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 Igreja de Nossa Sra. da Luz

 

 

Em saudação ao Dia de São Vicente

 

 

O encontro cultural sociedade e Igreja havido em São Vicente ao longo dos tempos faz o sanvicentino ser o que é hoje, profundamente enraizado e religioso e, ao mesmo tempo, virado para o mundo e profano.

 

Mindelo – Uma janela aberta para o mundo

 

Mindelo é a cidade de gentes de todas as ilhas, aqui chegadas em diversas levas, cada uma com sua identidade local forte, sobrepondo-se ou justapondo-se como um ‘mosaico multi-ilha’, e também de gentes de muitas nacionalidades que aqui se fixaram ou aportaram em determinadas épocas e contextos, criando uma cultura genuinamente mindelense, na verdade, uma síntese de todas essas culturas, e que é ao mesmo tempo local e cosmopolita.

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 Igreja dos Salesianos

 

Abro parêntese para destacar que não se pode falar da história do Mindelo sem se referir à importância da presença na cidade de uma comunidade portuguesa, que se dedicou sobretudo à área do comércio, e à influência inglesa de um pequeno grupo de britânicos aqui residente.

 

Pode-se considerar que a cidade do Mindelo se organizou, se estruturou e se estendeu por três zonas: Zonas Periurbanas (no sentido de serem um lugar intermediário entre cidade e campo, sujeito à urbanização anárquica e com alguma potencialidade agrícola); Zonas Piscatórias (comunidades que têm a pesca artesanal como principal actividade de sobrevivência); e Zona da Morada (área com existência de equipamentos sociais destinados às funções urbanas básicas, como habitação, trabalho, recreação e transporte). Assim:

 

– Zonas Periurbanas

 

As “gentes-das-ilhas”, à medida que foram chegando a São Vicente foram-se instalando nas zonas periurbanas, muitas vezes juntando-se por ilha de origem, constituindo-se na mão-de-obra sem qualificação, trabalhadores do porto, carregadeiras, criadas de servir, “catadores-de-vida”, gente de muitos ofícios e do pequeno comércio.

 

Sou levado a afirmar que se pode fazer a leitura da história cultural da ilha de São Vicente pela ocupação dos espaços, pelas zonas onde moraram as gentes-das-ilhas, muitas vezes à volta das fontes – Fonte de Meio ou de Cutú, Fonte de Filipe, Fonte de Doutor, Fonte de Cónego, Fonte de Inês, Fonte de Francês – e pela toponímia das suas praças, seus altos e lombos, chãs e ruas, as mais castiças – Praça Dom Luiz, Praça Nova, Alto de Celarine ou Solarine (derivado do médico francês Salles Celarina, primeiro habitante do bairro), Alto de Companhia (bairro dos trabalhadores de carvão) e Alto de São Nicolau, Alto de Montevideo (eventualmente derivado da capital do Uruguai, talvez algum consulado ali instalado), Chã de Criket, Lombe Maclode (nome do então chefe da Millers & Corys, Mac Leod, que mandou construir o quarteirão), Rua Lisboa, Rua de João Machado, Rua de Papa Fria, Rua de Cavoquim, Canalim de Fogá Macóc, Canalim ou Beco de Antôn Djudjim, Rua de Canecadinha, de Matijim ou de Passá Sabe, Rua de Murguin (por ali passava Mr. Morgan, chefe da Companhia Wilson’s no Dji d'Sal, bairro construído pelos ingleses no estilo das casas do Lombo Maclode), Chã de Cemitério (existiam ali dois cemitérios, sendo um deles para os  ingleses), Chã de Telegrafia... Se não, vejamos:

 

Gente de São Nicolau – No Alto de Companhia, Alto de São Nicolau, e Lombe Maclode (Travessa de Cadamosto), gente que trabalhava essencialmente para as companhias inglesas;

 

