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Diálogos pela Cultura

Brito-Semedo, 23 Out 15

 

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  Vasco Martins, Aguarela, 2013, de Hamilton Silva

 

 

- Pode a estética mudar o homem? Qual o papel do artista na construção da felicidade? Qual o seu lugar no desenvolvimento de Cabo Verde? Qual a sua contribuição para um mundo melhor?

 

Creio que antes de tentar responder às questões deste ‘painel’, podemos começar por definir o que é a estética e o que é a beleza, pois embora estreitamente relacionadas, constituem diferentes áreas da sensibilidade humana.

 

A estética é um ramo da filosofia que estuda a natureza da beleza, os fundamentos da arte ou mesmo da técnica artística, mas também a privação da beleza ou o que seja considerado feio ou ridículo. Na história ocidental parece que este estudo começou talvez com Platão, seguindo -se Aristóteles, mais tarde Kant, Hegel, etc. Todos com uma visão mais ou menos idealista, já que estudar algo que é ‘indizível’, porque na verdade é mais um sentir, uma perceção, uma sensibilidade, torna-se assim um estudo evasivo. Hegel foi mais perentório, depois de escreve sobre este assunto. No fim resumiu: ‘só é belo o que possui expressão artística’.

 

 

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Quanto à beleza, vale a pena ir à etimologia desta palavra, por ser interessante e curioso. Beleza vem do grego ‘Kallas’. A palavra para bonito era ‘Horarios’, que por sua vez vem da palavra ‘Hora’ que significa hora, a nossa hora. Assim, na palavra grega ‘Koiné’, a beleza estava associada a ‘estar na hora ou no seu momento’. Uma flor, por exemplo, na sua frescura, no seu tempo, era considerado bonito, enquanto uma pessoa jovem que tenta parecer madura ou uma pessoa entrada nos anos tenta parecer jovem, era considerado não bonito. Mas ‘Horarios’ teve vários significados incluindo jovem e idade madura.

 

Tirando as grandes obras de arte que com o tempo permanecem como beleza no coração dos homens, a beleza natural fenece e é impermanente.

 

Assim creio que o melhor é falar mais da beleza do que da estética. Porque é a beleza que influi de maneira decisiva na alma do homem, sendo a estética o estudo, portanto a parte mais intelectual. Quando ouço a Sinfonia nº 7 de Sibelius, a beleza desta música atinge profundamente o meu coração. Mas quando a analiso, isto é vou à estética, já não é a mesma coisa. Entra o pensamento racional e analítico. Não há nenhum estudo sobre uma obra-prima da arte, por mais monumental que seja, que possa ultrapassar a noção do belo e do sublime que essa obra oferece ao coração humano.

 

Mas como se sabe, a noção da beleza é relativa, subjetiva. Pois o que é belo para um, pode não ser para outro, ou neutro para outro ainda. Mas quanto a mim, tirando casos inerentes ou naturais que pertencem a esta ou aquela cultura, a noção do belo depende da sensibilidade, da educação e do seu culto.

 

Vamos tomar um exemplo. O Japão, considerado o país mais esteta do mundo. A veneração das amendoeira em flor. Em fim de Fevereiro e princípio de Março nas ilhas ao Sul começam a brotar os primeiros rebentos de amendoeira. Constitui um acontecimento nacional, com primeiras páginas nos jornais, relevo nos noticiários televisivos, na network, etc. Conforme o desabrochar vai subindo para o Norte, coincide mais ou menos que o dia 21 de Março, que no Japão é feriado porque é o Dia da Poesia, as amendoeiras estão em flor. Milhões de pessoas saem então para as visitar, fazendo picnics, recitando poemas haykay, bebendo saké, estarem reunidos com amigos, com a família, num ambiente de tranquilidade, de poética e democrático. A beleza de uma aparente simples flor de amendoeira, eleva um país que sabemos trabalhador, disciplinado, industrioso até ao extremo, rigoroso mesmo, eleva-o à dimensão humana, à noção do belo, transformando pessoas stressados com a trepidação quotidiana em pessoas tranquilas, não agressivas, felizes, restaurando assim as energias. Creio que é um belo exemplo como a beleza pode confortar e engradecer o homem. Mas, e isso é que quero sublinhar, esta atitude esteta de todo um povo não nasceu espontaneamente. Nasceu pouco a pouco do culto da beleza durante gerações. Por conseguinte a perceção da beleza é uma aprendizagem, uma parte importante da educação humana.

