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Ilusionista Mágico do Tarrafal

Brito-Semedo, 2 Set 14

 

Cartola.jpeg

 

  

Para o Amigo Tchalê Figueira, pela sua postura crítica.

 

 

A mim cordóde N sonhá

Cabo Verde era um paraíso.

 

"Um Sonho Cordod", Morna

 

PAULINO VIEIRA

 

 

A maneira cabo-verdiana de fazer política, sobretudo na área da Cultura, com um tocador de cimbôa, muita música e truques de ilusionismo, fazendo aparecer e desaparecer da cartola projectos, eventos e instituições, leva-me evocar a figura do ilusionista do Tarrafal, o Mágico Barbosa.

 

Ser artista entre os cabo-verdianos é tido por ser alguém dotado de um certo dom, quase divino, mas também por ser sonhador, que percepciona e vive uma realidade só por si criada. Portanto, com a cabeça aérea, vivendo no mundo da lua, cheio de ideias, que ta sonhá cordóde (1), e crendo que inhame é bife (2).

 

Na impossibilidade ou incapacidade em intervir ou transformar a realidade “real”, exterior a si, o artista opta, por vezes, em fazer habilidades e truques que levem os outros a acreditar em algo que não corresponde à realidade, tornando-se num ilusionista ou tocador de flauta do conto tradicional dos Irmãos Grimm, melhor, num tocador de cimbôa (3), uma versão mais adaptada à realidade cabo-verdiana e ao interior de Santiago, para ludibriar os incautos.

 

Cimboa.jpeg

 

Nos anos sessenta/setenta do século vinte, apareceu em Mindelo o Mágico Barbosa (4) com espectáculos de ilusionismo arrastando multidões cujo ponto alto era beber a água e comer o copo de vidro! Num dessas sessões na sala do Cinema Eden Park, com o público ao rubro, o Mágico Karan (seu nome artístico) colocou a si próprio um grande desafio – comer o carro do Sr. Tuta Melo (5), um Ford Anglia, um “espada” americano descapotável de duas portas conhecido e admirado por todos, desde que o dono assim o autorizasse. O espectáculo teria lugar no estádio de futebol da Fontinha para que toda a gente pudesse assistir ao grande feito! Óóóóhhhh!!! Burburinho na sala.

 

Durante vários dias não se falou de outra coisa nas ruas da Morada. Todos queriam assistir ao grande espectáculo de ilusionismo do Mágico Karan! Sim, porque se há gente curiosa e com predisposição para acreditar em qualquer coisa, é gente de SonCent.

 

Passaram-se os dias e a verdade é que não houve o tal espectáculo de ilusionismo, provavelmente porque o Sr. Tuta Melo não terá dado a tal autorização, não fosse ele ficar sem o seu Ford Anglia!

 

Ford Tuta.jpeg

  

Só mais tarde, nos anos oitenta, voltei a cruzar-me com o Mágico Barbosa, um homem franzino e de pequena estatura, de olhos vivos e conversa fácil, na altura a residir na Vila do Tarrafal (Santiago), local para onde eu tinha acabado de ser transferido. Aí contaram-me outras estórias de ilusionismo do Mágico Barbosa, como aquela em que, estando preso na cadeia de alta segurança do Chão Bom, com um truque de mágica tornou-se invisível passando por entre os guardas saindo em liberdade.

 

A maneira cabo-verdiana de fazer política, sobretudo na área da Cultura, com um tocador de cimbôa, muita música e truques de ilusionismo – resoluções, decretos-leis, despachos, declarações de intenções e assinaturas de protocolos, feitos com conversa mansa e mãos cheias de nada – prontamente divulgados na comunicação social, fazendo aparecer e desaparecer da cartola projectos, eventos e instituições, fez-me evocar a figura desse ilusionista, o Mágico Karan.

 

 ____________

[1] “Que sonha acordado”.

[2] Expressão típica de SonCent que quer significar que se confunde coisas em si inconfundíveis, por exemplo, inhame (legume) com bife (carne).

[3] O “cimbó” ou a “cimbôa” é um instrumento musical de construção rudimentar. Tem um bojo de cabaça forrado de pele como tambor (o reflector dos sons), um braço de madeira terminado por uma caravelha, um cavalete e um arco, tendido por crinas untadas de breu, como de crinas também é a sua única corda vibrátil. Pedro Cardoso, in Folclore Caboverdeano, Porto, 1933.

[4] António Barros Barbosa (Fogo, 1935-2009).

[5] Guilherme Augusto Lima de Melo (Santiago, 1916-1999), figura mindelense muito conhecida no meio por ser o dono do Cinema Mira-Mar, ou simplesmente Cinema de Tuta.

 

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4 comentários

De Valdemar Pereira a 03.09.2014 às 19:55

Ahahah !!!


Tem piada! Ê que eu jà tinha pensado nisso.

Um obrigado e abraço com gosto holandês

De Brito-Semedo a 03.09.2014 às 20:02

Chegou cá o eco da gargalhada :-). Coisa de Mnine de SonCent! Sabe bem o abraço, que já cá fazia falta.

De Adriano Miranda Lima a 05.09.2014 às 15:42

É um recado certeiro e com alvo inconfundível, dado com imaginação criativa e aquela pitada do humor bem típico da cidade do Mindelo. Mas, para além disso, contém matéria para reflectirmos sobre certo prosaísmo bacoco e ligeireza artificiosa com que em muitos casos se faz política na nossa terra. Mais ainda, não se justifica um ministério da cultura em Cabo Verde, quanto muito uma secretaria de estado. A sua existência assemelha-se a um balão inflamado com gases de vaidade e presunção, pairando sobre o ar morno e pacato da nossa terra,  longe, por isso,  de ser um órgão de governação justificado pela dimensão e complexidade dos problemas de cultura cabo-verdianos.

De Carlos Filipe Gonçalves a 23.09.2014 às 10:43

Quando o assunto é delicado o silencio, digo a falta de comentários é de ouro... É assim a nossa malta, ninguém arrisca... o mágico poderá tirar um coelho da cartola, cuspir lume a queimar um coitado! Os meus parabéns ao BS, por esta prosa cheia de humor, atualidade e recordações do passado! Que bela fotografia...
Aquele abraço de Kalu de Nhô Roque, também conhecido por Carlos Gonçalves

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