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O Almanaque

 

O Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro foi um projeto criado em 1851 por Alexandre Magno de Castilho – irmão do escritor português António Feliciano de Castilho. Era impresso em formato de livro de bolso, e teve uma existência invulgarmente longa, visto que circulou até 1932. Pretendia contribuir para o estreitamento das relações Portugal-Brasil, para o desenvolvimento cultural das populações dos dois países e para despertar o interesse pela literatura, fazendo do almanaque uma espécie de “livraria em miniatura”.

 

Embora este tipo de publicação estivesse então na moda, eram raros os almanaques literários e não existia nenhum aberto aos escritores do Brasil, de Portugal e de todas as colónias portuguesas, permitindo o conhecimento mútuo e garantindo-lhes assim um público que, de outra forma, nunca poderiam atingir. É de realçar esta abertura ao mundo lusófono tanto mais que a literatura brasileira ainda não se tinha conseguido afirmar enquanto tal (o Brasil era independente há apenas 29 anos), e as colónias africanas eram vistas como lugares insalubres, sem civilização e claro, sem vida cultural ou literária. O Almanaque teve o grande mérito de abrir as portas a uma colaboração, até então, considerada inexistente ou desprezível e sem fazerem distinção de raças.

 

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Ana Cordeiro, a apresentadora da obra, e Françoise Massa, a esposa do homenageado. Fotos David Monteiro Lima (M_EIA)

 

No “Prólogo” ao volume inaugural, o fundador destaca a originalidade do projeto e salienta algumas das características mais importantes da publicação como a variedade e a utilidade.  Escreve o seguinte:

 

O que só pretendi foi publicar um livrinho ameno, próprio para todos os paladares, e de inegável utilidade, ao mesmo tempo para todas as classes. As pessoas instruídas folgarão de recordar-se; as outras acharão bastante que aprender, e em todo o caso um estimulo à sua curiosidade.

                         

De facto, o almanaque incluía inúmeras informações sobre astronomia, meteorologia, horários de navios e comboios, correios, pesos, medidas, feiras, a par com passatempos, poemas e textos em prosa, originais ou de autores consagrados bem como textos de natureza informativa ou de entretenimento, além de troca de correspondência do editor com seus leitores e colaboradores. Tudo parecia caber dentro de um almanaque, menos uma coisa: a política. Raríssimas são as referências aos acontecimentos políticos de então.

                        

Hoje em dia, são raros os que ainda compram ou lêem almanaques, mas no século XIX, pela grande variedade de temas que abordavam e pela grande quantidade de informações disponibilizadas tinham uma popularidade e um alcance notáveis. Maior ainda foi o sucesso que o Almanaque de Lembranças teve junto ao público, não só em Portugal e nas então Colónias Portuguesas, mas também no Brasil. Comprovam-no, desde logo, as suas tiragens que eram habitualmente de 16.000 exemplares mas que com sucessivas reedições muitas vezes excediam os vinte mil exemplares, tendo até atingido os 32.000. Pelo número e diversidade de locais de onde eram enviadas as colaborações, percebemos que o almanaque chegava aos quatro cantos do mundo e podemos imaginar como seria difícil gerir o volume de correspondência recebida, bem como a gigantesca logística necessária para a distribuição da publicação.

 

A importância do ALLB em Cabo Verde

 

O impacto que teve em Cabo Verde foi enorme e, por isso,  vou repetir algumas coisas que disse, quando há cerca de dois anos atrás, tive o prazer de fazer o lançamento do 1º volume dedicado à presença cabo-verdiana no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro.  Afirmei então, e julgo que sem exagero, que foi um importante marco na história literária das ilhas.

