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Monte Cara, São Vicente. Foto Zé Pereira, Abril.2015 

 

 

Para a Cidade do Mindelo, no Dia do seu 136.º Aniversário

 

 

Em Março passado proferi em Mindelo a conferência "Uma Economia do Conhecimento para São Vicente", que foi aqui apresentada em linhas gerais através do seu suporte informático. O Esquina do Tempo vem agora postar, sequencialmente, os vários eixos ali abordados. 

 

 

Academia – Sector Público – Sector Privado

 

 

Instituições de Ensino Superior Públicas

 

A Universidade de Cabo Verde é uma instituição nacional e como tal tem de ser acessível a todos os cabo-verdianos, no país e na diáspora. Ciente dessa sua missão, ela deverá ser pensada e estruturada não numa lógica de pólos, como vem funcionando – Santiago (sede, com 4 unidades orgânicas) e São Vicente (1 unidade orgânica e 3 delegações das unidades orgânicas de Santiago) – mas numa lógica de regiões, norte e sul do país.

 

Recordo que foi essa mesma lógica de região que terá levado a Igreja Católica, em 2003, a criar a Diocese do Mindelo, por desmembramento da Diocese de Santiago de Cabo Verde, com sede na Praia. Aliás, é a mesma lógica que, recentemente, terá levado a Empresa de Energia e Água a separar-se em Electra Norte e Electra Sul e que agora leva o Governo a anunciar o desdobramento do Cabo Verde Investimentos.

 

 

Liceu Velho.jpg

Pátio interior do Liceu Velho. Foto Hélder Doca, Dez.2014 

 

 

Partindo da necessidade do reforço da instituição de ensino superior público na região norte do país, com sede em São Vicente, para dar uma resposta de proximidade a todas as ilhas do norte e do barlavento: Santo Antão como ilha agrícola e turística, São Vicente como ilha do Porto Grande, da pesca e do turismo; São Nicolau como a ilha das pescas, da indústria conserveira de peixe, agrícola e turística; Sal como ilha de mar, aeroporto e turismo; e Boa Vista como ilha de mar e turismo; deve-se pleitear por uma escola forte, com qualidade, com diversos níveis de formação, desde a profissionalizante à investigação, que atenda às suas vocações e especificidades socioeconómicas e culturais.

 

Nesse pressuposto, uma Universidade Pública na região norte do país precisa ser dotada de autonomia administrativa, financeira e científica, constituindo-se numa espécie de Pólo de Desenvolvimento Tecnológico, caminhando gradativamente para uma Universidade Técnica de Cabo Verde (Uni-CV II ou Uni-CV Norte) e, em associação com o Instituto do Mar e da Meteorologia (resultado da junção do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas e o Observatório Oceanográfico de Cabo Verde), fundarem um Campus do Mar.

 

Na verdade, a política de expansão da Universidade Pública tem como ponto de partida as áreas definidas pelo Governo como estratégicas para o desenvolvimento sustentável do país e tem como compasso os indicadores de crescimento da população e, em particular, da população estudantil que termina o ensino secundário.

 

A Universidade Pública em São Vicente, através do seu Departamento de Engenharias e Ciências do Mar (ex-ISECMAR), labora nas áreas definidas como estratégicas para o desenvolvimento do país, nomeadamente dos chamados clusters de desenvolvimento, tais como:

 

Mar, oferecendo cursos profissionais de marinheiro, marinheiro pescador, licenciatura em ciências náuticas, ramos pilotagem e engenharia de máquinas marítimas, e oferece ainda os únicos cursos a nível nacional, de licenciatura e de mestrado em biologia marinha e pescas, sendo que a investigação em biologia marinha é um dos ramos mais activos na universidade.

 

O curso de gestão e planeamento de transportes marítimos pode ser visto também como um esforço de fornecer capacidade humana para a economia do Mar.

 

Energias, com os cursos de estudos superiores profissionalizantes em instalação em manutenção de sistemas de energias renováveis, instalação e manutenção de equipamentos industriais, hospitalares e hoteleiros, licenciatura em engenharia mecânica, electrotécnica, mestrado em energias, sendo a única universidade no país que oferece essas formações;

 

Tecnologias de Informação e Comunicação, oferecendo a licenciatura em engenharia informática e formações superiores a nível de telecomunicações;

 

Engenharia Civil, com o curso de licenciatura em engenharia civil concorrendo também para a economia do mar, sabendo que ela inclui a construção de infra-estruturas portuárias.

 

Uma vertente importante da política de expansão da Universidade de Cabo Verde é o da qualificação do seu corpo docente. Presentemente, o Ex-ISECMAR, segundo dados fornecidos pelo Gabinete de Planeamento e Cooperação da Uni-CV, conta com 10 docentes em processo de formação, sendo 9 no doutoramento e um no pós-doutoramento, em cinco áreas de especialidade: Ciência da Computação, Biologia Marinha e Pesca, Matemática Aplicada, Desenvolvimento do Meio Ambiente, Genética e Biologia Molecular.

 

Toda essa capacidade formativa e de prestação de serviço, existente e potencial, com laboratórios e equipamentos sofisticados, adquiridos no âmbito da parceria internacional, e oficinas relativamente bem apetrechadas, poderá ser rentabilizada pensando nos PALOP, como acontecia quando era Centro de Formação Náutica, e nos países da CEDEAO.

