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"Crónicas do Expresso das Ilhas"

Brito-Semedo, 12 Out 17

 

Esquina do Tempo.jpg

A Esquina do Tempo, que começou como Crónicas de Diazá em 2009, fez-se blogue em 2010, produziu Crónicas de Mindelo em 2014, apresenta agora Crónicas do Expresso das Ilhas. Um convite para revisitar a esquina do tempo inicial.

 

Para os meninos da minha infância da Chã de Cemitério, periferia da cidade do Mindelo, ilha de São Vicente – estou a falar dos anos sessenta – as pontinhas (esquinas ou pontas de esquina do nosso bairro) tiveram uma função importante de socialização, de iniciação na vida adulta e de transmissão de conhecimentos, sendo, portanto, suportes da nossa memória tanto colectiva como individual.

 

As nossas brincadeiras da infância ou da meninência estavam praticamente circunscritas a dois grandes largos. Um era o Largo John Miller, que se estendia da estrada, situada entre os clubes de ténis do Castilho e do Mindelo, até à Praça da Salina (Praça Estrela). Do outro lado da estrada ficava o nosso largo, sem qualquer placa ou nome oficial, mas delimitado por duas importantes referências naturais: a pontinha de Nhô Fonse, num extremo, e a pontinha de Nha Teresa, noutro, com as nossas casas no espaço circundante.

 

Ao Largo John Miller íamos caçar pardais, aprender a andar de bicicleta, comprar bolachas na Padaria Jonas Whanon e fazer recados e pequenas compras na Mercearia Lizardo, do Nhô Ventura. Contudo, era no nosso largo que passávamos a maior parte do tempo. Ali, durante o dia, jogávamos à bola, saltávamos ao eixo, fazíamos as guerras-de-cavalo e o jogo de corrida-a-pau, passávamos calaca e andávamos à pancada e, à noite, reuníamo-nos para ouvir histórias contadas pelos mais velhos.

 

Era na ponta de esquina da Nha Teresa ou do Nhô Fonse, iluminada por um único poste público que dava uma luz amarelada e fraca, que, à noitinha, depois de comermos à pressa a nossa cachupa, nos reuníamos com os colegas e aprendíamos dos mais velhos, através das estórias do cinema, do maravilhoso e do fantástico. E tínhamos então gente boa a contar histórias, como Tchéta de Nhô Germano, Funhû de Nhô ‘Nton Bertôl, Lalela de Nha Liza e Lije de Nhô Fonse.

 

Outro grande contador de histórias, mas com uma predilecção sádica para nos aterrorizar com os casos das feiticeiras e das almas de outro mundo – da capotona, da catchorrona, do gongom, da canelinha e dos maçongues – era o César de Nhô Guste, aquele rapaz magricela, muito esperto, de sorriso franco e olhos arregalados, que emigrou cedo para a Terra-Longe que tem “gente-gentio”, na linguagem do poeta, que ficou por lá e de onde não voltará nunca mais.

 

O problema surgia quando éramos chamados para irmos para a cama e tínhamos de fazer o percurso de regresso a casa, com pouca luz ou às escuras, e as sombras dos montes de pedra, das charuteiras, dos tarrafes e das tamareiras, abanadas pelo vento, nos faziam evocar aquelas figuras.

 

Morríamos de medo e corríamos aos ziguezagues para as despistar, com esconjuros na boca!... Isso, sem falar ainda do facto de algumas das nossas casas, como a minha e a do André do Nhô Guste – mas este era destemido! – ficarem lá para as bandas do Cemitério de Inglês e do Cemitério Velho, ainda que desactivados há muito. O Cemitério Novo, o nosso dezoito-dois-oito pela data em que foi construído, 1888, ficava lá pelas bandas da Ribeira de Julião.

 

Dessas esquinas ficou-me o gosto pelas estórias, pelo desvendar de mistérios e pela busca de conhecimentos, o que havia de me levar ao estudo, à literatura e à etnologia de Cabo Verde.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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