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História do Cinema CV, Um Contributo

Brito-Semedo, 22 Ago 15

 

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[…] O cinema aparece em Cabo Verde, em especial em São Vicente, com advento da Republica Portuguesa (5/10/1910), portadora de grandes esperanças, que permitiu aos intelectuais e trabalhadores caboverdianos criar as estruturas próprias e autónomas. Alfredo Margarido, no prefácio ao Folklore Cabo-verdiano de Pedro Monteiro Cardoso (Edição da Solidariedade Caboverdiana - Paris 1983), escreve: "E, consequentemente, ao nivel do cinema surge o cinematógrafo eléctrico de Freitas & C°, com um aparelho Pathé-frères, modelo de 1913.

 

Anuncia-se também que a mesma empresa adquiriu, por troca, quatro espectáculos novos, e espera, no próximo paquete da Guiné, mais nove espectáculos de novidades com que vai deliciar o público desta cidade e das demais ilhas.

 

Não sabemos qual foi o acolhimento dispensado a esta nova forma de espectáculo, mas um anúncio de 1916 deixa entender que o público caboverdiano não mostra um interesse apaixonado pelo cinematógrafo, porque havendo embora estreias de fitas novas e sensacionais, os preços são os do costume, apesar da subida enorme dos preços das películas."

 

No ano de 1922, César Marques da Silva inaugura o cinema Eden Park, que levou muitos anos por concluir devido a dificuldades financeiras e constitui um dos patrimónios mais importantes da cidade do Mindelo e de Cabo Verde.

 

De todas as ilhas acorriam pessoas para assistir aos vários espectáculos organizados no Eden Park, cuja actividade cultural não se limitava ao cinema: o teatro, o boxe, conferências, tudo o que era cultura recebia o Eden Park sempre com a preocupação de servir Cabo Verde.

 

Mais do que qualquer outra escola, teve sempre preocupação de servir as classes sociais mais modestas, levando-lhes a instrução e a cultura popular.

 

O Eden Park, graças à passagem de grandes filmes, trouxe aos cabo-verdianos os exemplos da dignidade e da solidariedade humana e ainda a consciência da liberdade.

 

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Mais ainda: também desenvolveu o nosso sentido de revolta contra as traições, o racismo, as injustiças humanas, a esperança dum mundo melhor onde a justiça estaria acima de todos, e que seríamos capazes de criar uma elite que fosse o exemplo de dignidade e patriotismo para o nosso povo.

 

Os filmes românticos, dando exemplos de fidelidade e coragem em defesa da família e da nação, contribuíram enormemente para que a juventude se levantasse em armas para a Independência de Cabo Verde.

 

Foi ali no Eden Park que, pela primeira vez, descobrimos que o índio tinha razão na história da América, com o célebre filme Cochise ou os grandes cow-boys, heróis do faroeste, que defendiam as injustiças humanas; foi ali que vimos a denúncia do racismo no Sul da América e repensámos a África escrava e explorada pelas potências coloniais e o apartheid protestante, como se estes não tivessem sido perseguidos e queimados pelos católicos da Inquisição.

 

Foi ali que os rocegadores das praias, os camponeses, aprenderam como defender o seu salário justo, onde muitos irmãos forçados a emigrar sonharam um mundo melhor com direitos iguais entre os homens e aprenderam o inglês, que mais tarde lhes permitiria integrar-se nos países de emigração. 

 

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Foi ali, no Eden Park, que encontrámos a verdadeira escola da liberdade do povo das Ilhas: de há muito o seu fundador devia ter sido distinguido com um prémio de Herói da Pátria Caboverdiana, ter o seu nome numa das primeiras artérias de Cabo Verde, não somente em São Vicente, uma estátua, pois já não no coração do povo e dos emigrantes ela existe.

 

Havia pessoas que decoravam os diálogos e, que no regresso à casa, nas noites de luar, recitavam com a voz dum James Mason, dum Sidney Poitier, dum Marlon Brand, de Jeff Chandler, os seus lindos textos; os músicos retomavam as músicas para as festas populares e, quando chegou a hora de libertação, não foi preciso ir acordar ninguém do sono colonial.

