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Salão Nobre da Câmara Municipal de Calheta de São Miguel. Fotos Aidê Carvalho 

 

SENHORES.jpgVim hoje conhecer a Calheta de São Miguel [ilha de Santiago], o lugar encantatório da infância da Professora Universitária Doutora Eurídice Furtado Monteiro. Dessa infância donde vêm as emoções que norteiam a vida, segundo o escritor português Manuel Alegre (1995). Toda a vida: “não há flecha que não tenha o arco da infância”.

 

Permitam-me, antes de prosseguir, fazer duas notas prévias:

 

Primeira Nota: Sobre o Local da Infância e Sobre a Autora

 

No início de cada ano lectivo costumo fazer um discurso de boas vindas aos meus alunos universitários e explico-lhes que há dois tipos de pessoas que conseguem sucesso na vida: as que fazem o salto de vara, que têm um ponto de apoio e os instrumentos para isso (família, recursos, facilidades) e as pessoas que fazem a escalada subindo a pulso, sem qualquer apoio, sem recursos, sem facilidades, tendo de enfrentar todas as dificuldades. Esta é a forma mais lenta e a mais difícil, mas possível. A questão não é quem lá chega primeiro, mas quem atinge essa meta, ou seja, o importante é chegar lá. Eu subi a pulso e cheguei lá!

 

O percurso escolar da minha amiga e colega Eurídice Furtado Monteiro espelha as dificuldades da nossa terra e esse subir a pulso a que acabo de me referir:

 

“Antes não tínhamos liceu na Calheta. Fiz os estudos primários e o Ciclo Preparatório na Calheta; os três primeiros anos do liceu na Praia (Liceu Domingos Ramos); por emigração da minha família para os EUA, regressei a Calheta, onde fiz o 10.º Ano; e concluí os dois últimos anos (11.º e 12.º) em Assomada, vivendo em casa da minha bisavó paterna e meus tios-avós paternos. Fui para Coimbra em 2000, onde permaneci durante 12 anos, entre licenciatura, mestrado e doutoramento)”.

 

Eurídice Furtado Monteiro chegou lá aos trinta anos (menos que a idade de Cristo!) e é hoje ”uma das mais promissoras sociólogas e investigadoras de Cabo Verde”, na avaliação do seu orientador, o Professor Catedrático da Universidade de Coimbra Boaventura Sousa Santos. Parabéns, Minininha di Cadjéta! Parabéns Calheta de São Miguel!

 

Segunda Nota: Sobre os Graus e os Trabalhos Académicos

 

Em Cabo Verde, para além de o estudo ser uma forma de se subir na vida, ou talvez por isso, sempre houve entre nós uma veneração às pessoas prendadas, muito poucas com o grau académico de licenciatura antes da independência, diga-se em abono da verdade.

 

Na minha infância, o exemplo que se tinha de alguém que sabia muito e era tido como bitola era o Sr. Padre porque, dizia-se, tinha estudado muito, a primária, mais 14 anos, o sétimo ano dos liceus mais os estudos teológicos. Tanto é que havia ou há a expressão: “Bu sabi txeu, más ki padri”. Hoje em dia já há gente, e cá da Calheta de São Miguel, que estuda 16, 18, 22 e 23 anos, pa sábi txeu, más ki Padri!!! Gentis di kabésa! Sim, 12 anos da Primária ao Secundário, 4 ou 5 da Graduação (Licenciatura) e 6 ou 7 da Pós Graduação (2 para Mestrado, mais 4 ou 5 para o Doutoramento). Explico cada um desses graus e suas exigências:

 

Licenciatura – Grau académico atribuído a um indivíduo que finaliza os seus estudos numa instituição de ensino superior, normalmente uma faculdade ou uma universidade; o acto de licenciar alguém a algo. A esse nível, o estudante deve realizar um trabalho de fim de curso, que consiste numa Monografia, com o objectivo de demonstrar alguma capacidade de investigação e revelar capacidade de expressão e articulação de saberes.

 

Mestrado – Na hierarquia dos graus académicos o Mestrado situa-se, em regra, na segunda posição ascendente. No final do Curso de Mestrado o estudante deve apresentar uma Dissertação sobre um determinado tema que seja de interesse para o ramo de estudo escolhido. Essa dissertação deve ser defendida perante um júri (por norma, professores doutores da universidade), que avalia o trabalho e atribui a nota final. Este modelo encaminha o aluno para o meio académico.

