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Cavalin de Nossenhor

Brito-Semedo, 24 Nov 14

 

cavalinho de nossenhor.jpeg

 

 

Para o Amigo Oswaldo Osório, Poeta do Povo e da Chã de Cemitério, pelo seu 77.º Aniversário

 

 

Passa uma estrela cadente.

– Cavalinho de Nossenhor está correndo no céu...

 

BALTASAR LOPES 

in Chiquinho, 1947

 

 

Tònico na Ronda Infantil

……………….

Tònico não quer dançar,

……………….

Tònico queria

era montar

no cavalinho de Nossenhor

que corre em corrida valente

neste céu estrelado.

Por isso

Tònico não quer dançar.

……………….

Na Estrada de S. Tiago o caminho é grande.

Ah! Céu grande

Ah! Caminho grande!

Tònico não quer dançar.

 

“Quatro Poemas do Ciclo da Vizinha”

 

OSVALDO ALCÂNTARA 

in Claridade, n.º 6, 1948

 

 

Quando éramos ainda uns vinténs de gente e brincávamos na boca da noite antes de irmos dormir, fazíamos reianata e jogos. Um deles era o jogo do “Cap'tõ-Farêl”, "uma eventual nesga muito fininha da memória do Capitão Farewell" de Leão Lopes (2006):

 

Jogo.jpeg 

 

Cap'tõ-farel?

Senhor Meu!

Q'anto vintem tem na caxinha?

Vinte cinc!

Q'al é maior?

Cavalin de Nossenhor!

Pó de plõ quêmou?

Quêmou!

Entõ, real castigue na quem merece! (1)

 

Havendo uma outra versão:

 

– Quem qrê farel?

– Senhor meu

– Konte vintem tem na casinha?

– Vinte e cinq – Kal ê maior?

– Cavalim de Nossenhor

– Enton passa aquel marosse (2)

 

Passaram-se muitos anos, duas vezes vinte e cinco, pelo menos, quando já não se senta mais na soleira das portas para contar estórias, olhar o céu e ver as estrelas, chegam-me das reminiscências da minha infância os dizeres desse nosso jogo e a expressão “cavalin de Nossenhor” desafia a minha compreensão. A chave para a sua interpretação é-me dada pelo Poeta Osvaldo Alcântara – cavalinho de Nossenhor / que corre em corrida valente / neste céu estrelado.

 

Bato na testa em jeito de admiração pela descoberta. Faz sentido! É claro que faz sentido: o “cavalinho de Nossenhor” das nossas memórias é a “estrela cadente”, esse fenómeno astronómico muito comum que acontece em noites estreladas, assim como é comum lembrarmos que, ao vermos estes corpos cruzando os céus, devemos formular um desejo.

 

Seja por acreditar que são um sinal de boa sorte, ou pelo simples espectáculo que proporcionam, uma coisa é certa: todos gostam de ver uma estrela cadente.

 

Apesar do nome, sabe-se que “estrelas cadentes” não passam de um fenómeno luminoso que acontece na atmosfera terrestre ocasionada pelo atrito entre minerais sólidos vindos do espaço, os chamados meteoritos.

 

Outra crença popular que Osvaldo Alcântara associa à do “cavalin de Nossenhor” é a do “Caminho de Santiago”, ligado desde há séculos à Via Láctea por supostamente indicar o caminho para Santiago de Compostela à noite – Na Estrada de S. Tiago / o caminho é grande. / Ah! Céu grande / Ah! Caminho grande! De recordar que Via Láctea é um dos nomes dado ao Caminho de Santiago e um dos nomes populares da galáxia em Espanha e Portugal é Caminho ou Estrada de Santiago.

 

O Caminho dá a noção de que o ser humano é um peregrino e é uma metáfora da sua peregrinação na terra construindo o seu projecto de vida e buscando o sentido para ela. O poeta sevilhano Antonio Machado (1875-1939), explica que “no hay camino, / se hace camino al andar”.

 

Caminante, no hay camino,  

se hace camino al andar.  

Al andar se hace el camino,  

y al volver la vista atrás  

se ve la senda que nunca  

se ha de volver a pisar.  

Caminante no hay camino  

sino estelas en la mar (3).

 

Caminero.jpeg

 

Na noite de hoje Manel não quer dançar. Manel queria era fechar os olhos, formular um desejo especial, passar o morouço (4), montar no tal cavalinho de Nossenhor que corre em corrida valente neste céu estrelado e seguir pela Estrada de Santiago, que o Caminho é grande. Por isso Manel não quer dançar.

 

Manel, o homem-menino vai continuar, da sua rede da varanda, a olhar para o céu todas as noites, à espera de ver o “cavalinho de Nossenhor” e exprimir os seus desejos, esperando que sejam realizados. 

 

 

 _____________

[1] Farêl é corruptela do nome Farewell cuja história Leão Lopes publicou em 2006, o livro Capitão Farel: A Fabulosa História de Tom Farewell, o Pirata de Monte Joana, literatura infanto-juvenil. O jogo “Cap'tõ-Farêl” é descrito por Luís Romano (1970:29-30) e registado por Leão Lopes: – Capitão Farêl? / – Senhor Meu! / – Quantos vintens, temos na caixinha? / – Vinte e cinco! / – Qual é maior? / – Cavalinho d´ Nosso Senhor! / – Pau d’ pilão queimou? / – Queimou! / – Então, real castigo na quem merece!

Segundo Luís Romano, "vinténs" quer dizer moedas e a maior, com a efígie do Cavalinho de Nosso Senhor, refere à libra com a figura do cavalo.

[2] Recuperado do poema “Pesadèle na terra de gente ou Pesadèle em trânsito”, de Corsino Fortes, in Pão & Fonema, 1974: – Quem quer farelo? / – Senhor meu / – Quantos vinténs tens na casinha? / – Vinte e cinco / – Qual é o maior? / – Cavalinho de Nosso Senhor / – Então passa-me aquele morouço.  

[3] Caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar. / Ao andar se faz caminho, / e ao voltar a vista atrás / se vê a senda que nunca /  se voltará a pisar. / Caminhante, não há caminho, / mas sulcos de escuma ao mar.  

Poema "Caminante No Hay Camino", de Antonio Machado.

[4] Demarcação, limite de propriedade (Santo Antão).

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 24.11.2014 às 19:26


Raro é o dia em que não faço uma peregrinação aqui na Esquina para matar saudade e, muitas das vezes, sentir a vivência d'otre hora na nôs terra.
Além de ser um dever de fidje de fora, é , muitas das vezes é uma voltinha ao nosso bairro da Chã do Cemitério onde nasceu o Manel e onde vivi a partir dos meus 12 anos.
Vim hoje e delicio-me com histôria de diazà que me permitiu dar um pulim até Lombe Maclode (Mac Leod) onde moravam umas tias-avôs que, por sinal, era tias-bisavôs do homenageado de hoje, Oswaldo Osôrio, portanto meu primo pelo lado materno.
Cheio de sodade mas feliz por tudo isso digo,
Obrigado Manel de Xanda
V/

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