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A literatura cabo-verdiana, com reconhecida qualidade, sempre produziu um número reduzido de obras literárias enquanto tais. Desde os seus primórdios ela preferiu apoiar-se na imprensa periódica – revistas e folhas literárias – e, apesar do facto de no período pós-independência se ter dado um grande impulso à publicação de livros, continua a desenvolver um papel importante, sobretudo na descoberta de novos valores.

 

Entre a temporalidade visada pelo livro e o efémero que é o destino do jornal, a revista representa a continuidade do social que, ao mesmo tempo, ajuda a moldar.

 

É propósito deste trabalho lançar uma visão diacrónica sobre a imprensa cultural e social produzida em Cabo Verde indo ao “umbigo” e à ilha de São Nicolau, percorrendo um horizonte temporal que vai de 1901 até aos nossos dias, pouco mais de um século.

 

Por uma questão metodológica e prática, essa imprensa foi organizada em (i) Almanach e revista A Esperança; (ii) órgãos literários e culturais; (iii) órgãos socioculturais regionais e (iv) órgãos socioculturais femininos.

 

ALMANACH E REVISTA A ESPERANÇA

 

Antes, muito antes, havia os almanaques… O Almanach Luso-Brasileiro circulou em Cabo Verde de 1851 a 1932, tendo sido Antónia Pusich (São Nicolau, 01 Outubro 1805 – Lisboa, 6 Outubro 1883) o primeiro escritor de Cabo Verde, e mulher, a ali publicar no seu número de 1854, tendo-se seguido outras colaborações.

 

Com o conhecimento desse tipo de publicação, aliás, muito em voga na época, decidiu-se em Cabo Verde por editar um almanaque cujo programa seria “Instruir, Educar e Recrear”.

 

Almanach Luso-Africano
Propriedade: António Manuel da Costa Teixeira
Local: São Nicolau, 1895 e 1899. Dois números
Direcção: António Manuel da Costa Teixeira
Periodicidade: Anual

 

Almanach Luso-Africano Ilustrado para 1895 – Contendo Varias Tabellas e Regulamentos de Utilidade Publica e Pratica
Calendario, - Miscellanea Literaria, Scientifica, Recreativa, Historica, Musical, Etc, Etc.

 

Almanach Luso-Africano para 1899 – Annuario Ultramarino
Encyclopedico e Illustrado com Photographias Desenhos e Musicas Indigenas
Dedicado á Juventude de Portugal, Brasil e Colonias Portuguezas

Repartido em "Agenda" e "Miscellanea", o almanaque reuniu uma larga diversidade de campos de informação útil e de lazer em domínios de índole enciclopédica.

 

O Almanach Luso-Africano para 1899 teve um desdobramento.

 

A Esperança
Revista Colonial, Popular, Encyclopédica
Propriedade: Almanach Luso-Africano
Local: São Nicolau, Janeiro a Dezembro 1901. Doze números
Direcção: António Manuel da Costa Teixeira
Periodicidade: Mensal

 

Perante a abundância e a qualidade do material literário recebido, a direcção do Almanach Luso-Africano decidiu publicar um suplemento literário, transformando-se numa revista mensal, autónoma, que viria a sair regularmente durante um ano, tendo sido a primeira revista literária cabo-verdiana.

 

ÓRGÃOS LITERÁRIOS E CULTURAIS

 

Claridade
Revista de artes e letras
Propriedade: Edições Claridade
Local: São Vicente, Março 1936 a Dezembro 1960. Nove números
Direcção: Manuel Lopes / João Lopes
Periodicidade: Não periódica

 

Embora sem um programa expresso, o movimento literário que surgiu em 1936 com a Claridade, irrompeu com o propósito de “fincar os pés na terra cabo-verdiana”. É evidente a alegoria de corpo inteiro: com a cabeça para pensar a literatura que deveria convir à terra que os pés pisavam.

 

O seu núcleo fundador e dinamizador foi constituído por Baltasar Lopes (São Nicolau, 1907 – 1989), Jorge Barbosa (Santiago, 1902 – 1971), Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005) e João Lopes (São Nicolau, 1894 – 1979).

Certeza
Fôlha da Academia
Propriedade: Academia Cultivar
Local: São Vicente, Março 1944 a Janeiro 1945. Três números
Direcção: Eduíno Brito Silva
Periodicidade: Não periódica

 

Eram membros da Academia: Eduíno Brito Silva, José Mateus Spencer, Guilherme dos Reis Rocheteau, Nuno Álvares de Miranda, Orlanda Amarílis Rodrigues, Arnaldo de Vasconcelos França e Tomás Dantas Martins. Posteriormente, em 1944, os membros da Academia com mais vocação literária decidiram criar uma folha, tendo surgido a Certeza – Fôlha da Academia, com o propósito de ser um marco – “uma lápide que contará tudo aquilo que nos animou na aleluia deslumbrante dos nossos dezoito anos...”.

