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Eden Park, Passado, Presente, Futuro

Brito-Semedo, 18 Ago 15

 

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- Alberto Rui Machado, Engenheiro

 

A primeira notícia que temos de exibição de cinema em Cabo Verde aparece num jornal de 1909 que anúncia exibição de filmes no “Cine-Teatro Africano” pertencente a João Henriques de Melo, pai do sr. Tuta Melo, que décadas mais tarde haveria de fundar o Parque Miramar.

 

Mas o primeiro cinema digno desse nome foi criado em 1919 por Francisco Mascarenhas (pai) e o seu sócio, o mecânico A. Freitas. O cinema era coberto e funcionou no local onde é hoje a Casa Albino dos Santos Ldª, no Mindelo.

 

Três anos mais tarde, em 1922, por iniciativa do empresário César Marques da Silva, foi inaugurado o cinema “Eden Park” no local onde funcionou até ao seu encerramento, embora fosse na altura um edifício bastante mais modesto que o actual.

 

Tratava-se, naturalmente, de cinema mudo e assim foi durante 14 anos até que em 1936, no meio de uma grande apoteose foi projectado o seu primeiro filme sonoro: a película portuguesa A Severa”.

 

Severa.jpegDurante a II Guerra Mundial, estimulado pela assiduidade da tropa expedicionária estacionada em S. Vicente (4.000 entre soldados e seus superiores), o pro-prietário resolveu ampliar o cinema e dar-lhe a forma aproximada da que tem actualmente.

 

Nos finais da década de trinta o responsável pela projecção era o sr. Guilherme Melo – mais conhecido por Tuta Melo – cujo pai chegou a ser sócio de César Marques da Silva, no cinema.

 

Parece, porém, que a dada altura houve uma incompatilidade entre a vida de projecionista com horários muito certos e as restantes tarefas que Tuta Melo mantinha, pelo que este optou por abandonar a responsabilidade pela projecção no cinema Eden Park.

 

Mas no fim dos anos quarenta, princípo de cinquenta, voltou à sua antiga vocação, o cinema. No quintal da sua casa começou a exibir filmes mudos de “Bucha e Estica” e “Charlot”.

 

Em 1954 resolveu dar o passo seguinte, arranjou um projector que adaptou para 35 mm e criou o seu próprio cinema, o Parque Miramar.

 

A concorrência foi estimulante e pode-se dizer que a qualidade melhorou com o aparecimento da segunda casa de espectáculos.

 

Apesar das dificuldades da época, os dois cinemas, em conjunto, conseguiram levar até Cabo Verde muitos filmes de qualidade que contribuiram indelevelmente para a formação cultural e para a criação dos valores que ajudaram a moldar a personalidade dos mindelenses.

 

Foi também através do cinema que muitos tiveram os primeiros contactos com o mundo exterior e com línguas como o inglês, o francês, o espanhol e o italiano. Há até quem garanta que aprendeu mais inglês no Eden Park e no Parque Miramar do que nos bancos do liceu. Parece-nos, contudo, que essa afirmação não deverá ser tomado à letra.

 

Cartaz.jpeg

É curioso que apesar da programação do Parque Miramar ter sido ao longo dos tempos mais cuidada que a do Eden Park, este último permaneceu mais vivo no imaginário do cabo-verdiano e a sua alienação gerou um movimento em todos os países onde existem comunidades cabo-verdianas, enquanto poucos parecem interessar-se pelo Parque Miramar, que se foi degradando até ser vendido.

 

Com efeito muito se tem sido escrito sobre o Eden Park desde que a 8 de Dezembro de 2005, informei com tristeza, o Luís Silva da intenção de venda do imóvel por parte dos proprietários.

 

Da minha parte penso que qualquer projecto que seja submetido às entidades competentes só deverá ser aprovado se garantir a manutenção da memória do cinema e do significado que ele teve para a população do Mindelo.

 

S. Vicente precisa de um Centro de Congressos que leve empresas estrangeiras a realizar no Mindelo seminários, congressos e todo o tipo de encontros de quadros, mormente agora que  passou a ter um aereoporto internacional.

 

A falta de uma sala que possa albergar muitas centenas de congressistas determinou, por exemplo, que o IV Congresso dos Quadros Cabo-Verdianos da Diáspora se voltasse a realizar na Praia, quando dentro de princípio de alternância, deveria ter tido lugar na cidade do Porto Grande.

 

A sala de exibição (plateia, bancada e geral) pode ser transformada num grande auditório com anfiteatro. Estudando as plantas do edifício verifica-se que os pilares que o sustentam estão nas paredes exteriores pelo que os corredores laterias poderão ser demolidos dando uma maior largura à sala.

 

O balcão pode ser transformado num estúdio de 160 lugares, desde que se instale um ecrán ao nível da primeira fila e se crie uma sala de projecção para além da parede de fundo.

 

Uma vez que já não existem os constrangimentos do Artº 29 da Portaria 2518 de 1942 e que complicaram a criação de um Recinto de Diversões na zona frontal do cinema, conforme projecto de 1967 do Engº Claro da Fonseca, é possível levar avante o projecto bastante mais ambicioso de 1996 da Arquitecta Dilma Maria Abrantes da Cunha.

 

Nesse estudo preve-se a criação, nessa zona, de um restaurante-esplanada com 21 mesas de quatro pessoas a norte e a sul três lojas com áreas de cerca de 30 m2.

