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Djidjê Fanock – Estórias

Brito-Semedo, 8 Mai 15

 

Djidjê 1.jpg

Djidjê Fanock segurando a faixa do seu grupo de carnaval.

 

 

Lalela, não sei se já soubeste da notícia triste da morte de Djidjê Fanock...

 

Eu, só ontem recebi a notícia rapaz. DJidjê de Maria d'mom ftchode, Djidjê Fanock. Lembras-te dele, não é? Tu eras mais taludo, mas eu e ele fomos colega e amigo, desde fantilin.


Foi na fantilin, fantilona, Escola d'Rei até 2.º Grau, mais ainda meninos de mesma zona, fomos companheiros até ele sair de Soncente embarcado num vapor, rumo São T'mê, rebanhado como limária... por via daquela riola dum rabo de saia, uma senhora casada com gente bronc, que por via de ter engraçado com Djidjê, levou ele a fazer j'nera, de tirar satisfação no marido dela, no meio d'rua d'Coco com Sol quente.


Djidjê sempre foi brigador, mesmo fanock.


Nascido em Santo Antão lá p'ros lados de R'bera da Torre, filho de Maria, conhecida na tchom de Soncente, por Maria d'mom ftchode, porque quando ela veio para Soncente com o Djidjê ainda na mama, para ganhar sua vida, quando ela ainda não tinha completado 15 anos, durante o dia andava pelas ruas de Morada, com uma braçada de mom ftchod para vender... vendia também ciré, mas seu negócio, era mesmo mom ftchod, que ela cortava em talinhos conforme cada cliente pedia, um dedo travessod, dois dedos travessod, com aquele c'nivitin moladim... basta quando alguém tentava passar pau ela puxava logo seu canivete e ou pagavam ou era lanho certo, caminho do hospital e ela para S'taçom de P'liça.

  

Djidjê 2.jpg

Rua de Côco, local onde Djidjê Fanock desgraçou a sua vida.

 

Os primeiros tempos deles na Soncente foram difíceis. Ficaram ainda um monte de dias a dormir num covão na Cova D'Inglesa até que foram morar numa casinha lá perto de Lazareto, na casa de Nhô Pidrin Fiuza, que a troco de serventia – de toda a espécie que Maria podia dar – deixava ela e Djidjê dormir debaixo de um tecto de tambor. Maria, depois de servir Nhô Pidrin, dava-lhe uma boa dose de grog que o deixava dogod, punha Djidjê no sono e ia dar uma volta na Morada lá pelos lados de d'Praia de Bote, para ver se tirava mais uns dinheirinhos a algum estrangeiro que estivesse a precisar de consolo de mulher.


Maria era mulher bonita, mesmo. Parida cedo, não largou corpo e era, dizem que – eu não tinha idade para apreciar essas coisas, ainda – ela era mestra, que quem tivesse dinheiro disponível, não ficava s'carsoado... que ela não era de pressas e trabalho era feito até fim e sem fingimento.

 

Diziam, também, que Djidjê era filho de um Morgado, que rondou Maria até deitar ela na Mundo, mas quando ela ficou no seu estado, saiu de mansinho e nunca mais apareceu na propriedade nem para saber de mais nada. Nem de colheitas nem para cobrar renda, nem nada.


Nhâ Nastácia, mãe de Maria, quando deu fé que sua codé, estava prenha, primeira coisa que fez, foi lombar Maria de corda, sem fastio, lanhando costa para depois deitar malagueta, para arder ainda mais... as marcas que Maria haveria de carregar no seu corpo esbelto e seco de mulher d'vida. Depois Nhâ Nastácia, fincou guisa, só parando de quando em vez, para rogar praga – esse m'nen el'ná nêscê fônock – enquanto se persignava e esconjurava todos os demónios e almas deste e do outro mundo que lhe tinham deitado aquela vergonha sobre ela e Nhô Manilin d'Cural, gente pobre mas honrada e de respeito.

 

Assim que Djidjê nasceu, todas as Ribeira ficaram a saber que praga de nhâ Nastácia tinha pegado. Djidjê tinha nascido com mão fanock... Nhô Manilin e Nhâ Nastácia, trataram de logo mandar ele e Maria para rua, ainda Djidjê quase nem tinha dado primeiro fôlego, ele que foi parido no curral, no meio de cabras, como ela que já estava perdida, que fosse correr mundo, que debaixo daquele tecto não havia mais lugar, nem para ela, nem para filho d'quel Hom pel'sinal santa cruz.

 

Maria ainda andou lá pelas Ribeiras tentando tirar dia de trabalho, mas com a carestia de seca, a malandrice de homens que só queriam era seu corpo mas ainda pior era o desprezo das mulheres, com inveja do seu corpo de menina mulher, ela pegou em Djidjê e foi para Porto Novo. Falou com um marinheiro que a troco de um serviço, trouxe ela e Djidjê escondidos para Soncente.


Arranjou aquele trabalho de vender pela cidade mom f'tchod e ciré para Nhâ Cizinha d'Canalin que tinha venda, que vinha de Santo Antão e ela tirava sua comissão. De noite, dava seu expediente lá na zona de Praia d'Bote e foi lá que ela governou sua vida.


Com o dinheirinho que Maria ia fazendo de noite ela foi guardando até que deitou uma casinha lá no Lombo d'traz, já no fim de nossa rua e naquele largo onde jogávamos futebol, corrida pau, pião, malha e tud casta de jogo de meninos de nosso tempo. Montou uma venda e deixou vida de Mocrata. Ficou só com uma meia dúzia de homens de posição de Morada, que tinham até seus dias marcados, que garantiam sempre um overtime, uma peça de fazenda... que depois ajudava no negócio e a segurar, para uma fatalidade.