Gente de Santo Antão – Para a Ribeira Bote embrenhavam os santantonenses que escolhiam também a Ribeirinha e o Monte Sossego para morar;

 

Gente da Boa Vista – Fixou-se no Alto de Miramar e na Chã de Cemitério;

 

Gente de Santiago – Os santiaguenses (Ribeira da Barca) não tinham lugar especifico. Escolhiam Ribeira Bote, Monte Sossego e Rua de Craca onde se ocupavam do comércio das carnes. Compravam bois vivos e retalhavam. De recordar que o matadouro municipal (o velho e o novo) ficava nessas imediações;

 

Gentes do Fogo, da Brava e do Sal – Ficaram na cintura da zona da morada.

 

– Zonas Piscatórias

 

Aldeias piscatórias de Norte de Baía, Salamansa, São Pedro e Santo André, com as suas tradicionais festas (Santa Cruz, 3.Maio; São Pedro, 29.Junho; e Santo André, 30.Novembro).

 

– Zona da Morada

 

A “gente da morada”, constituída por gente com posses que foi chegando de fora, atraída pelo que viria a ser a cidade portuária, e se instalou no centro da cidade como uma pequena burguesia ocupando-se do Comércio (ship-chandlers e import/export), empregando-se nos Serviços (Western Telegraph Company, Italcable, Millers & Corys e Shell) e na Administração (Alfândega, Banco Nacional Ultramarino, Administração Civil).

 

Dois grandes escritores que retratam muitíssimo bem e com realismo esse São Vicente dos anos 30, 40 e 50, são António Aurélio Gonçalves (São Vicente, 1901 – 1984) nas suas noveletas reunidas em Noite de Vento (1985) e Henrique Teixeira de Sousa (Fogo, 1919 - 2006) nos romances Capitão de Mar e Terra (1984), Djunga (1990) e Entre duas Bandeiras (1994). Ambos os escritores de leitura obrigatória. Recomendo igualmente O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989) de Germano Almeida (Boa Vista, 1945 -).

 

São Vicente – Uma ilha de encontro cultural

 

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 Igreja do Nazareno

 

O entrelaçamento entre Cultura e Igreja na construção da sociedade mindelense em determinados períodos históricos é evidente. Refiro-me não apenas à Igreja Católica, que é a que me merece mais atenção, mas também às Igrejas Protestantes que surgiram nos inícios de trinta.

 

– Igrejas em São Vicente

 

Igreja Católica

 

Em 1700 quando viviam na ilha uns poucos pescadores, estes reuniam-se na pequena Igreja de Nossa Senhora da Luz durante as visitas periódicas dos sacerdotes.

 

Foi só depois de 1838, quando se decretou a construção de uma cidade destinada a ser a capital de Cabo Verde, que foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Luz. Em 1862 foi erigida a igreja paroquial que, em 1880, era pequena para o movimento religioso.

 

Em 1940 foi construída a capela no bairro de Chã de Alecrim e, em 1955, chegavam a São Vicente, transferidos de São Nicolau, os Padres Salesianos que avivaram a vida religiosa da cidade com a construção de uma igreja ampla e moderna e com a educação da juventude na aprendizagem de artes e ofícios e na formação humana e religiosa. Em São Vicente estavam também as Irmãs do Amor de Deus (as Irmãs de Caridade), que se ocupavam da evangelização e da direcção do Orfanato Capitão Mota Carmo.

 

Igreja do Nazareno

 

O Rev. João José Dias, emigrante bravense fundador da Igreja do Nazareno em 1901, residente na ilha Brava, depois de várias visitas a São Vicente, promoveu uma campanha evangelística em 1932 com um evangelista protestante português, o Pastor José Ilídio Freire, de que viria a resultar a organização de uma segunda Igreja do Nazareno nesta ilha, para além da Brava.

 

Embora sem um pastor residente, recebendo visitas regulares do Rev. João José Dias, essa congregação conseguiu florescer sob os cuidados de um destacado leigo, Augusto Miranda, muito conhecido e respeitado no meio.

