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Empossada a Curadoria do Mindelo

Brito-Semedo, 14 Abr 14

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Cidade-Porto do Mindelo. Foto "Mindelo Cabo Verde" (Página FB)

 

Hoje, quando Mindelo comemora os 135 anos da sua elevação à categoria de Cidade, durante a sessão solene nos Paços do Concelho foi empossada a Curadoria da Cidade do Mindelo, um grande passo para a gestão do Centro Histórico do Mindelo como Património Cultural Nacional. O acto foi presidido pelo Ministro da Cultura.

 

A Esquina do Tempo reproduz na íntegrada o discurso de tomada de posse.

 

Ter regressado em finais de 2012 para viver em S. Vicente, depois de uma ausência de 37 anos, foi uma experiência gratificante, de que o convite para falar na sessão solene dos 134 anos da elevação da Vila do Mindelo à categoria de Cidade teve um sabor muito especial, só comparado com as pirinhas-das-ilhas, as guloseimas da minha infância, vendidas a meio tostão cada e com sabor a hortelã-pimenta, a minha preferida.

 

Quando já me tinha reapropriado do gosto de circular por estas ruas e de viver a cidade, terminou a minha “missão de serviço” e, qual Djack da versão crioula de “Hit the Road, Jack”, da cantora Jenifer Solidade, N panhá nhas côsa, N rancá dali. Mas, como todos nós sabemos, Djack que é Djack ca tá mudá nem na cova.

 

O convite para integrar a Curadoria da Cidade do Mindelo é so-pirinha de quel bon, pois é a possibilidade de regressar e de ser útil a esta nossa urbe, cujo Centro Histórico a Resolução N.º 6/2012, de 31 de Janeiro, classificou como “património histórico e cultural nacional”.

 

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Vista do Mindelo com sua Baía do Porto Grande. Foto Carlos Pulú

 

O Decreto-Lei N.º 31/2013, de 1 de Abril, que cria a Curadoria da Cidade do Mindelo, prevê a sua funcionalidade com uma gestão concertada, que envolve a participação da autarquia, da sociedade civil e dos serviços técnicos do Ministério da Cultura. É em nome deste colectivo, ora empossado, que agradeço ao Senhor Ministro da Cultura e ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de São Vicente a honra e o voto de confiança. Estamos todos cientes da grande responsabilidade que nos é atribuída e, também, da esperança que os mindelenses depositam nesta Curadoria como instrumento de salvaguarda e preservação do património do Centro Histórico, a nossa “Morada”. Caberá, certamente, nesse âmbito a promoção e o estímulo da vida cultural da cidade e o desenvolvimento da economia criativa. Contudo, tudo isso só será possível com recursos e investimentos significativos, numa corrida contra o tempo perdido.

 

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Brito-Semedo, Foto Jornal "A Semana"

 

Senhor Ministro da Cultura,

Senhor Presidente da Câmara Municipal de São Vicente,

Ilustres Convidados, Minhas Senhoras e Meus Senhores,

 

Os cenários físicos de uma sociedade são mais duradouros do que as sociedades em si, pelo que podemos, através deles, inferir sobre um conjunto de relações sociais, políticas e económicas. Implícitos em todos estes aspectos estão o Tempo e o Espaço. Dois vectores inerentes à condição humana.

 

Sendo verdade que os espaços e os lugares adquirem uma dimensão mais complexa do que a simples dimensão física, devido à marca que o Homem deixa nos seus espaços vitais e de transição, é natural que os grandes movimentos sociais fiquem, também, impressos nos lugares. Assim, não é de todo difícil associar um determinado lugar às múltiplas dimensões que reflectem a sua importância histórica, política, social e, mesmo, evidências de correntes estéticas.  

 

Estas manifestações do espaço tornam-se mais perceptíveis quando se recorre a elementos concretos e práticos, que passo a indicar:  

 

- exemplos de espaços de reflexo político e social: Paços do Concelho, Palácio do Povo;  

 

- exemplos de espaços de reflexo eminentemente de convívio aberto: Praça Nova, Rua de Lisboa, Pracinha da Igreja, Praça Estrela, Praia da Laginha - lugares estratégicos e de encontro obrigatório para se saber as novidades do dia e da ilha, brincar o Carnaval, realizar bailes de rua e gozar o sol;

 

- exemplos de espaços de reflexo eminentemente social restrito: Cafés e bares, sedes dos clubes de futebol;  