 

Foi lá no largo lá no Lombo D'tras que eu e Djidjê ficámos amigos até hoje. Fizemos escola d'junt e fomos trabalhar d'junt na loja de Sr. Fidjito Martins.

 

Mas por via de Djidjê ter andado muito tempo na roda d'saia de Maria a vender mon f'tchod nas ruas de Morada, é que Djidjê virou brigador, também e ainda mas, amigo de seu c'nivitin, que foi sua desgraça. Naquela briga, de palavra o marido meteu mão na cara de Djidjê... Djidjê meteu mão no bolso, puxou seu canivete e lanhou. D'zid, foi um lanhinho que nem deu para dar ponto no hospital, mas gente bronque de morada, veio logo dizer que o Sr. tinha ficado muito mal, que podia até morrer de infecção e uma data de catan catan... prenderam Djidjê no Fortim, levou de pau bem levado e parece que até Sr. Administrador deu de chicote de cavalo marinho, que ninguém mais viu Djidjê que ficou a aguardar vapor e embarcaram ele para São T'mê para cumprir dez anos. Dez anos só por um lanho feito com um c'nivitin... ainda bem que o Marido não morreu... que então tinham morto Djidjê de pancada lá no Fortim.

 

Nem Sr. Fidjito, homem de prenda e gente importante, daqueles que até escreviam carta para Lisboa, que foi falar com Sr. Administrador e tudo, conseguiu livrar DjidJê de Camin São T'mê.
O melhor que conseguiu foi tratar do diploma de Djidjê para ele levar. Foi isso, o salvo conduto, dele. O que o livrou de ir para o mato capinar debaixo de chuva e sol, lá nas Roças. Como ele tinha 2.º Grau de Escola D'Rei, bom de conta e falava Português coclejada, naquela moda de gente de Santo Antão, acabou por ficar a trabalhar no armazém a carregar sacos de cacau e depois como averiguador, como ele cheio de garganta dizia, depois do segundo 1/4lt de grog que falava mais do que ele conseguia dizer.

 

Djidjê voltou, mas voltou com corpo completamente sem serventia para trabalho de gente por causa das febres e de muito vinho de Palma. Andava por aqui na Ponta d'Praia, nessa vidinha de cicerone a dar expediente, febre voltou, com a fraqueza de grog e cigarro. Ficou doente e sem remissão morreu no hospital, indigente, até foi enterrado no caixão da Câmara, vê lá tu. Djoquinha é que me deu fala, pois estranhou eu não ter aparecido. Parece que o funeral só tinha os puxadores da Carreta, o Djoquinha e mais umas quatro pessoas... Nhô Padre só levou ele até esquina de Fábrica de bolacha de Matos... triste mesmo.


Quando eu soube, já ele estava debaixo de terra.

Não rezei por ele porque ele também nunca foi de reza... tirei boca d'morto com um pontchinho que Bioca fez no outro dia, para tirar frieza deste tempo ruim de vento e frio desde que este Janeiro entrou.


Depois a gente fala...

 

Oeiras 2015/05/06
D'Joe

 

 

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5 comentários

De José Gomes a 08.05.2015 às 09:26

Lindo conto .Adorei a maneira como está escrito. Crioulo limpo , bonito e se prender o leitor. Houve vidas difíceis na" nós terra ".Faz lembrar "Chiquinho".Deus tá  dás um desconce na alma.

De Joaquim ALMEIDA ( MORGADINHO ) a 08.05.2015 às 15:19

Apesar da minha idade  nao me lembro desse DJIDJE Fanock , provàvelmente ainda me encontrava na minha ilha , Sao Nicolau onde nasci !..Mas so ver a primeira fotografia , que se nao me engano , foi tirada onde se encontra a nossa ( Praça Nova ) !. Bela fotografia que nos faz viajar no espaço do " tempo de  caniquinha " , como diz Sergio Frusoni , na sua bela morna !..Um Criol an Frânça ;Morgadinho !..

De Jorge Martins (D'Joe) a 08.05.2015 às 17:20

Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência. Já não conheci esse Mindelo, sendo este texto fruto de minha imaginação. Pura ficção. Tenho 58 anos e cheguei a Mindelo, já com 3 anos de idade... talvez por ter imaginação fértil consigo calcorrear espaços - imaginar - em que nunca estive, ou viajar no tempo... quiçá.

De Brito-Semedo a 10.05.2015 às 13:20

Djô Um comentário recebido de uma leitora atenta:
"Vale a pena fazer o glossário da crónica e indicar que aquela é uma obra de ficção, sendo que qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Djô deve começar a pensar em fazer um livro de suas crónicas, ilustrado com fotos".;

De Jorge Martins a 10.05.2015 às 13:45

Agradeço o comentário e a lembrança sobre a informação de que se trata de ficção. Mas se atentarem num comentário meu, deixei essa salvaguarda. Quanto ao glossário... falha minha, mas fruto de o texto ter sido escrito para publicação no meu fb e a sua posterior publicação na Esquina, não me ter possibilitado a publicação do mesmo.
Quanto à possibilidade de publicação... não tenho nem textos suficientes, nem me parece que possa encontrar um editor. Submeti um projecto Ao Ministério da Cultura de CV para apoio para a edição de um livro de poemas e passados 3 meses nem "tchum" como diz um amigo meu brasileiro...
Abraços e se houver uma próxima, vou-me lembrar de um glossário 

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