociólogo e historiador, Luiz Silva desenvolveu a sua atividade profissional na área do ensino e da emigração. Como animador e diretor de centros para trabalhadores migrantes, pôde conhecer a fundo o meio emigrante. Foi um dos fundadores e ativistas do movimento associativo cabo-verdiano em França, desempenhado um papel importante na legalização e integração de muitos patrícios. Luiz Silva foi também um dos fundadores do Congresso dos Quadros Cabo-verdianos da Diáspora criado em 1994.


Com tal percurso, a emigração tornou-se naturalmente o seu objeto de estudo e de reflexão predileto. Falar de Luiz Silva é falar da emigração cabo-verdiana, mas também de Cabo Verde, na medida em que ele não concebe uma emigração desenraizada do seu país de origem, o que explica o seu combate por uma participação ativa dos emigrantes no desenvolvimento das suas ilhas de origem, bem como pela defesa dos seus direitos como cidadãos de pleno direito.

 

A obra

 

Este livro contém 444 páginas, com um prefácio de Arsénio de Pina, um posfácio de José Fortes Lopes e um texto na contracapa de Adriano Miranda Lima. Reúne 55 textos e ensaios que contribuem para a compreensão da História da emigração cabo-verdiana em diferentes aspetos, nomeadamente: a emigração clandestina; a emigração feminina; o movimento associativo e o seu papel fundamental na integração dos emigrantes nos países de acolhimento; a luta dos emigrantes pela preservação dos seus direitos como cidadãos de plenos direitos em Cabo Verde. Porém, outros temas da vida cabo-verdiana são igualmente abordados nesta recolha: cultura, literatura, música, teatro, desporto, economia e vida política.


Estes textos estão agrupados em 2 categorias:


I. Textos sobre a emigração
II. Textos em homenagem a homens e mulheres de cultura


Em cada texto está indicada a data da sua publicação de modo a que o leitor possa situar no tempo as análises e propostas apresentadas.

 

I. Os textos sobre a emigração

 

Este tema constitui o eixo central da obra representando 65% do seu conteúdo, com 34 textos que abordam diferentes aspetos desta temática, permitindo ao leitor uma perceção global sobre as causas e as principais vagas da emigração cabo-verdiana, os problemas encontrados pelos emigrantes nos países de acolhimento e no seu relacionamento com Cabo Verde, bem como as propostas apresentadas para a conceção de uma política de emigração.


Como causas da emigração o autor aponta a incapacidade da autoridade colonial na resolução do problema da seca e a falta de investimentos na agricultura nas ilhas agrícolas e na modernização do Porto Grande de S. Vicente.


Relativamente aos problemas encontrados pelos emigrantes, desde a década de 1980, Luiz Silva denunciou o que ele considerava uma negação da existência civil e moral dos emigrantes avaliados e tratados como coisas sem direito de intervirem nos órgãos representativos da Nação e isso devido à:


• Inexistência de uma política de emigração da parte do governo de Cabo Verde;
• Inexistência na altura de um ministério, secretaria de estado ou de um comissário encarregado dos assuntos dos emigrantes, bem como de representantes da emigração no seio da Assembleia Nacional;
• Inexistência ou fraco apoio dos consulados e embaixadas cabo-verdianos aos emigrantes.

 

Perante esta constatação e tendo em conta a importância da emigração na vida económica e sociocultural de Cabo Verde, o autor avançou com as seguintes propostas:


• Um inventário da emigração, de maneira a conhecer-se o número de emigrantes, os países de acolhimento e sobretudo as suas ocupações profissionais de forma a poder-se definir um programa de intervenção da emigração na vida económica, cultural e social de Cabo Verde, com direitos e deveres;
• A definição de uma política para a emigração com uma participação ativa dos emigrantes, nomeadamente na vida dos municípios de origem;
• A criação de um ministério ou de uma secretaria de estado encarregue das questões da emigração;
• A criação de um conselho das comunidades com um programa económico e um projeto cultural, tendo especialmente como alvo as segundas gerações de modo a que os laços com Cabo Verde não fossem perdidos;
• A eleição de representantes da emigração no seio da Assembleia Nacional;
• A criação de condições para que os emigrantes pudessem investir as suas economias na criação de pequenas unidades comerciais e industriais, como por exemplo a criação de um banco para os emigrantes à semelhança de outros países africanos;
• Um apoio aos emigrantes pela concessão de créditos para a construção de casas próprias nas suas ilhas de origem;
• Um apoio dos consulados e embaixadas aos emigrantes.