 

No plano musical, os proprietários do cinema Eden Park sempre permitiram a entrada gratuita dos músicos no seu cinema, a fim de seguirem a evolução musical nos paises estrangeiros e que muitas vezes adoptavam as músicas dos filmes para o próprio repertório musical utilizado nos bailes e no carnaval.

 

O senhor José Marques Lopes da Silva fez também dos seus filhos excelentes músicos e certamente os primeiros a avançar na modernização da música cabo-verdiana com o conjunto "Ritmos de Cabo Verde", onde também se formaram músicos de alta craveira, tais como o célebre guitarrista Humberto Bettencourt, "Humbertona", o cantor Longino, recentemente falecido sem honras e ignorado em Portugal, e também o pianista Chico Serra do conjunto "Voz de Cabo Verde". O Djosinha do conjunto "Voz de Cabo Verde" foi uma criação do cinema Eden Park, assim como o Morgadinho, que tinha acesso gratuito, ainda jovem, ao cinema Eden Park.

 

O Golpe de Estado de 1926, que levara Salazar ao poder, constituiu um golpe violento nas tentativas de autonomia política, económica e cultural em Cabo Verde no quadro do sistema colonial.

 

Não somente foi estabelecida uma Censura vigorosa, que seria reforçada com a instalação da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), como também seria fechado em 1930 o próprio Liceu Infante D. Henrique, o único do Arquipélago e que começou a funcionar ali ao lado do Eden Park graças à acção do Senador Vera Cruz, que aliás cedeu a sua casa para que fosse instalado um liceu em Cabo Verde. Somente em 1933, graças aos esforços de Adriano Duarte Silva e Baltasar Lopes, seria aberto um novo liceu com o nome de Liceu Gil Eanes.

 

As organizações de trabalhadores, como sindicatos de operários e agricultores, assim como a própria maçonaria, seriam extintas também em 1933, sendo seu último Presidente o Sr. Torquato Fonseca, que deixou ilustres filhos que contam para a historia de Cabo Verde.

 

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O nascimento, tímido, da revista Claridade, em 1936, foi um alumbramento, na própria expressão do poeta Jorge Barbosa, um dos fundadores da revista, mas esta nunca desenvolveu uma análise sobre a cultura cinematográfica, por razões que têm a ver com a censura.

Entretanto, alguns claridosos, como Jorge Barbosa ou Sérgio Frusoni, ou pessoas como Djunga Fotógrafo, ou ainda António Aurélio Gonçalves, certamente um dos intelectuais cabo-verdianos que melhor se realizou como escritor, comentaram alguns filmes em directo no cinema Eden Park.

 

A Censura instalada em Portugal como em Cabo Verde, cortava as passagens consideradas polémicas, o que provocava muitas vezes gritos e assobios no cinema, fixava as idades para ver certos filmes ou mesmo proibia a passagem de qualquer filme que evidentemente tivesse uma grande aceitação do público devido aos problemas expostos.

 

Dava-se preferência aos pequenos dramas sentimentais, aos filmes de capa e espada ou de dança, enquanto os filmes dum Charlot, denunciando a exploração humana, eram devidamente censurados.

 

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Escapavam à Censura os Desenhos Animados, que eram certamente destinados exclusi-vamente às crianças. Ora, os desenhos animados eram portadores de lições de dignidade e justiça tanto para as crianças como também para os adultos.

 

Várias vezes assistimos a alguns adultos sairem do cinema logo após a passagem dos desenhos animados, demonstrando desintesse pelo filme que seria seguidamente apresentado, o que na altura nos deixava intrigados.

 

O facto me levou a interrogar essas pessoas, admiradoras de Popey ou dos filmes de Walte Disney, que me revelaram a riqueza dos filmes de desenhos animados.

 

A verdade é que La Fontaine não escreveu as suas fábulas para as crianças mas sim para os adultos, corruptos pela avidez das riquezas mas profundamente pobres em matéria de dignidade e de espiritualidade.

 

Graças aos desenhos animados apresentados tanto no Cinema Park Miramar como no Eden Park ou nos cinemas da ilha de Santiago ou do Sal as nossas crianças puderam tirar as lições necessárias que os fizeram homens honestos e dignos filhos de Cabo Verde.