 

Apesar dessa capacidade do ex-ISECMAR, é de se lamentar não existir internamente uma cooperação efectiva entre as empresas dessas áreas referenciadas e a Universidade Pública, parecendo caminhar em linhas paralelas ou estando de costas viradas. Um exemplo é o Parque Tecnológico do Lazareto para o qual a universidade poderá contribuir com capacidade técnica para a sua viabilização. Contudo, já não se estranha nada. Basta dizer que a Uni-CV não faz parte dos integrantes do Núcleo Operacional do Conselho Estratégico do Cluster do Mar e a própria Escola do Mar, anunciada pelo Governo como devendo ser uma unidade orgânica independente dentro da Universidade de Cabo Verde e a ser construída de raiz, não passou pelo Conselho da Universidade, nem consta do orçamento da Uni-CV.

 

Em síntese, a política de expansão da Universidade Pública na região norte, deverá passar

 

  • pela concentração da sua missão de ensino e investigação nas áreas definidas como de suporte ao desenvolvimento, nomeadamente, nas áreas do Mar, TIC, Energias, Engenharia Civil, Ciências Agrárias e Ambientais (esta ainda inexistente), deixando as outras áreas para as Instituições de Ensino Superior Privadas;
  • pelo reforço da parceria estratégica com o INDEP, Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas, e o Observatório Oceanográfico de Cabo Verde;
  • pelo aproveitamento das potencialidades de infra-estruturação, nomeadamente as infra-estruturas existentes e ou construindo nos terrenos da universidade na Ribeira de Julião;
  • pelo continuado esforço de capacitação dos docentes; e
  • pela criação de condições de acolhimento de estudantes da região do barlavento, de todo o país e da costa ocidental de África.

 

De referir ainda a existência do novel Instituto Universitário de Educação, criado em 2012 a partir do Instituto Pedagógico, sob a dupla tutela do Ministério do Ensino Superior e do Ministério da Educação, que se ocupa da formação de professores para o ensino básico e que, de momento, está a fazer o up grade dos docentes oferecendo o complemento da licenciatura.

 

Instituições de Ensino Superior Privadas

 

Para além da Universidade de Cabo Verde e do Instituto Universitário de Educação, Mindelo acolhe ainda cinco das oito Instituições de Ensino Superior privadas do País: Universidade Jean Piaget de Cabo Verde e Universidade Lusófona Baltasar Lopes da Silva, ambas portuguesas, Universidade do Mindelo, Instituto das Ciências Económicas e Empresarias e M_EIA, Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, todas concentradas na Morada, num raio de não mais de 1 km.

 

As ofertas formativas, quase todas do nível da licenciatura, vão das Ciências Sociais e Humanas, Letras e Línguas à Contabilidade e Gestão, Marketing e Turismo, passando pelas Ciências de Educação, TIC, Enfermagem e Arquitectura. De destacar, pela sua especificidade, as Artes, com os cursos de Artes Visuais e Design para Comunicação, ministrados pela M_EIA, a única escola de arte do país, mas de dimensão reduzida.

 

Curiosamente, ou nem por isso, nenhuma das Instituições de Ensino Superior, pública ou privada, oferece formação na área da Música, do Teatro ou do Cinema. Constata-se igualmente que, apesar de haver um número elevado de estudantes universitários, à volta dos 4.700, numa estimativa com base no Anuário Estatístico do Ensino Superior 2010/2011, sente-se muito pouco o peso da academia na vida da cidade com elevação do nível cultural dos citadinos ou mesmo no exercício de uma cidadania mais activa e participativa, ou seja, no seu empoderamento.

 

Nesta e noutras áreas é preciso ser-se inventivo e ir a contra corrente, como por exemplo:

 

  • a universidade, na modalidade de cursos de licenciatura, não é para todos nem todos têm perfil para ela, não podendo todos ser doutores ou engenheiros. Deve-se pensar num forte investimento no ensino profissionalizante;
  • cada instituição de ensino superior não é nem deveria ser um compartimento estanque. Os seus eventos (conferências, seminários, palestras, etc.) e cursos deveriam ser abertos, de forma salutar, a alunos de outras instituições e deveria possibilitar a cidadãos não universitários inscrever-se numa disciplina, numa modalidade de extensão.

 

Nesse caso, numa mesma turma, o docente teria diversidade, o que iria potenciar a relação ensino-aprendizagem: aluno regular, aluno da disciplina que a faz como optativa e aluno de extensão. Todos juntos criam redes, partilham culturas, saberes, valores, empoderam-se e podem daí surgir oportunidades de trabalho. Da mesma forma, tendo uma instituição um professor visitante para leccionar determinada disciplina, este poderia ser convidado para fazer uma conferência numa outra universidade;

 

  • as instituições de ensino superior deveriam adoptar o conceito de “escola digital”, informatizando-se para se ter acesso aos chamados objectos digitais de aprendizagem que ajudam os estudantes na aquisição de conhecimentos, tais como mapas, animações, vídeos, jogos, simulações, etc.. Com mais recursos tecnológicos, seria interessante desenvolver iniciativas como Olimpíadas... de Biologia, de Matemática, de Química, de Português, ou até de Astronomia. As bibliotecas, essas, deveriam migrar para mediatecas;
  • ir a um lançamento de livro, assistir a uma peça de teatro, ir a um concerto ou ver um filme, deveria passar a contar como hora de actividade complementar aos alunos universitários, não se formando aqueles que não fizessem um determinado número de horas. Imagino que, assim, os alunos andariam à procura delas e partilhariam as informações sobre um ou outro evento nas redes sociais. Quero crer que isso é sementeira com garantia segura;
  • alunos universitários poderiam ser envolvidos em campanhas do Ministério da Saúde, ou outro, por exemplo, entrevistando pessoas sobre os seus hábitos de vida, alimentação, sono, lazer, podendo obter-se assim dados para a implementação de políticas e, principalmente, para a avaliação de políticas públicas;

 

Uma iniciativa louvável e que, vingando, poderá contribuir para alterar esse quadro é a recém-criada (Julho de 2014) Liga das Associações Académicas Universitárias de São Vicente.

 

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