                                                                                                                              

Quando foi publicado o primeiro número do Almanaque, referente a 1851, Cabo Verde estava a sair de um período de grande turbulência política, reflexo da revolução liberal e da guerra civil que, entre 1832 e 1834, dividiu e empobreceu Portugal. Cabo Verde, no ano da publicação do 1º vol. do Almanaque, tinha apenas duas escolas de instrução pública superior: a da Brava e a da Praia. A imprensa já tinha sido instalada em 1842, mas só publicava o Boletim Oficial. Não existia ainda uma única Biblioteca Pública. Contudo, a sociedade cabo-verdiana já começava a ser impregnada pelos novos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A convicção de que o conhecimento era essencial para o progresso dos povos conduz a um notável esforço de divulgação do ensino, da imprensa periódica, das bibliotecas e gabinetes de leitura, do teatro, enfim de novos espaços de sociabilidade cultural. Surgem as associações culturais e recreativas que tiveram um papel importantíssimo na circulação de ideias, desenvolvimento de um espírito crítico, troca de livros e jornais e na divulgação de novos conceitos éticos e estéticos. Entre 1853 e 1897, de acordo com dados publicados no BO, surgem 21 associações culturais e recreativas espalhadas por todas as ilhas e em 1866 é inaugurado o Seminário-Liceu em S. Nicolau.

                         

Tudo isto permite-nos concluir que, ao longo da segunda metade de oitocentos, vai surgindo em Cabo Verde uma burguesia esclarecida e letrada que, todavia, tinha pouco acesso a livros e jornais e praticamente não tinha onde editar o que escrevia. O espaço disponível na secção não oficial do BO, era reduzido. A imprensa privada só veio a surgir em 1877 e a publicação de obras literárias, mesmo depois da instalação da imprensa era um luxo que estava fora do alcance da maioria dos intelectuais de então. Só no século XX, mais exatamente em 1916, se editaram, em Cabo Verde, os primeiros livros. Apenas aqueles que foram viver para Portugal, ou tinham meios para lá publicar, conseguiram editar as suas obras. Acresce ainda que grande parte da produção literária publicada nos jornais cabo-verdianos, entre 1877 e 1900 desapareceu.

                      

Mas a falta de dinheiro para publicar, não era o único obstáculo que os intelectuais de oitocentos tinham de ultrapassar. Eles confrontavam-se com um outro bem maior: as ideias racistas que afirmavam a inferioridade intelectual da raça negra. Muitos são os textos de intelectuais cabo-verdianos, que revelam o esforço que tiveram de fazer para superar esses preconceitos, tantas vezes ofensivos, e para demonstrar que os africanos em nada eram inferiores aos europeus. Ora, foi precisamente no Almanaque que, sem se enredarem em discussões sobre o valor das raças, os cabo-verdianos foram demonstrando, ano após ano, poema após poema, charada atrás de charada, que literariamente e intelectualmente, em nada eram inferiores aos escritores europeus. Ser colaborador do Almanaque representava não apenas a oportunidade para se ser publicado e lido por uma vasta comunidade de leitores, mas era também uma forma de consagração para quem o conseguia, e um orgulho para todos os naturais do arquipélago.

             

Esta necessidade de afirmação passava, naturalmente, por uma imitação do modelo literário europeu, pois só assim o talento dos de lá e dos de cá, podia ser facilmente comparado e avaliado, mas também é verdade que falavam de si, das suas ilhas, dos seus problemas e que sempre que a ocasião era propícia, valorizavam os seus pares, através de dedicatórias, citações ou elogios fúnebres, contribuindo dessa forma para o prestígio dos intelectuais das ilhas.

                        

Porque o acesso aos livros não era fácil, o Almanaque, enquanto miscelânea de diferentes tipos de textos de diferentes autores, era não apenas fonte de consagração literária mas também fonte de conhecimento e modelo a imitar.

                                                                                                 

É minha convicção que foi a publicação que marcou a vida literária das ilhas na segunda metade de oitocentos e início de novecentos, não só porque praticamente todos os escritores cabo-verdianos de então, nele colaboraram, mas porque, ao salvar muitos textos de um desaparecimento quase certo, nos permite, hoje, ter uma panorâmica muito significativa da vida cultural da época.                                         

 

A colaboração cabo-verdiana no II volume do ALLB

                  

Entretanto, o mundo muda, e Cabo Verde apesar da lentidão e ineficácia da administração colonial vai-se também transformando. Abrem-se escolas, bibliotecas, teatros, publicam-se localmente jornais e revistas e, em Portugal, abrem-se as páginas de vários jornais à colaboração cabo-verdiana. Estreita-se o contacto com o mundo exterior mas o Almanaque continua igual a si próprio e, apesar de tudo, com uma popularidade invejável (o que nos deve obrigar a reflectir sobre a relação entre a popularidade de uma criação artística e a sua originalidade ou qualidade).                       