 

Em Cabo Verde, na Ponta do Sol na ilha de Santo Antão, para citar um exemplo que conheço, existe o culto dos lírios. Em quase todas as casas, na parte da frente, as pessoas plantam lírios, que no verão sobretudo, inundam esta vila de perfume natural que proporciona o bem-estar, a tranquilidade, e a leve sensação de felicidade.

 

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B.Léza, Pintura de Toy Firmino, 2010

 

Vamos à música. Por exemplo, a Morna ‘Miss Perfumado’ de B.Léza. Assisti no Bataclan, em Paris a um concerto da Cesária e quando ela começou a cantar esta morna, o público, constituído na maior parte por franceses, aplaudiram para logo ficarem num impressionante silêncio. Toda a sala estava presa a uma emocional idade que só a beleza e a arte podem dar. A maior parte do público não sabia a letra, mas foi a música, essa melancólica e profunda música de B.Léza, aliada á doçura da voz da Cesária e ao momento presente que fizeram o milagre, que uniu todos à volta de uma canção. Fez que nos nossos corações reinasse a indiscritível noção do sublime.

 

Vale a pena lembrar as famosas palavras de Lenine sobre a música clássica da qual ele era um melómano. Na altura da grande revolução russa, Lenine, atarefado com as enormes problemáticas de uma revolução, disse ou escreveu mais ou menos isto:’ não quero ouvir música. A música faz amolecer os meus sentimentos revolucionários’. Ora com isso ele quis dizer que a música, com o seu poder supremo de pacificar os corações e de promover sentimentos de tranquilidade, não era útil naquele momento da sua vida, que necessitava de ação, agressividade, em suma, de espirito guerreiro.

 

Lembremos também o nazismo. Muitos músicos judeus sobreviveram ao holocausto por terem grande talento. Mesmo nos momentos mais sangrentos da história da considerada Segunda Guerra Mundial, os nazistas não deixaram de cultivar o belo ou a beleza, colecionando obras de arte, promovendo concertos até de alguns compositores das nações com quem estavam em guerra, embora tivessem as suas predileções de um povo que se julgava superior a todos. O que nos leva a refletir se a beleza pode mudar um homem, isto é mudar para o bem. Se concordarmos, tal como eu concordo, que Hitler e os nazis foram uma maldade na história da humanidade, diria que não. A beleza não tem esse poder, a não ser se os homens tomem consciência profunda do que é o bem e o que é o mal e queiram escolher um desses caminhos.

 

Quanto a isto, cito as palavras de Beethoven: ’onde existe a beleza e o bem é essa a minha morada’. Para ele a beleza e o bem estavam associados. Sem dúvida que prefiro este aforismo do Mestre.

 

Não há nenhum povo, nenhuma civilização que não cultive a beleza para tirar dela o prazer estético, e na forma mais ampla, a felicidade que eu mudaria para maravilhamento. Porque para lá do maravilhamento pouco ou nada existe. Um homem que tenha o culto da beleza, é com certeza um homem que é mais atento ao universo, ao que o rodeia, à bondade e o seu contributo para a sociedade é mais amplo e promissor. É um ser mais calmo, propicio a aceitar as coisas como são, e a efetuar ações lucidas, inteligentes e mais consequentes. Por exemplo: alguém que alie a beleza á ecologia nunca poderá ferir nem a natureza, nem o urbanismo de uma cidade, nem, sob o manto confuso da modernidade, não ter em conta as boas tradições e o bom senso.

 

Acredito mais, quando se fala de beleza, já que é subjetiva, na inteligência intuitiva do que na demasiada análise. Uma inteligência que requer espiritualidade, uma atitude sem argumentos ou sofismo. E uma permanente educação da sensibilidade, como já disse.