 

A Censura e a PIDE jamais compreenderam a dimensão política e cultural dos desenhos animados que tanto marcaram as crianças e a juventude dos anos da luta contra o fascismo e o colonialismo.

 

Evidentemente que nem todos os heróis dos desenhos animados eram anti-colonialistas, anti-racistas, mas lá íamos fazendo as nossas escolhas.

 

A grande verdade é que, muitas vezes, os heróis das bandas desenhadas como Tarzan e outros faziam apologia da inteligência e da força do homem branco e apresentavam os negros e os índios como bárbaros, criminosos, alimentados no ódio à raça branca.

 

Pouco a pouco, esses desenhos animados eram criticados pelas próprias crianças que livremente podiam escolher os seus próprios desenhos animados. 

 

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[…] Os primeiros passos para a criação dum cinema caboverdiano também foram dados nos anos cinquenta, com filmes produzidos em Cabo Verde: "O Guarda Vingador" e "Segredo dum Coração Culpado", da autoria de Henrique Pereira, português com uma grande experiência humana conquistada no Brasil, com a participação de António Silva (Antone Puntchinha), Dante Mariano e Djosinha, actual cantor do conjunto "Voz de Cabo Verde", que interpreta a morna "Luiza" da autoria de B.Leza a pedido do produtor e a "Força de Cobiça" de Chiquinho Djunga. Face às dificuldades financeiras, ao controlo da Censura e também à falta de mercado, esses filmes acabaram por desaparecer e não se sabe se existem algumas cópias em Portugal.

 

Luiz Silva in "Do Cinema em Cabo Verde – Contribuição para a sua História" (Conferir Aqui)

 

NOTA: Decorreu na Praia, no Auditório Nacional Jorge Barbosa, de 7 a 12 de Junho pp. uma Mostra de Cinema Cabo-verdiano intitulado "Cinema e os 35 Anos da Independência".

 

PS - Editado na Esquina do Tempo a 1.Abril.2011

 

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5 comentários

De amendes a 06.01.2011 às 21:03

Ao rol dos actores e personagens nomeados, acrescentaria mais 3 indelévelmente ligadas à história do saudoso E.Park:- Nhâ Tuda . Cirilo e Nhô Djack...

Já agora... pr'o os mais novos: EPark  era o único cinema no mundo que vendia bilhetes fiado... ( Passá vale )
Não dexemos que assinem este monumento!
 

De Brito-Semedo a 08.01.2011 às 15:57

Obrigado, A. Mendes, pela sua lembrança e achega. Essa da venda de "bilhete fiado" foi uma forma criativa de dar possibilidade a que muitos fossem ao cinema, sobretudo nos dias de estreia, quando não tinham dinheiro disponível. Genial!

De amigo submerso a 10.01.2011 às 23:08

Parabnes Br Semedo!
Gostei da abordagem, e claro do tema. Precisamos se atitudes dessas para enriquecer a nossa historia e nao ficar só na oficial.
Sobre cinema em CV entendo nada, mas sei algumas coisas sobre o Cine clube da Praia. Tenho a pelicula que foi projectada no dia da sua inauguração, se serve para os teus estudos sobre a historia do cine, dispoe.
Um abraço amigo (submarinista de naufragios)

De Brito-Semedo a 10.01.2011 às 23:32

Caríssimo, Agradeço muito o seu comentário e o levantar do véu sobre o Cine Clube da Praia. Penso que isso será importante para a abordagem do tema sobre o cinema em Cabo Verde, pelo contributo que o Cine Clube da Praia deu para a formação de toda uma geração, sobretudo na sua politização.
Aceito a sua disponibilidade e o apoio manifestado e gostaria de o contactar, usando para isso outras vias, de e-mail, por exemplo. Um abraço!

De Brito-Semedo a 11.01.2011 às 10:28

Caríssimo, Volto ao seu comentário para esclarecer, caso tenha ficado essa dúvida, que o texto postado é da autoria de Luiz Silva, como indicado no fim do post e com a referência à fonte, através do link dado, onde o pode ler na íntegra. Obrigado e um abraço!

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