 

Este 2º volume da colaboração cabo-verdiana no ALLB revela-nos que, de facto, a publicação não soube adaptar-se às mudanças ocorridas no mundo e no arquipélago, tornando-se, pouco a pouco, anacrónico e dispensável. O único cabo-verdiano que parece ter consciência dessa irrelevância, muito antes de se tornar evidente aos olhos de todos, é Loff de Vasconcelos, citado pela redação do Almanaque que dá conta da receção da obra A Perdição da Pátria. Escreve Loff de Vasconcelos: “ [em Cabo Verde] muitos decifradores de charadas e logogrifos do Almanaque de Lembranças, e pouco quem se ocupe de problemas sociais.” (p.36)

 

Na europa, desde finais de oitocentos, e em Portugal desde 1915, data em que se publicou a revista Orpheu, ia-se difundindo o modernismo, um movimento cultural que defendia que as formas "tradicionais" das artes e da  literatura,  se encontravam esgotadas e necessitavam ser ultrapassadas. A própria organização social e os rituais da vida quotidiana, precisavam dar lugar a uma nova cultura, menos formal, mais livre, mais adequada ao ritmo e às condições da vida moderna. E enquanto os intelectuais modernistas pretendiam chocar a burguesia com a sua irreverência e com uma poesia livre, sem metro e sem rimas, no Almanaque continuavam-se a escrever versos cheios de sentimentalismo e moralismo para serem lidos em salões onde se valorizava mais o número de sílabas de um verso que a sua originalidade e se respeitava mais o cumprimento das regras de etiqueta que o talento e a originalidade.                           

 

De facto, neste segundo volume ainda predominam os logogrifos, os enigmas e as charadas, a que se seguem, em número, os textos poéticos com destaque para a temática amorosa, tratada com exagero de sentimentalismo e falta de originalidade e o lirismo bucólico. E até os textos em prosa, abordando aspetos da história ou da literatura portuguesas ou sobre Cabo Verde, são textos de divulgação ou puramente informativos, formais, massudos, longe da leveza e da graça com que eram contados fait-divers e anedotas, e longe das descrições pessoais e pitorescas que encontramos, com tanta frequência, nos textos da segunda metade de oitocentos.                          

 

O nacionalismo romântico e identitário de oitocentos que, no confronto com o outro procurava o auto-conhecimento e um sentimento de pertença a uma cultura, pela partilha da mesma língua, raça, folclore e tradições, vai ser substituído no séc. XX por novas formas de nacionalismo que oscilam entre uma visão crítica e irónica que questiona a situação social e cultural da pátria e uma postura de desmesurado e cego orgulho que assenta numa excessiva exaltação dos heróis, dos valores e acontecimentos da história pátria.                           

 

A afirmação de um nacionalismo cabo-verdiano que procurava as suas raízes na diversidade cultural, geográfica e humana e se afirmava pela distinção entre um nós cabo-verdianos e um eles portugueses, e que várias vezes, perante o descaso e as injustiças da metrópole, afirmou o desejo de independência, vai sendo substituída por um outro tipo de nacionalismo, marcado pela ideia de pertença e de ligação afetiva a Portugal. Para esta mudança, dois fatores terão contribuído: por um lado, a crença que a grande maioria dos intelectuais cabo-verdianos tinha nos ideais republicanos e na convicção de que, com a implantação da república, se iria constituir uma grande pátria formada pelas pequenas pátrias regionais em que os direitos e as liberdades de todos seriam respeitados e que conduziria ao desenvolvimento dos povos; por outro lado, a consciência de que um pequeno e pobre arquipélago como Cabo Verde não poderia sobreviver independente sem logo ser subjugado por uma nação mais forte. Testemunhas da derrota da luta de libertação de Cuba e das Filipinas em finais de oitocentos e da derrota dos Boers na viragem do século, os intelectuais cabo-verdianos que sonhavam com a independência das suas ilhas, como escreveu José Lopes, viram este sonho desfazer-se com o susto em que as colónias portuguesas viveram, durante a I Guerra Mundial, altura em que se tornou bem claro que Portugal não tinha como as defender dos apetites coloniais das grandes potências.