 

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 António Aurélio Gonçalves

 

Eis mais um exemplo: quando o escritor António Aurélio Gonçalves visitou Paris pela primeira e única vez, pediu-me que visitássemos o Museu du Louvre. Fizemos uma visita de horas, até que chegamos à parte da pintura moderna. Ele ficou muito tempo a contemplar sobretudo dois quadros da escola impressionista francesa, um de Monet e outro de Matisse. Por fim ele disse: ’tenho reproduções boas lá em casa destas duas obras. Mas aqui posso ‘ver’ as mãos e a alma dos que pintaram estes quadros que tanto amo’. Na sua ilha, a ver sem conta as reproduções dos quadros que adorava, ainda não tinha sentido o que a realidade das 3 dimensões lhe mostrou: a energia do traço do pincel dos artistas. Mas para isso ele teve que educar a sua sensibilidade, teve que autoeducar-se.

 

Na verdade a beleza de uma flor ou de qualquer outro objeto, necessita de um observador sensível. é a beleza no interior do coração de quem observa que torna beleza a beleza da flor.

 

Quanto ao papel do artista na sociedade, o seu contributo no desenvolvimento de Cabo Verde e a sua contribuição para um mundo melhor, parecem-me assuntos mais evidentes, pois não são tão subjetivos como a beleza. Aliás fico com a impressão de dissecar evidências. Como sou artista, tenho até alguma dificuldade em falar disso. Mas avancemos.

 

Vamos a um paradoxo: quem pode imaginar Cabo Verde sem as mornas de Eugénio Tavares, do B.Léza, ou do Betú? Ou sem os romances ‘Chiquinho’ de Baltazar Lopes, ‘Os Flagelados do Vento Leste’ de Manuel Lopes’ ‘Ilhéu de Contenda’ de Teixeira de Sousa, ‘Terra de Promissão’ de António Aurélio Gonçalves, ou ‘Os dois irmãos’ do Germano Almeida? Ou o Batuque/Finason da Nacia Gomi, o Funaná de Katcháss , o disco Sodade de Humbertona, o violão de Tazinho ou de Armando Tito. A voz de Cesária, Bana, Ildo Lobo, Maria Alice, Nancy Vieira, ou o piano do Chico Serra e da Tututa, o violino do Travadinha, o cavaquinho do Bau, o clarinete do Luís Morais? Ou as pinturas do Manuel Figueira, da Luiza Queiroz, do Mito, do Alex da Silva, do Bento Oliveira ou do Tchalê Figueira? Ou os poemas de Ovídio Martins, Osvaldo Osório, Arménio Vieira ou Vadinho? E os antigos e magníficos ‘panos d’obra’, tecidos por artistas anónimos (ou artesãos, como queiram chamar). Peço desculpas por citar só alguns artistas, poetas e escritores. É que na verdade são muitos, o que não deixa de ser uma riqueza sem preço para um pequeno país de ilhas atlânticas, com tão poucos habitantes como o nosso.

 

Não digo só em imaginar que não tenham existido tais artistas. A pergunta é mais premente: é imaginar Cabo Verde sem a sua componente artística. Conseguem imaginar isso? Esse vazio? Eu não consigo. Mas suponhamos que conseguimos. O que seria Cabo Verde? Um país de mulheres e homens afadigados com os negócios, com a política, com a azáfama do dia-a-dia, mas amorfos, sem ‘anima’, para usar a palavra grega, sem estrutura mental de referência cultural e mesmo de identidade. Em suma, mais uma vez, um povo sem a beleza, um povo projetado, quem sabe, na ´barbárie’. Na China antiga, por terem uma alta civilização artística, chamavam a todos os outros povos de bárbaros. Na Roma antiga também. Podemos com displicência criticar hoje esses critérios demasiados centralizados, mas a ideia é a mesma: um povo sem cultura, isto é sem arte e a arte de viver é um povo bárbaro, onde o conceito de civilização, é abolido.

