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“Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a sua [Guilherme Dantas] memória”

 

– Hipólito da Costa Andrade, Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, 1888

 

Guilherme Augusto da Cunha Dantas (Brava, 25.06.1849 – 24.03.1888), segundo José Lopes, foi um poeta lírico e romântico, mas como jornalista foi um temível polemista na linha de Augusto Barreto e Eugénio Tavares, além de escrever artigos de crítica literária. Assinava os seus escritos como Guilherme da Cunha ou usava as iniciais "A. C.". Colaborou no Boletim Official, nos jornais Independente (Praia, 1877-1889), de que terá sido um dos fundadores, A Imprensa (Praia, 1880-1881) e A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919), neste, postumamente, e no anuário Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932).

 

Coube ao investigador Félix Monteiro (São Vicente, 1909 – 2002) ser o primeiro estudioso, no pós-independência, chamar a atenção, nas suas "Páginas Esquecidas" (Raízes, N.º 21, Praia, 1984), para os escritos de Guilherme Dantas, reproduzindo uma amostra significativa entre poesia e prosa desse jornalista e escritor multifacetado.

 

 Poesia

 

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Arnaldo França (Praia, 1925 – 2015) explica que pouco depois de publicado o artigo na revista Raízes, Félix Monteiro foi procurado pela Senhora D. Maria de Fátima Braga Vieira de Andrade que o informou que “em casa dos seus antepassados se encontrava um manuscrito, encadernado em couro, com um fecho metálico, contendo poesias de Guilherme Dantas e de que lhe fez entrega”. É a partir desse manuscrito que Arnaldo França organiza e prefacia o livro Poesias, saído em 1996.

 

O livro Poesias, de Guilherme Dantas, é uma colecção de mais de cento e vinte poemas, sendo a primeira feita em Mafra, aí por volta de 1867, e a última, datada de Setembro de 1875.

 

 

Prosa de Ficção

 

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Em 1999, estando eu em Lisboa a realizar pesquisas sobre a imprensa cabo-verdiana, tomei contacto com a obra ficcional de Guilherme da Cunha Dantas, que desconhecia até então – Contos Singelos (Mafra, 1867) e textos dispersos publicados na imprensa periódica em género de folhetim, como era usual e em voga na segunda metade do século XIX.

 

À medida que fui lendo os textos em prosa de Guilherme Dantas – quatro contos, um conjunto de crónicas e um romance – foi tomando corpo a ideia de os divulgar como uma homenagem ao escritor e um serviço à nova geração. Foi assim que, no ano 2000, organizei, de forma autónoma, dois volumes: Contos e Bosquejos, e Memórias dum Pobre Rapaz, cada um deles com um prefácio e notas.

 

Em 2007 foi publicado o romance, ficando os contos e bosquejos a aguardar vez.

 

Embora sendo ficção, a prosa literária de Guilherme Dantas pode ser enquadrada no género evocativo, memorialista, contendo muito do biográfico ou do autobiográfico. Nela o escritor faz o registo da experiência, ainda que ficcionada, do autor, ao mesmo tempo que retrata para a posteridade factos e acontecimentos da sua época.

 

Memórias dum Pobre Rapaz

 

Memórias dum Pobre Rapaz é o entretecimento de duas histórias românticas de profundo amor e paixão cuja acção se situa na segunda metade dos anos oitocentos, sob a influência do terceiro romantismo português, e decorre em dois espaços físicos distintos e complementares, Portugal Continental e as Ilhas de Cabo Verde.

 

Essa bi-espacialidade é também consequência e espelha a realidade bi-pátrida em que viviam os homens das Ilhas dos anos oitocentos – situação ambígua de estar e sentir a pátria, o que fazia com que assumissem ora como sendo de Portugal, ora como de África ou de Ultramar, ora como de Cabo Verde ou, ainda, como a sua ilha ou local de nascimento.

 

Contos e Bosquejos

 

O livro integra quatro contos – “Nhô José Pedro ou Cenas da Ilha Brava”, publicado pela primeira vez em Mafra, fazendo parte do livro Contos Singelos (1867); “Amor! Ai! Quem Dera“; “A Morte de D. João. Memórias do Hospital”; e “O Sonho. Memórias dum Doido”; e um bosquejo, “Bosquejos dum Passeio ao Interior da Ilha de Santiago” – uma espécie de Viagens na Minha Terra (1846), de autoria de Almeida Garrett (1799 – 1854), escritor português introdutor do romantismo.

 

Com a publicação desses Contos e Bosquejos, fica concluído o projecto de reedição da obra completa de Guilherme Dantas, fundador da ficção cabo-verdiana juntamente com José Evaristo d’Almeida, quase 130 depois da sua morte. De fora ficaram apenas os contos “Cenas de Mafra”, inserido no livro Contos Singelos (1867), e “Frei José e o Diabo”, publicado no Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (1872), por estas estórias se situarem em Mafra e não terem qualquer relação com Cabo Verde.

 

“Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a sua [Guilherme Dantas] memória”.

 

De registar, em jeito de conclusão que, de há uns tempos a esta parte, tem havido uma preocupação louvável em reeditar livros de referência há muito esgotados, obras póstumas e espólios de autores já desaparecidos, como José Evaristo d’Almeida (1810? – 1856?), Guilherme Dantas (1849 – 1888), Eugénio Tavares (1867 – 1930), Januário Leite (1865-1930), Félix Lopes da Silva ("Guilherme Ernesto") (1889 – 1967), Pedro Cardoso (1890 – 1942), e Sérgio Frusoni (1901 – 1975), para além dos já clássicos da literatura moderna como António Aurélio Gonçalves (1901 – 1984), Jorge Barbosa (1902-1971), Baltasar Lopes (1907 – 1989) e Manuel Lopes (1907 – 2004). Foi nesta linha que se organizou Contos e Bosquejos e Memórias dum Pobre Rapaz.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

 

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2 comentários

De Anónimo a 24.01.2017 às 11:23

As minhas felicitações por trazer à boa lembrança do leitor hodierno, mais esta obra. 
Guilherme da Cunha Dantas, merece ser colocado entre os seus pares já celebrizados. Ademais, G. Dantas possuía  uma característica apreciável e inscrita na sua prosa que é a de ser cronista/ficcionista ao mesmo tempo.

De Ondina Maria Duar Fonseca Rodrigues Ferr a 24.01.2017 às 11:24

O comentário não é "anónimo". As minhas desculpas.

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    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

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    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

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