                      

O desmesurado amor à pátria cabo-verdiana vai assim conviver com a filial afeição à pátria portuguesa. Aos nacionalistas de meados do séc. XX esta posição surge como ambígua, dúplice, implicando falta de clareza e até fingimento e hipocrisia. Por isso, no período pós-independência estes escritores foram mantidos na sombra e durante muitos anos considerados irrelevantes para a história literária de Cabo Verde. Nos nossos dias, em que acreditamos que a integração de um país numa união de estados pode garantir segurança e bem-estar económico, entendemos de outra forma este tipo de nacionalismo.

 

Neste segundo volume da presença cabo-verdiana no Almanaque, há um poema de Pedro Monteiro Cardoso que ilustra bem esta forma de afirmar a cabo-verdianidade sem recusar a ligação histórica, política e afetiva a Portugal. É o poema "Ser Neto de Portugal", que foi escrito para ser recitado pelos filhos do poeta e que sem negar a relação filial à pátria portuguesa revela que a ligação à metrópole se vai diluindo no abandono a que as ilhas estavam votadas. (p.147)

                    

A ironia e o humor que marcaram tantas das colaborações surgidas no primeiro volume estão praticamente ausentes nos textos deste segundo volume. Também, praticamente inexistente é a colaboração feminina: três mulheres, uma dezena de colaborações. Desaparece também a colaboração de alguns dos mais importantes escritores cabo-verdianos, uns porque morreram, outros porque a vida lhes trocou as voltas como Eugénio Tavares. Em contrapartida aparecem novos talentos como Sérgio Frusoni e Manuel Lopes que é até premiado pelo júri do Almanaque, em 1929, pelo texto Visão da Madrugada com direito à publicação de uma sua fotografia. Ah! As fotografias! Isto sim, um ganho para o Almanaque. As imagens fotográficas começam a vulgarizar-se e, apesar da falta de qualidade, e de um ou outro erro de identificação, começam a dar corpo a um mundo que só era conhecido por algumas raras gravuras e muitas descrições.

                        

Ao termos agora a oportunidade de aceder à colaboração cabo-verdiana com o Almanaque de Lembranças nas primeiras três décadas do séc. XX, percebemos melhor por que motivo a geração da Claridade foi tão duramente crítica em relação à geração que colaborava com o Almanaque.

 

Relembro o romance Capitão de Mar e Terra, de Teixeira de Sousa onde o autor recria o ambiente de Mindelo, na época em que um grupo de jovens fundava a revista Claridade, criando personagens que dão corpo e substância a uma polémica literária que opôs frontalmente a geração de Claridade aos escritores que a antecederam (como a polémica que opôs Pedro Monteiro Cardoso e Quirino Spencer Salomão em 1934 nas páginas da “Folha Literária” do jornal O Eco de Cabo Verde). De facto, enquanto os jovens claridosos procuravam uma literatura menos sentimental, sociologicamente mais interventiva e próxima da realidade das ilhas e formalmente menos rígida e artificial, os escritores mais velhos e consagrados apegavam-se ainda ao formalismo rígido dos sonetos, à musicalidade dos versos rimados, a um sentimentalismo genuíno mas fora de moda e a uma cultura clássica que nada dizia aos mais novos. Esta geração é simbolizada pelo personagem Lucrécio Arrobas, considerado um dos melhores sonetistas de língua portuguesa que acima de tudo, prezava a harmonia e o rigor da forma, muito admirado pela população mindelense pela sua colaboração no Almanaque e que revelava uma profunda cultura clássica que alardeava orgulhosamente a par com profusas citações em latim.                                                                

Se faço aqui referência a esta polémica é porque, ainda hoje, ela não está inteiramente ultrapassada e porque o mestre era claramente o poeta José Lopes que, neste segundo volume, é autor dos poemas mais interessantes, de maior qualidade, erudição e densidade. Ele era de facto O Mestre como se pode verificar pela quantidade de poemas que lhe são dedicados ao longo deste volume e que revelavam a enorme admiração e respeito que os seus contemporâneos lhe consagraram.