 

Não acredito nem na agressividade, nem na competição para que uma sociedade avance. Acredito mais na doçura, na compaixão, no bem, na competência, na expressão artística. E não é à toa que o livro ‘ A arte da guerra’ do Sun Tzu, um estratega militar, escrito há uns 2500 anos na China antiga (quando havia um sem fim de guerras feudais), esteja hoje tanto na moda no mundo, e inesperadamente em Cabo Verde. Constitui um livro de ‘cabeceira’ para políticos, gestores, toda uma gama de profissões e até jovens em formação. Procuram nesse livro a maneira de ludibriar os outros ou tentar compreender como os outros ludibriam. A própria palavra ‘Arte’ (da guerra’) faz o sucesso deste livro porque dá a ideia que a agressividade e a guerra são uma arte. Pode ser uma técnica, uma destreza, mas não arte no seu sentido moderno. É uma grande distorção. E quando uma sociedade ‘civil’ começa a tentar usar estratagemas de guerra e militares é porque algo não vai bem.

 

Podemos então concluir em 3 pontos essenciais:

 

1 - A beleza contribui decisivamente para a harmonia individual e social do Homem, para o seu equilíbrio emocional, o seu sentido da estética, a sua compaixão, a sua ascensão para o bem.

 

2 - O artista, sendo criador de beleza, colabora para o bem-estar, o maravilhamento, a felicidade, a assunção do Homem com a sua inerente humanidade. Estimula e pode conduzir o que de excelência existe no ser humano. Uma obra de arte pode unir os homens, a cultura une os homens.

 

3 - O artista contribui portanto para a cultura e arte de um país, não o deixa cair no utilitarismo vulgar, dignifica e projeta a sua identidade, promove o seu desenvolvimento integrado, e pode, quando atinge excelência, como foi o exemplo admirável da Cesária, projetar o país como referência entre as outras nações e povos.

 

- Vasco Martins

 

 

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1 comentário

De Hermano Lopes da Silva a 23.10.2015 às 16:34







Creio que a leitura de textos para a arte/cultura da arte, onde a estética
se encontra como matéria de análise, como neste, exige também, e sobretudo,
alguma perícia no mundo da arte. Aqui, de facto, o Sentir, apenas este, se
apresenta manifestamente aquém das possibilidades e habilidades suficientes e
necessárias para a fruição e o entendimento completos das obras escritas,
sonoras e/ou imagéticas, para não incluir as outras que, não sendo arte, são
entretanto belezas naturais que nos possam conduzir, também, ao sublime – a tal
vegetação apreciada pelo japonês, na bonita descrição do Vasco.




Para mim, este mundo “movediço” do entendimento artístico, tem, ainda, um
longo caminho a percorrer até conseguirmos ultrapassar o ponto “P” trazido na
expressão do Oscar Wilde - «nada do que vale a pena saber pode ser ensinado», contextualizado,
como é obvio, no domínio estrito da arte, esta, com sabor de um aforismo. Que
estranha forma, esta do Wilde, de nos conduzir para o submundo do sentir, na
sua mais nublosa e, até, genuína, dose de pureza romântica; não será, quiçá, um
pouco mais que isso?! Já o saber sistematizado e organizado sob as batutas das
academias nos informaria para outros níveis da sensibilidade serão associados,
com relativas vantagens, ou não, em casos muito específicos.




É interessante ver como o autor do texto, o Vasco, numa subtileza de pena
artística e lúcida, faz a belíssima simbiose entre a beleza que vai ao sublime,
extraída, ora da natureza, portanto não artística, ora da beleza imanente à
obra de arte, fruto do labor humano - aqui na música – a do B. Leza, na
resposta da plateia de Paris, como exemplo. Essa diferenciação traz mais um
aforismo, ainda do Wilde, quando nos alerta para o facto da própria natureza imitar
obras de arte em algumas telas do impressionismo. O saudoso Aurélio Gonçalves
experimentara em Louvre, quiçá, essa fruição, por instantes, no relato do vasco
– coisas de génios







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