Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

 

Dô di dô 1.jpg

Grupo "Lombianos", do Carnaval no Mindelo, anos 40/50. Foto arquivo Jorge Martins

 

 

Ao Amigo Humbertona, uma fonte de memórias

 

 

Já-m conchia São Vicente
Na sê ligria, ne sê sabura
Ma'm ke pud fazê ideia
S'na carnaval era más sab

São Vicente e um brasilin
Chei di ligria, chei di cor

……………….

 

Eu já conhecia São Vicente
Na sua alegria, na sua vida agradável
Mas não fazia ideia
Que no Carnaval ainda era melhor

 

São Vicente é um pequeno Brasil
Cheio de alegria, cheio de cor

……………….

 

 

Que “São Vicente é um brasilin”, o trovador Pedro Monteiro Cardoso Rodrigues (n. Fogo, 11.11.1945) já o tinha dito e Cesária Évora, a nossa Cize, levou essa ideia a dar a volta ao mundo, isso já toda a gente sabia.

 

Que o Carnaval do Mindelo é em tudo parecido com o Carnaval do Rio de Janeiro, muita gente também já o sabia.

 

Que foi um “alumbramento” para os nossos escritores regionalistas claridosos descobrir a moderna literatura brasileira, muita gente já o sabia.

 

Claridade.jpg

1928 - O CRUZEIRO.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Que, as revistas brasileiras como Cruzeiro, Manchete, Cigarra, e outras, chegavam a São Vicente através do Porto Grande, e aqui eram lidas antes de chegarem às bancas na Europa, essa... menos gente sabia.

 

Que a estória do Nhô José Brasileiro, melhor, do “Dô di dô, dô di quá”, foi motivo de marcha e nome de grupo de Carnaval em São Vicente no final dos anos 40, início de 50, essa, muito, mas mesmo muito pouca gente sabia.

 

Mas, deixem-me encostar aqui na Esquina do Tempo, e eu conto tudo... tintim por tintim...

  

Nhô José Brasileiro, emigrante cabo-verdiano no Brasil, regressou à sua terra em finais de 40, com a justificação de que “reumatî quî mî fez vî dî Brasî [reumatismo foi o que me fez vir do Brasil]”. E foi por causa do “reumatî” que Nhô José Brasileiro mandou construir uma casinha no Seixal para viver, lá para as bandas do Mato Inglês.

 

A fala peculiar de Nhô José Brasileiro, misturando o português do Brasil, com sotaque carregado da região onde viveu, e o crioulo, resultava em expressões e frases hilariantes que deliciavam os mindelenses.

 

Contam que quando lhe morreu o filho, Nhô José Brasileiro foi à Morada providenciar material para o caixão. Na Ribeira Bote, numa oficina de ferragens, terá ocorrido o seguinte diálogo:

 

N crê dô pá di doblinga. [Quero dois pares de dobradiça].

 

Tamanho?!

 

Dô di dô, dô di quá e parafû di polegá. [Dois de dois, dois de quatro e parafusos de polegada].

 

Para quando?

 

– Agô! [Agora]!

 

O ferreiro, trocista como todo o bom sanvicentino, ter-lhe-á dito:

 

E o perrê ê vinti mî rê! [E o preço é vinte mil réis / vinte escudos]!

 

Conhecida a estória, alastrou por São Vicente, e no Carnaval desse ano, o “Dô di dô, dô di quâ, parafû di polegá” foi tema de marcha de um grupo carnavalesco.

 

Dô di dô, dô di quá.

Parafû di polegá.

Dô di dô, dô di quá.

Parafû di polegá.

 

Ai, se eu soubesse

Que meu minino morria,

Eu trazia

Um coraçãozinho di prata.

 ........................................

 

Dô di dô.jpg

 Grupo de Animação do Carnaval no Mindelo, em 1959. Foto arquivo Jorge Martins

 

Foi ainda por muito tempo que o grupo da Ribeira Bote animou o Carnaval de São Vicente ao som de “Dô di dô, dô di quâ, parafû di polegá”, até aparecer o Grupo dos Mandingas. Mas essa já é outra estória.

 

Manuel Brito-Semedo

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

6 comentários

De José F Lopes a 05.06.2015 às 09:11

Já tinha ouvido falar de Dô di dô, dô di quâ, parafû di polegá mas não em todos os detalhes. Esta história é hilariante, fartei-me de rir. Em S Vicente ai ai os deslizes   alienantes podem acabar mal em troça pública. Coitado do Nho José Brasileiro deve ter acabado por esquecer falar brasileiro

De Carmo Daun e Lorena a 05.06.2015 às 13:10

Como aqui todos sabemos, tudo isto é História e não mera historieta. É pena é que o acesso a ela seja tão dificultado e que nem todos lhe dêem o merecido valor. O trabalho é arduo e talvez sejam precisos mais 40 anos...
Braça

De Valdemar Pereira a 05.06.2015 às 17:56

Lembro-me vagamente do "dô di dô" mas esconhecia os detalhes. Agora, certo estou de ter conhecido o Jule Brasiler que passava pela Chã do Cemitério (pelo menos uma vez por semana), embriagado, com os para o chão, falando brasileiro. Até costumava dizer que "tude gente fusc ta falà inglês; Jùl ê excepção".

De Valdemar Pereira a 05.06.2015 às 17:58

Ops: - "...embriagado, com os olhos para o chão..."

De Jose Marcos Soares a 07.06.2015 às 13:00

Na minha infância conheci a casa, e ainda ela existe na zona da Ribeira Bote em que morava Nha Guida d'Dô di dô e filhos que também conheci, tendo alguns sido emigrantes. Segundo consta ele teve filhos com outras mulheres alem desta enquanto residia em São Vicente antes de mudar residência para Praia onde mais tarde veio a falecer.

De Alice Matos a 18.02.2017 às 23:53

Nem na minha infância, quando entoava o "dô di dô", terei sabido como surgiu essa lenga lenga e muito menos a estória que acabo de ler. Sabe tão bem ler sobre nós! Sim, sobre nós, porque sobre Mindelo, nosso lugar,  e suas estórias tão deliciosas... Algum dia concluiremos que grande parte da História maior de Mindelo está intrincada com a de homens e mulheres que viveram de forma plena e muito peculiar o quotidiano da nossa Ilha e da sua cidade. Obrigada, Manuel Brito-Semedo!

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Wilson Candeias

    Caro Professor Brito SemedoCabo Verde precisa de p...

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

Powered by