 

A presença de José Lopes no ALLB

                           

A presença de José Lopes no Almanaque, não sendo uma colaboração muito extensa é, do meu ponto de vista, a mais interessante e de maior qualidade, pois foge à superficialidade e à tonalidade sentimental e lírica da maioria das colaborações. Sob a capa de charadas, publica, neste período, alguns dos poemas mais densos do ponto de vista da cultura histórica e clássica e de reflexão sobre a política em geral e os acontecimentos políticos do seu tempo. São, aliás poemas que nos permitem compreender seu pensamento político. Não é de facto uma colaboração muito numerosa, catorze poemas entre 1904 e 1912 (um dos quais na secção de correspondência), a que se segue um longo período de ausência, quebrado pela publicação de anos depois no ano de 1927, que é um poema-charada-resposta a um artigo da redação do Almanaque, escrito no ano anterior que o dava como desaparecido. A solução da charada é a palavra  ‘ressuscitado’ o que revela um sentido de humor que José Lopes nunca deixava transparecer. Publica em 1928, um poema de homenagem a um outro charadista, julgo que, brasileiro e tem como última colaboração, um texto de homenagem a Eugénio Tavares, em 1932, que não foi enviado por ele mas retirada de um jornal português.

                         

Por que motivo este período de silêncio? Embora José Lopes tenha tido um início de vida atribulado, (ficou órfão aos dez anos, nos cinco anos seguintes é aluno interno no Seminário; aos quinze anos vai para a Praia e assenta praça na 1ª Companhia de Polícia; dois anos depois, por motivo de doença, regressa a S. Nicolau mas tem de voltar a sair da casa materna para procurar trabalho; aos 19 anos está na Boa Vista, já casado, mas de novo obrigado a procurar emprego; vai para Angola e regressa dois anos depois gravemente doente; fica na Praia como empregado comercial e finalmente em 1894, com 22 anos é nomeado professor régio na Boa Vista; é posteriormente transferido para Stº Antão onde fica de 1900 a 1928 e onde finalmente encontra alguma estabilidade; vem de seguida para Mindelo onde reside até à sua morte. Justifica-se assim a pergunta: porque motivo José Lopes deixa de escrever no Almanaque logo a seguir à publicação de um poema de homenagem à implantação da república em Portugal, um acontecimento com que tanto sonhou?                              

 

O que se passou é que em Cabo Verde, entre 1910 e 1926, vive-se um período de grande agitação política e liberdade de imprensa (exceto no período da I Guerra) o que promoveu e permitiu a circulação de um grande número de jornais. O momento era claramente de combate político, pelo que o Almanaque perde relevância. José Lopes não estava em silêncio, colabora com poemas e artigos de opinião em quase todos os jornais da época. Mas é sobretudo no A Voz de Cabo Verde, de novo ao lado de Eugénio Tavares, onde publica o maior número de artigos em defesa dos ideais republicanos e do desenvolvimento do arquipélago.                            

 

Poderemos encontrar nos poemas publicados do Almanaque esse lado combativo de José Lopes? Como já referimos, a linha editorial da publicação não aceitava textos de caracter político mas, apesar disso, na fase final da monarquia, José Lopes publica alguns poemas que não sendo panfletários, não deixam de, com clareza, revelar os seus ideais e posições políticas.                      

 

E porque seria impossível, neste espaço, falar de todos, vou muito sumariamente referir-me a três desses poemas:                     

 

Começo por Palingenesia (que significa regeneração) soneto onde enaltece a coragem dos portugueses que lutaram para que o país saísse do pântano e da ruína em que a monarquia o tinha feito cair, e assim regressar  aos velhos tempos de glória da história de Portugal. Foi escrito em comemoração da implantação da República e é dedicado a João Chagas que ele chama de amigo. É, de facto, possível que se tenham conhecido em Angola, onde ambos estiveram em 1892. Pinheiro Chagas como degregado político, em consequência da sua luta em prol da República, e José Lopes trabalhando para ganhar a vida.  (p.111)                       

 

Também em defesa dos ideais republicanos temos o poema A morte de César, publicado no ano de 1908 (p.80-85). Como era habitual em José Lopes, utiliza um episódio da história clássica para exaltar os valores da república, da democracia e da liberdade.   