 

Doutoramento – O grau académico de Doutor é o mais elevado dos sistemas de ensino superior e visa comprovar a capacidade do seu titular em desenvolver investigação num determinado campo da ciência. É atribuído por uma universidade ou outro estabelecimento de ensino superior autorizado, em regra após a defesa de uma tese, acto que pode ser antecedido pela frequência de um curso de Doutorado ou Doutoramento.

 

Peço desculpas se fui um tanto ou quanto minucioso, mas foi devido à minha preocupação com a juventude presente nesta sala. Posto isso, passemos à apresentação do livro Entre os Senhores das Ilhas e a Descontentes, que é o resultado da Tese de Doutoramento de Eurídice Furtado Monteiro, defendida na Universidade de Coimbra em 2013.

 

Comecemos pelo Título – a primeira parte to título é tomada por empréstimo do livro de ficção histórica O Senhor das Ilhas (Praia, 1998), da escritora portuguesa Maria Isabel Barreno, baseado na vida do Conselheiro Manoel António Martins (Braga, cerca de 1772 – Boa Vista, 06 de Julho de 1845), homem riquíssimo que foi Governador Geral e Prefeito das Ilhas. Eurídice Monteiro remete-nos, assim, para um período, o colonial, com um discurso centrado na estrutura e no poder patriarcal, que subverte, ligando-o às Descontentes, de que faz parte, de um período outro, o pós-colonial, o actual, que é o da emergência das mulheres no campo político.

 

Está dado o tom e a autora, jovem mulher, proveniente de um meio rural, com toda a carga conservadora, tradicional e patriarcal que isso traz, com uma formação sólida em Sociologia e com um aparelho teórico do mais actual, a epistemologia do sul, utilizando uma bibliografia de 2000, 2003, 2004, 2005, 2006, 2008 e 2009, vai nesta sua tese questionar quem é que governa e fazer o rastreio do detentor do poder, da ausência à emergência de mulheres no campo político no Arquipélago.

 

Recorda-se, a propósito, que a dissertação de mestrado de Eurídice Furtado Monteiro, galardoada com o Prémio Nacional dos Direitos Humanos 2007, é Mulheres, Democracia e Desafios: Uma Análise da Participação Política das Mulheres em Cabo Verde. Daí poder afirmar que Entre os Senhores das Ilhas e as Descontentes é o aprofundamento de um tema que é caro para a autora, que vem estudando há bastante tempo.

 

Eurídice Furtado Monteiro começou por estudar os sistemas eleitorais em Cabo Verde (processos eleitorais, círculos eleitorais, fórmulas de conversão de votos em mandatos, abstenções), na Licenciatura, passou para a participação política das mulheres, no Mestrado e, no Doutoramento, ampliou essa análise para além do género.

 

Entre os Senhores das Ilhas e as Descontentes

 

O livro está organizado em três partes, cada uma delas constituída por dois capítulos. A Parte I, Exercício do Poder; a Parte II, Linhas Sociológicas ou Linhas Abissais?; e Parte III, Cabo Verde: Paradigmas Inventadas.

 

Este estudo é dedicado à “análise crítica da cidadania das mulheres num mundo intensamente interligado, mas também marcado pelo fim das grandes narrativas e pela fragmentação de identidades”.

 

Em termos teóricos, a autora privilegia uma abordagem das “principais linhas do debate actual sobre a política da identidade e da participação política das mulheres nas democracias contemporâneas, secundadas por uma abordagem analítica da ideia de arquipélago de crioulidade”.

 

Com uma abordagem crítica, o livro esquadrinha a presença de mulheres na política e analisa a qualidade das mulheres no Parlamento, no Governo e nas Autarquias Locais, ao longo dos vinte anos do sistema multipartidário cabo-verdiano, destacando a recente experiência de governação paritária no arquipélago.

 

Ponho em relevo a Parte III, “Cabo Verde: Paradigmas Inventadas”, na verdade, a tese de Eurídice Furtado Monteiro, com os dois últimos capítulos – Quem Governa? Da Ausência à Emergência de Mulheres no Campo Político e No Womens’s Land: O Sistema de Representação Parlamentar num Espaço Arquipelágico”.

 

Já vai longa a minha apresentação, que quis fosse sucinta, tendo em conta que há um segundo orador, pelo que ponho aqui um ponto final, não sem antes recomendar vivamente o livro da Professora Doutora da Calheta de São Miguel, de consulta obrigatória.

 

Entre os Senhores das Ilhas e as Descontentes:

Identidade, Classe e Género na Estruturação do

Campo Político em Cabo Verde

Eurídice Furtado Monteiro

Edições Uni-CV, Praia, 2015

 

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