 

Com a chegada dos primeiros missionários americanos a Cabo Verde em 1936 e com desentendimentos com o velho pioneiro, o Rev. João José Dias mudou-se para São Vicente. Algum tempo depois transferiu-se também o missionário Rev. Everette Howard para esta ilha. Os conflitos continuaram e, para não deixar a igreja morrer, os crentes convidaram um leigo, Manuel Ramos, para dirigir os trabalhos vindo, na sequência, deixar de funcionar sob os auspícios da Igreja do Nazareno.

 

Só em 1950, com a chegada de novos missionários a Cabo Verde, é que a Igreja do Nazareno volta a ser de novo organizada em São Vicente.

 

Em 1952 chegava a esta ilha como Director da Missão o Rev. Earl Mosteller e é quando se constrói o templo na Praça Nova e as capelas do Monte, Monte Sossego e Ribeira Bote. É também quando se funda o Seminário Nazareno, para treinamento formal dos pastores, e a Editora Nazarena, para a publicação de literatura evangélica e outras produções ligadas ao desenvolvimento da obra.

 

Igreja Evangélica Mindelense

 

O grupo de crentes que se desvinculou da Igreja do Nazareno passou a constituir-se numa congregação independente chamada Igreja Evangélica Mindelense. Em 1943, liderada pelo Pastor Manuel Ramos, essa congregação vinculou-se às Igrejas Baptistas, denominação a que pertence até hoje.

 

Tenho de me referir, ainda que numa nota breve, ao Racionalismo Cristão, introduzido em São Vicente em 1910, coabitando com a religião católica, cuja doutrina e valores estão integrados na sociedade mindelense.

 

Mais recentemente, nos anos oitenta, instalou-se em São Vicente a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida por Igreja Mórmon, com uma das suas Capelas no Mindelo, localizada próxima da Igreja do Nazareno, com uma componente social forte em que a maioria dos seus membros tem menos de 30 anos. 

 

São Vicente acaba por ser um caso paradigmático no contexto nacional por ter sido o palco de encontro de várias confissões religiosas no início do século XX, antecipando um cosmopolitismo, que é norma nos dias correntes, marcado pela transnacionalidade e pelo encontro de povos.

 

Fechado o panorama das igrejas – católica e protestante – passarei a ver a sua influência na sociedade sanvicentina, com destaque para a Igreja Católica, pela simples razão de que é ela que mais contribui, pelo peso que tem na grande maioria da população, para a formação do habitus das gentes desta ilha.

 

– A Religiosidade em São Vicente

 

Muito embora o Censo da População e Habitação de 2010 (INE, Censo 2010) não apresente os dados sobre religião por ilha, importa saber que, de um total da população residente com 15 anos ou mais (336.049), 77,3% (259.723) declaram ser da religião católica. Desses, 58,6% (152.210) são do meio urbano e 41,4% (107.513) do meio rural. Considerando que a população de São Vicente é essencialmente urbana, 92,6% (70.468), pode-se inferir qual o peso da Igreja Católica nesta ilha.

 

Constata-se que a religiosidade está sempre presente e de forma intensa no dia-a-dia do sanvicentino, nas falas, nos gestos, nas músicas tradicionais – nas mornas e nas coladeiras – de que são exemplo, “Nossa Senhora de Fátima”, de B.Léza (São Vicente, 1905 – 1958), e “Tud’ cruz ê pesado”, de Jotamonte (EUA, 1913 – 1998); e “Hoje é Natal, irmão” e “Apocalipse”, de Manel de Novas (Santo Antão, 1938 – 2009), apenas para me referir a algumas composições dos nossos principais trovadores.

 

E que dizer do sincretismo religioso descrito na morna “Tempe de caniquinha”, de Sérgio Frusoni (São Vicente, 1901 – 1974): Cónde pa nôs Senhóra da Luz / Tinha um grande procisson / Cónde ta colóde Santa Cruz / Ta colóde pa San Jon / Lá na rebêra de Julion?