De entre estas propostas, foram entretanto realizadas:


• A criação de um Ministério da Emigração;
• A aprovação pela Assembleia Nacional do Conselho das Comunidades, cuja composição ainda não foi definida;
• A eleição de representantes da emigração no seio da Assembleia Nacional;
• A instituição no seio de alguns municípios de uma política de emigração.

 

O autor lamenta que o governo e os municípios não tenham sido capazes de canalizar plenamente as economias dos emigrantes para os investimentos no país e em particular nas suas ilhas de origem.


Por outro lado, salienta o papel desempenhado pelo movimento associativo da diáspora no enquadramento e integração dos novos emigrantes, perante a inexistência de uma política de emigração.


Apesar de todas as dificuldades e a falta de um diálogo permanente entre as autoridades governamentais e municipais, o autor salienta o relevante papel desempenhado pelos emigrantes na história e na vida de Cabo Verde:


• A contribuição dos emigrantes dos Estados Unidos para a formação da Nação cabo-verdiana;
• Os investimentos dos emigrantes, nomeadamente os da Holanda a partir dos anos 1960, na construção urbana, transportes e compra de terrenos a antigos patrões;
• Mudanças sociais e culturais, com a introdução de novos hábitos, tais como a generalização do casamento e um impulso à educação com uma abertura ao ensino superior; 
• A contribuição da diáspora para a reflexão sobre o futuro de Cabo Verde, nomeadamente sobre a questão da regionalização de que ela tem estado na vanguarda.


A emigração para S. Tomé e Príncipe mereceu uma análise profunda por parte do autor que denuncia a dureza da vida destes emigrantes naquelas ilhas e o abandono a que foram votados depois da independência, quando estava previsto o seu retorno a Cabo Verde aquando da independência. Assinale-se que entretanto o governo de Cabo Verde decidiu atribuir uma pensão aos emigrantes mais necessitados que permanecem em S. Tomé e Príncipe.

 

II. Homenagem aos homens e mulheres de cultura

 

Esta parte compreende 19 textos sobre homens e mulheres que escreveram páginas de ouro da história da música, da literatura, do teatro e do desporto de Cabo Verde.
Nesta homenagem, o autor dá uma quantidade importante de informações sobre o percurso destes homens e mulheres que poderão contribuir para a escrita da história cultural e desportiva de Cabo Verde.

 

Em guisa de conclusão:

 

Tive o prazer e o privilégio de colaborar com Luiz Silva na preparação desta publicação. Pertencendo eu mesma à segunda geração da diáspora cabo-verdiana, a leitura destes textos permitiram-me entrar em contacto com a realidade e a vivência cabo-verdianas, passadas e presentes, enriquecendo assim o meu conhecimento sobre o país e fazendo-me descobrir o enorme contributo da Emigração para o seu desenvolvimento económico, cultural e social.


Com efeito, embora o tema da Emigração seja o eixo transversal desta obra, ela aborda todos os outros aspetos da vida cabo-verdiana, dando um vasto panorama dessa Nação, que foi Nação antes de ser Estado. E a particularidade destas análises é que o autor não se limita unicamente a descrever as situações, mas propõe também pistas para a resolução dos problemas encontrados, contribuindo assim para a reflexão nacional sobre a condição emigrante e o seu futuro em Cabo Verde.


Estudantes, pesquisadores, curiosos da História e da vida em geral de Cabo Verde têm nesta obra uma rica fonte de informações e reflexões.

 

- Filomena Vieira
Paris, 19/09/2015

 

Crónicas da Terra Longe

Luiz Andrade Silva

Chiado Editora, 2015

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Manuel Brito-Semedo

    Caro Zé Hopffer, Excelente! Terei isso em consider...

  • Anónimo

    Esqueci-me de me identificar no comentário anterio...

  • Anónimo

    Meu caro, seria interessante incluir o texto de Ar...

Powered by