 

Cabo Verde
Boletim de Propaganda e Informação
Propriedade: Publicação da Imprensa Nacional
Local: Praia, Outubro 1949 a Julho-Setembro 1963. Cento e setenta e sete números
Direcção: Dr. Bento Levy
Periodicidade: Mensal

 

No campo literário e científico, a revista fez História. Todos, ou quase todos os intelectuais cabo-verdianos colaboraram nela. E não se limitaram a escrever textos literários. Escreveram sobre linguística, sociologia, arte e História de Cabo Verde. Promoveram-se concursos que revelaram novos valores das letras e do jornalismo cabo-verdiano, basta dizer que foi no Cabo Verde que fizeram a sua estreia literária na imprensa escritores como Gabriel Mariano, Terêncio Anahory, Jorge Pedro Barbosa e Francisco Lopes da Silva para só citar os primeiros entre dezenas de outros que, ao longo dos anos, ir-se-iam revelando nas páginas do boletim.

 

Suplemento Cultural N.º 1
Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação
Propriedade: Publicação da Imprensa Nacional
Local: Praia, Outubro 1958. Número único
Direcção: Dr. Bento Levy
Periodicidade: Não Periódica

 

Para comemorar a entrada do Cabo Verde no décimo ano da sua publicação, um grupo de estudantes universitários em Lisboa e Coimbra reuniu uma série de trabalhos para um “Suplemento Cultural”. Faziam parte desse grupo Aguinaldo Brito Fonseca, Francisco Lopes da Silva, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Carlos Alberto Monteiro Leite, José Augusto Monteiro Pinto, Sylvia Crato Monteiro, Terêncio Anahory e Yolanda Morazzo.

 

Uma nota-manifesto de abertura, assinada por Carlos Alberto Monteiro Leite, dá conta da determinação desses jovens: “Com a publicação deste suplemento, de que agora aparece o 1.º número, também queremos acender, com o maior alvoroço, um farol nos mares das nossas Ilhas, dando sinal à navegação de que estamos vivos e atentos”.

 

Raízes
Propriedade: Edições Raízes
Local: Praia, Janeiro/Abril 1977 a Junho 1984. Vinte e um números
Direcção: Arnaldo França
Periodicidade: Trimestral

 

Foi a primeira revista do teor após a independência e entre os novos países africanos de língua oficial portuguesa.

A Revista Raízes contou com a colaboração de um grupo de intelectuais que pretendia fazer dela “a voz autêntica dos criadores cabo-verdianos”. Colaboraram na revista nomes como Baltasar Lopes da Silva, António Aurélio Gonçalves, Félix Monteiro, Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Ovídio Martins, Corsino Fortes, João Varela, T. T. Tiofe, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, Maria Margarida Mascarenhas, Oliveira Barros, Tacalhe, Armando Lima, Jr., João Rodrigues, Vera Duarte, entre outros.

 

Ponto & Vírgula
Revista de Intercâmbio Cultural
Propriedade: Alternativa
Local: Mindelo, Fevereiro/Março 1983 a Dezembro 1987. Dezassete números e um especial
Direcção: Germano Almeida, Leão Lopes, Rui Figueiredo
Periodicidade: Bimestral

 

A revista foi fundada e mantida por um grupo de independentes que procurou, desde o início, demarcar-se do poder.

 

Sendo o ponto e vírgula “uma pausa maior que a vírgula e implica uma paragem, […] optámos por parar e repensar a nossa cultura, a nossa vivência, a nossa identidade, a nossa maneira de estar no mundo”. O P&V apresentou-se com leveza gráfica, de forma inovadora e a cores, “nada de preto no branco, como se a ilha estivesse cheia de vozes”, arejada e com artigos de nível de qualidade.

 

A revista Ponto & Vírgula teve o mérito de congregar no seu seio colaboradores de todas as gerações literárias desde Baltasar Lopes, António Aurélio Gonçalves, António Carreira, Félix Monteiro, Rendall Leite, passando por Luís Romano, Teobaldo Virgínio, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, João Rodrigues, João Lopes Filho, Romualdo Cruz, Filinto Barros, Francisco Tomar/Sucre D’Sal, Oliveira Barros, Daniel Pereira, chegando à mais nova geração como Vera Duarte, T.V. da Silva, Vasco Martins, Luís Martins, José Vicente Lopes, Canabrava, Nicolau de Tope Vermelho ou Mário Lúcio.

 

Fragmentos
Revista de Letras, Arte e Cultura
Propriedade: Movimento Pró-Cultura
Local: Praia, Agosto 1987 a Dezembro 1997. Quinze números
Direcção: José Luís Hopffer C. Almada
Periodicidade: Trimestral

 

Fragmentos propunha ser “a expressão dos diferentes retalhos constitutivos da nossa cultura nacional cabo-verdiana, residindo aí a pertinência do seu nome de batismo, sem distinção, sem descriminação, sem complexo de ‘igreja’ ou ‘escola’, mas também sem ecletismo medíocres redutores da qualidade ou do cariz identificador e sem veleidades maximalistas”.