 

A religiosidade está também expressa na nossa literatura. Recordo que, das nove noveletas do escritor sanvicentino António Aurélio Gonçalves, duas são inspiradas nos Evangelhos – “Pródiga” (1956) e “Virgens Loucas” (1971) – e estão baseadas na vida social da cidade do Mindelo. Há ainda o Vangêle Contód d' nôs Móda (1979), publicado por Sérgio Frusoni, que é a tradução da versão latina do Novo Testamento de Bartolomeo Rossetti para o crioulo de São Vicente.

 

Talvez pouca gente saiba que o fresco do tecto da igreja matriz de Nossa Senhora da Luz foi pintado por Sérgio Frusoni na década de 60, quando, aposentado, passou a dedicar-se à pintura. Fernando Frusoni, filho de Sérgio Frusoni, explicou-me que, na verdade, o pai restaurou uma imagem de Virgem Maria que já lá estava, mas que praticamente já não se via. Ele imaginou o que poderia lá estar. Com pouco material de que dispunha na época fez o trabalho.

 

– A acção da Igreja Católica

 

Sendo Mindelo um meio pequeno, com problemas humanos complexos e difíceis, a Igreja, enquanto instituição que melhor encarna os valores judaico-cristãos, teve sempre um papel importante na procura de respostas e de ser um farol de valores morais e éticos.

 

A partir dos anos cinquenta, com maior ênfase nos anos sessenta e setenta, estando na linha da frente a ordem dos Salesianos, a acção católica na ilha foi mais no aspecto da formação humana, acção social, e desportiva, na formação de líderes e no apoio ao desenvolvimento, com particular incidência na juventude e nos jovens com menos recursos, dando atenção ao ensino, ao teatro, à música, chegando a criar uma banda musical, e às artes e ofícios, estruturando a formação profissional.

 

De referir ainda os núcleos de catequese, importantes na formação dos jovens, enquanto suporte para ocupar os tempos livres que, além do objectivo imediato da transmissão do conhecimento da religião, era uma forma de os desviar de actividades menos aconselháveis. Para além da criação da Juventude Operária Católica com várias actividades, entre elas, a criação de um curso nocturno do primeiro ciclo.

 

A partir da independência nacional a igreja em São Vicente teve que se adequar a novos desafios face à modernização da sociedade cabo-verdiana. A ordem dos Capuchinhos, transferida da Brava para São Vicente traz uma nova dinâmica às actividades da igreja, fazendo-a mais interventiva, adoptando, inclusive, uma postura crítica em relação ao novo regime político instituído. É quando se dá a criação do jornal Terra Nova (Abril.1975) e da Rádio Nova – Emissora Cristã de Cabo Verde, (Dezembro.1992), dois órgãos de comunicação social fundamentais para a difusão dos valores da Igreja Católica à sociedade sanvicentina e a todo o Cabo Verde.

 

Considerações Finais

 

A ilha de São Vicente, devido ao seu Porto Grande, reuniu nela todo o arquipélago, juntando sotaques, costumes, hábitos e crenças das “gentes-das-ilhas”, ao mesmo tempo que se abria para o mundo com a presença e fixação de “gentes-de-fora”, fazendo dela profundamente enraizada no húmus cultural da cabo-verdianidade e, ao mesmo tempo, propensa à modernidade, à tolerância e aberta a outras culturas e ao cosmopolitismo.

 

Fonte:

 

LIMA, Adriano Miranda, 74 anos, mindelense, Coronel militar reformado do exército português, residente em Tomar, Portugal.

PEREIRA, Valdemar, 84 anos, mindelense, Vice-Cônsul português aposentado, residente em Tours, França.

SILVA, Luiz, 74 anos, mindelense, Sociólogo, residente em Paris, França.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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