 

- exemplos de espaços de reflexo eminentemente estético: a antiga Capitania dos Portos, a Alfândega Velha, os Pelourinhos de Peixe e de Verdura, a Câmara Municipal, o Palácio, o Liceu Velho, o Hospital Velho, a Casa Senador Vera-Cruz, o Cinema Eden Park, as “casas de inglês”, o Prédio da Marinha. Sem esquecer que a maioria destes espaços representa também “funções” de serviço à população ao longo do “tempo” da vida da cidade;  

 

- exemplos de espaços de reflexo eminentemente histórico e político: os Paços do Concelho, onde foi proclamada a República; a varanda do edifício da Câmara Municipal, de onde Dr. Baltasar Lopes da Silva fez o discurso do 1.º de Maio de 1974; o Palácio, local de onde se apresentou as linhas estratégicas do Programa do Primeiro Governo, a 7 de Julho de 1975; a Alfândega Velha, cujos armazéns foram arrombados pelo povo a 7 de Junho de 1934, na decorrência da revolta de Nhô Ambrôze, o mítico Capitão Ambrósio.

 

Todos estes são espaços históricos e identitários. E numa coisa estamos todos de acordo: Mindelo é um espaço com tempo, ou melhor, com história e com muitas estórias, de que Manuel Nascimento Ramos (Néna) registou parte no seu livro Mindel D’Outrora, de 2003, e Germano Almeida sumariou na sua Viagem pela História de S. Vicente, em 2009.

 

Não é por acaso que Mindelo é fonte de inspiração para um número grande de escritores e poetas, trovadores e músicos, pintores e artesãos, que dão conta desses diferentes registos da história e da vivência artística e quotidiana que exaltam a Cidade do Porto Grande.  

 

A propósito, recordo as crónicas “Mosaico Mindelense”, do Poeta Sérgio Frusoni, e “Roupa de Pipi” e "Bom Senso", de João Cleófas Martins, Nhô Djunga Fotógrafo, lidas na Rádio Barlavento, nos idos de 60, as crónicas “Storias Mindelenses d’ Soncent Cab Verde”, de José (Zizim) Figueira, publicadas no jornal online O Liberal, as coladeiras do trovador Manel d’Novas, as estórias do escritor Germano Almeida, de anos recentes, sem desprimor para toda uma geração mais nova de músicos e compositores, como Valdemiro Ferreira (Vlú), Constantino Cardoso e Jorge Humberto, verdadeiros frescos deste povo anónimo e heróico deste espaço, nas diferentes épocas, i. e., no seu tempo.

 

Fazendo jus à vocação do Mindelo, enquanto cidade-porto, lugar de confluência de povos, virado para o mar e aberto ao mundo, a Curadoria irá ocupar-se da preservação da memória da cidade e potencializar a sua identidade local, cujos elementos constitutivos passam pela sua variante do crioulo; pelo seu gosto pelas artes, como a pintura, o teatro, a fotografia e o cinema; pelo seu carnaval de grupos, escolas, carros alegóricos e mandingas; pela sua música popular desenvolvida nos bares, restaurantes e hotéis; pelas suas festas populares de Santa Cruz, São João e São Pedro; pela sua gastronomia, de que são indicativos os pratos da cachupa do milho-em-grão e da cevada e as especialidades de cavala, atum e moreia.

 

É este património construído e imaterial que nos cabe a todos – autarquia, sociedade civil e entidades oficiais nacionais – salvaguardar e preservar. E será no quadro legal definido pelo referido Decreto-Lei N.º 31/2013 que a Curadoria da Cidade do Mindelo irá actuar, a bem da Cidade, do seu Centro Histórico e dos seus citadinos.

 

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Ministro da Cultura ladeado pelos membros que integram a Curadoria da Cidade do Mindelo
Legenda (esquerda para direita): Luísa Morazzo (Animadora do Carnaval), Brito-Semedo (Antropólogo), Marina Ramos (Historiadora), Humberto Lélis (Vereador da Câmara Municipal), Josina Freitas Fortes (Centro Cultural do Mindelo), Mário Lúcio (Ministro da Cultura), Margarida Brito Martins (Professora de Música), Manuel Lima Fortes (Centro Nacional de Artesanato), Isabel Silva (Biblioteca Nacional) e Humberto Lima (Instituto da Investigação e do Património Culturais)  

 

 

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    Amei esse "BAÚ" só tem preciosidade! 

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