 

Na parede fronteira do Edifício, a exemplo do que fez o Hotel Porto Grande, seriam construídas 6 lojas, com áreas compreendidas entre 40 e 60 m2.

 

Na varanda do primeiro andar com um comprimento de cerca de 40 metros e uma largura que varia de 1m até 4m, pode-se montar um segundo restaurante.

 

Os dois restaurantes e as nove lojas constituiriam um espécie de Centro Comercial que viabializariam o espaço, pelo menos, até que o Centro de Congressos passasse a ser rentável.

 

Por onde andam os nossos empresários?

 

No páteo traseiro do cinema onde Nhô Djack (e mais tarde Toy Cecílio) perseguia os miúdos que saltavam o muro para ver os filmes sem pagar, poderia ser instalado um museu de cinema.

 

Esse Museu deveria albergar as velhas máquinas de projecção do Eden Park incluindo a de 1922 que está impecável, as máquinas do Parque Miramar e todo o material e documentação disponível do Instituto Cabo-Verdiano do Cinema.

 

A Cinemateca Portuguesa, em diferentes ocasiões, pretendeu oferecer a Cabo Verde diverso material de que dispoem e que está relacionado com a nossa história.

 

Os primeiros contactos terão sido feitos pelo Sr. Moniz, do Instituto Cabo-Verdiano do Cinema, que na altura visitou o então director da cinemateca, António Lopes Ribeiro.

 

A cinemateca satisfará o pedido logo que haja condições para receber os filmes e houver gente especializada para os conservar de forma adequada, como foi afirmado à Doutora Fátima Monteiro, à altura Presidente do Centro de Estudos Cabo-Verdianos de Lisboa.

 

Podia-se inclusivé ir mais longe e seguindo a sugestão do Dr. João Medina, ex-ministro da Saúde, criar um Museu de Imagiologia onde para além do material referido, se pudessem ver os velhos equipamentos de Raios-X, em bom estado de conservação, que se podem encontrar em diversas ilhas do Arquipélago.

 

Esse museu poderia ser um atractivo para os turistas que demandam S. Vicente e que para além da amabilidade das gentes pouco mais têm para ver, e seria o núcleo de um futuro museu de Cabo Verde que o país já merece ter.

 

O povo do Mindelo iria dar o verdadeiro valor a essa obra e seria feita justiça à família Marques da Silva.

 

Lisboa, Março 2006

 

PS - Editado na Esquina do Tempo a 10.Out.2010

 

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6 comentários

De Ernestina Santos a 10.10.2010 às 18:37

Já conhecia este texto de Alberto Rui Machado da Net e foi uma óptima ideia vir divulgá-lo em A Esquina.

Traz uma proposta bem interessante feita na altura da sua redacção, que infelizmente, como outras propostas, não parecem ter ouvidos na viabilização do edifício Éden Park...

De Brito-Semedo a 10.10.2010 às 22:14

Guardei ciosamente esta peça histórica e prospectiva sobre o Eden Park . Já tinha sido publicado no jornal "A Semana", mas achei que fazia todo o sentido ser editado aqui, no "Na Esquina", e na sequênica dos depoimentos e álbum Eden Park . Confirma-se que valeu a pena!

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 19.10.2011 às 09:43

Nunca serà demais ,falar dos acontecimentos em termos cultural ,que fazem parte da nossa historia e que o cinema Eden Park ,foi o palco mais utilisado para diferentes manifestaçoes.Para além de ter sido ,propriamente dito um cinema, foi também palco de peças de teatro ,manifestaçoes de todas especies ,bailes de carnaval ,etc;para além disso muitos jovens artistas ,-em particular mùsicos-aprenderam naquele cinema.Eu fui um dêles .Lembro-me ainda- como se fosse hoje - os primeiros momentos que eu comecei a tocar com mùsicos,jà consagrados,tais como: Tony Marques ,-um dos herdeiros do cinema Eden Park , Joaquim Brito,"Djack Estrelinha" ,o melhor trompetista cabo-verdiano,-Alfredo Carmo ,-mais conhecido por "Fefa " Clarinete ,Gregorio Gonçalves "Goy "baterista ,etc.Nao esquecendo, (ensaiadores de teatro ) ;Valdemar Pereira,Frank Frusoni ,Sr.Germano ,Ernesto Medina e também o mais velho de todos ; Senhor Màrio Barbosa. Hà mais outras pessoas que podiam ser homenageados aqui nesta preciosa (Esquina do Tempo) mas que a lista seria longa .Termino repetindo que nunca serà demais relembrar aqueles bons tempos do nosso pais ,que infelizmente jà nao voltam mais . Um Criol na Frânça ;Morgadinho !..

De José F Lopes a 18.08.2015 às 13:31

Brito-Semedo em boa hora aparece este texto de há quase 10 anos da autoria de um mindelense Rui Machado. Tudo o que contem o texto é actual só que temos impressão de andar para traz décadas a fio. Este edifício emblemático merecia preservação mas com a câmara e os governos que temos tido não havia outro destino senão esse. Os povos tem os governos que merecem !!!

De Valdemar Pereira a 18.08.2015 às 16:13


O Património é a raiz da riqueza
e um país sem raiz é pais pobre

De Adriano Lima a 18.08.2015 às 20:15

É a primeira vez que leio este texto e fi-lo com gosto e proveito pessoal.

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