 

Os principais colaboradores foram os jovens do Movimento Pró-Cultura, nomeadamente, Alírio Kinóru, Binga, Canabrava, Eurícles Rodrigues/Dany Spínola, Filinto Elísio, José Luís Hopffer Almada/Zé di Sant’Yagu, Mário Lúcio, Valdemar Velhinho, e muitos outros que viram nessa revista uma oportunidade para divulgar os seus trabalhos, Dina Salústio, Jorge Tolentino, José Vicente Lopes, Káká Barbosa, Manuel Veiga, Marino Verdiano, Tomé Varela, Vasco Martins, Vera Duarte, sem deixar de incluir a geração mais antiga e já consagrada como Arnaldo França, T.T. Tiofe, G. T. Didial, Luís Romano, Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Mário Fonseca, Jorge Carlos Fonseca, Oliveira Barros e Tacalhe.

 

Artiletra
JORE/Jornal-revista de Educação, Ciência e Cultura
Propriedade: Edições Artiletra
Local: Mindelo, Abril 1991 a Outubro/Novembro 2016. Cento e trinta e nove números (activa)
Direcção: Larissa Rodrigues
Periodicidade: Bimestral

 

Jornal-revista com maior longevidade na história da imprensa em Cabo Verde. Artiletra publica artigos, ensaios e ficção literária (incluindo poesia) de prominentes escritores cabo-verdianos, cobrindo tópicos que incluem cultura cabo-verdiana, educação e ciências.

 

Pré-Textos
Ideias & Cultura
Propriedade: Associação de Escritores Cabo-verdianos
Local: Praia, Outubro 1991 a Maio 2015
Direcção: Danny Spínola
Periodicidade: Trimestral

 

Revista com o objectivo fundamental de “divulgar e incentivar criações literárias, ensaios, críticas, perfis e ideias sobre vários temas e assuntos da vida cabo-verdiana”.

 

Sendo um órgão da Associação de Escritores Cabo-verdianos, os colaboradores são os mesmos das revistas anteriores, ou seja, os antigos e os novos escritores.

 

Uma revista com vida longa, mas marcada por períodos de ausência.

 

KCultura
Revista de Investigação Cultural e de Pensamento
Propriedade: Ministério da Cultura
Local: Praia, Setembro 1997 a Setembro 2001. Dois números e um especial
Direcção: Ondina Ferreira
Periodicidade: Semestral

 

“Será esta particularidade da Revista que ora vos apresentamos, o de vivificar, ao abordar através da escrita, aspectos, modos e entendimento da arte, da história, da literatura e das ciências e da apropriação que disso faz a nossa cultura mestiça”.

 

Foram colaboradores da revista Elisa Andrade, Dulce Almada Duarte, Oswaldo Osório, Mário Fonseca, Moacyr Rodrigues, João Lopes Filho, Verónica dos Reis Freire, Humberto Lima, António Germano Lima, Carlos Belino Sacadura, João Branco, Manuel Veiga, António Leão Correia e Silva, Zelinda Cohen, José Maria Semedo, José Luís Hopffer Almada, T.V. da Silva, Daniel Pereira, Danny Spínola, Fátima Bettencourt, Charles Akibodé, Manuel Brito-Semedo.

 

ANAIS
Academia de Estudos de Culturas Comparadas
Propriedade: AECCOM
Local: Mindelo, Abril 1999 a Abril 2001. Vol. 1 (3 n.ºs), Vol. 2 (3 n.ºs) Vol. 3 (1 n.º). Sete números
Direcção: J. M. Varela
Periodicidade: Quadrimestral

 

“Esta Revista (…) está aberta a todos os universitários em busca dum espaço para trabalhos originais elaborados segundo os parâmetros aqui definidos (…) solicitando colaboração sobretudo a nacionais, vivendo no país ou na diáspora, ela entende incentivar os nossos compatriotas a escrever trabalhos científicos”.

 

Novas Letras
Revista de Letras Arte e Cultura
Propriedade: Academia Cabo-verdiana de Letras
Local: Praia, Julho 2016. Um número (activa)
Direcção: Danny Spínola
Periodicidade: Semestral

 

Novas Letras, que se vai pautar por um percurso de publicações de temática variada sobre as letras cabo-verdianas, com ensaios e investigações sobre a literatura e a cultura, recensões sobre obras publicadas ou a publicar, sendo, ao mesmo tempo, um espaço para manifestos sobre algumas questões pertinentes relacionadas com a literatura e os escritores em geral”.

 

O número inaugural é uma homenagem ao Académico e Poeta Oswaldo Osório.

 

Continua – Parte II

 

- Manuel Brito-Semedo

 

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