 

Acalentava ainda aqueles corações

O amor da Liberdade e o ódio à Tirania.

Roma execrava os reis:

César bem o sabia.

Sofrera-lhes outrora o altivo predomínio.

 

Mais à frente escreve que as vitórias e o poder de César pareciam tê-lo feito esquecer esses valores pelo que, no regresso triunfal a Roma, achou que poderia anunciar sem receio a morte da República… E foi esse desprezo pelo senado que conduziu ao seu assassinato e à queda do Império Romano.

                         

Não terminar sem citar um longo poema, publicado em 1906, dedicado à guerra entre o Japão e a Rússia que, dois anos, tinham disputado entre si a posse da Manchúria e da Coreia. Com navios menores, mas com grande mobilidade e um poder de fogo muito superior aos pesados e antigos navios russos, a marinha japonesa impôs uma derrota humilhante ao inimigo. Esta guerra marcou o reconhecimento do Japão como potência imperialista, pelas diversas nações da Europa, enquanto a derrota russa, por sua vez, patenteou a fraqueza do regime czarista e precipitou a sua queda. Esta é a primeira vitória de um país não-europeu contra um país europeu e José Lopes não deixa passar em branco esse acontecimento, fazendo uma certeira avaliação da importância que viria a ter na situação política mundial. É uma denúncia da tirania. É a defesa de uma nova ordem mundial. (p. 58-60) O poema abre com estes versos:

 

O Japão é a Luz e a Rússia a Escuridão: Aquele a Liberdade e esta, a Escravidão!

 

Não poderia José Lopes estar do lado da Rússia, um grande império sim, mas que no trono só tem Neros e Tibérios, e “onde o querer ser livre é merecer a morte” (…) e acrescenta:

 

Onde a oligarquia é a forma de governo;

E os rigores das leis lembram talvez o Inferno:

Onde há um só poder e um só direito – o Tzar,

 

Neste poema denuncia ainda o “egoísmo” das nações europeias que acham que em nome da civilização podem ocupar países como a China, e lança esta pergunta:

 

Porventura o Progresso, as Artes e as ideias

São apanágio só das raças europeias ?

Só o génio europeu é grandioso e bom?

 

E termina mandando “ardentes saudações” a esse “país remoto”. Não podemos deixar de ver nesta exaltação de luta de um David que não teve medo de enfrentar um Golias, a persistência do seu sonho de ver livres as ilhas de Cabo Verde.                             

 

Praticamente todos os poemas aqui publicados são hinos à liberdade, à democracia, à defesa da igualdade, e à denúncia das injustiças, e são também os poemas mais estimulantes deste volume.

 

Não tenho qualquer dúvida em afirmar que esta compilação dos textos cabo-verdianos é uma obra fundamental para todos quantos se dedicam ao estudo e investigação da história e da cultura deste arquipélago. Estes dois volumes, que reúnem a colaboração cabo-verdiana no ALLB são o resultado de um gigantesco trabalho de investigação, compilação e edição de textos que só uma grande dedicação, competência e perseverança fariam chegar a bom porto. Quero, por isso mesmo, felicitar os editores desta obra mas quero sobretudo prestar a minha homenagem ao Prof. Massa e a sua mulher a Profª Françoise Massa, que dedicaram tantos anos e tanto esforço pessoal ao estudo e à divulgação da cultura cabo-verdiana. Por tudo isto e tudo o mais, bem hajam.

 

- Ana Cordeiro

 

Mindelo, 7.Março.2014

 

Almanaque Luso-Brasileiro de Lembranças,

Presença Cabo-verdiana, 1901-1932, Vol. II

Editor: Instituto Nacional da Biblioteca Nacional e do Livro

Co-Editores: Pédagogie, Cultures et Littératures Lusographes e

Ponto & Vírgula, Edições

Mindelo, 2014

 

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