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O Município da Ribeira Grande está hoje a escrever uma nova página na sua já longa história, enquanto berço da cabo-verdianidade, da cultura e da Igreja Católica.

 

Louvo a iniciativa e a visão da equipa camarária por este projecto cultural, que vai para além das actividades recreativas efémeras de massas, como são os festivais de música, onde se tem gasto milhares de contos sem qualquer retorno.

 

Recordo que a suspensão da Feira do Livro Português em 2010, transformado em Feira da Palavra, a partir de 2011, inviabilizou o projecto da Rede Nacional das Bibliotecas, que era suportado financeiramente pelas receitas da Feira do Livro e que tinha como propósito a promoção do livro e da leitura. Essa Rede chegou a apoiar, de 2000 a 2007, a criação das Bibliotecas Municipais Públicas da Ribeira Brava (São Nicolau), do Tarrafal (Santiago), de São Filipe (Fogo), dos Espargos (Sal) e da Nova Sintra (Brava), com equipamentos, livros e formação de técnicos de biblioteca.

 

Para além dessa iniciativa, resultado da parceria entre o Poder Central e o Poder Local, houve iniciativas municipais louváveis como a refundação da Biblioteca Municipal de São Vicente, em 1996, no âmbito de uma parceria com a Câmara Municipal de Oeiras (Portugal) e as Bibliotecas Municipais de Sal-Rei (Boa Vista) e de Santa Cruz (Santiago), de iniciativa local.

 

Não tenho informações sobre o funcionamento dessas bibliotecas, mas imagino que estejam a precisar de apoio e de novos incentivos.

 

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A presença do Senhor Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas a presidir este acto singelo, mas de profundo significado, dá-nos algum conforto e a esperança de que haverá uma nova arrancada e que é desta vez!

 

O Programa de Governo para a área preconiza o “Incentivo às áreas da Literatura, Publicações e Bibliotecas de modo a estimular a leitura pública e reforçar a política editorial, bem como, a instituir prémios literários a nível nacional, regional e local e a descentralizar e redinamizar as feiras do livro para todo o país”. Daqui a cinco anos cá estaremos para cobrar isso do Governo.

  

Recua aos primórdios do estabelecimento das ordens religiosas na antiga Ribeira Grande, no retiro conventual, embora de privada utilidade, a organização de uma “sumptuosa” biblioteca, que, com os azares dos tempos, a pirataria e os assaltos vieram destroçar, desfazendo-se os seus restos ainda pelo século dezanove (Figueiredo, 1951).

 

O “Tombo Velho”, primeiro arquivo da cidade da Ribeira Grande, desapareceu quando, em 1585, Francis Drake, saqueou e incendiou a cidade. Para além disso, o Bispo D. Fr. Pedro Jacinto Valente (1754-1774), tendo-se transferido para Santo Antão, deixou arruinar inteiramente o paço episcopal da Ribeira Grande. Logo que esse prelado aportou a Santo Antão, a 22/02/1755, mandou pelo seu mordomo vender a mobília e “até os livros da livraria do mesmo. [...]. Ficou assim o paço esvaziado, com as portas escancaradas [...] e assim foi caindo tudo a pedaços, ficando totalmente em ruínas ao cabo de 19 anos” (Barcellos, 1905, p. 20).

 

Só mais tarde, em 1857, a Portaria de 28 de Março viria ordenar aos Governadores-Gerais das Províncias Ultramarinas que “promovessem a fundação de uma Livraria das principais obras de História, administração, qualidade e de outros assumptos que teem relação mais ou menos imediata com a governação do Estado”.

 

Os passos efectivos para a materialização dessa Portaria foram dados, primeiro, com a inscrição de uma verba precisa na Tabela de Despesas, para o ano fiscal de 1870-1871, para a dotação de uma Biblioteca e Museu na capital da Província e, na sua sequência, com a publicação de uma Portaria do Governo-Geral, datada de 14 de Janeiro de 1871, que criava uma Comissão Directora da Biblioteca e Museu Nacionais, com a incumbência de elaborar um projecto de regulamento e ter a seu cargo a direcção destes estabelecimentos.

 

Foram precisos quase dois séculos para que a Ribeira Grande voltasse a ter uma biblioteca, desta vez municipal e pública. É obra! O pior é o município da capital não ter uma única biblioteca municipal, contentando-se apenas em albergar a Biblioteca Nacional. Daí ter dito no início que se esteja a escrever hoje uma nova página na história deste município.

 

Na minha função de professor universitário lido diariamente com a frustração da falta de preparação dos nossos estudantes derivado à escassez de leitura. Ultimamente tenho estabelecido que, nas minhas disciplinas, das duas avaliações semestrais, uma delas é, obrigatoriamente, a leitura integral de uma obra de especialidade e não apenas artigos ou capítulos de livros em sistema de fotocópia.

 

Outro dia choquei esses meus estudantes com a seguinte frase: “uma pessoa que não lê não é muito diferente daquela que não sabe ler”. Espero que isso surta efeito.

 

Antes de terminar, quero deixar um apelo às autoridades aqui apresentes e aos munícipes da Ribeira Grande de Santiago, particularmente aos de São Martinho Grande, que invistam na manutenção e na conservação desta biblioteca municipal, no seu apetrechamento em livros e na promoção da leitura, na mesma atitude do agricultor que planta árvores fruteiras e tem de esperar algum tempo para a ver produzir e em abundância.

 

Não nos esqueçamos que “uma pessoa que não lê não é muito diferente daquela que não sabe ler”.

 

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Manuel Brito-Semedo (Texto)

Odair Varela (Fotos)

 

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2 comentários

De Djack a 06.07.2016 às 09:43

Post altamente reconfortante. Uma pessoa lê isto, suspira e pensa: "Ainda há esperança!..." Nós que amamos os livros, as bibliotecas, os arquivos e os documentos (e até o seu incomparável cheiro a pó), por vezes desesperamos com o desinteresse das autoridades de tutela pelos mesmos. Mas aqui na Ribeira Grande fez-se luz... mais uma vez. E um "ubrigadim" ao Manuel Brito-Semedo pelo discurso e pela divulgação deste singular evento. Como recompensa, irá ter uma prenda daqui a momentos, através de email.

Braça,
Djack

De Joaquim ALMEIDA a 09.07.2016 às 19:08

Inauguraçao da Biblioteca Municipal da Cidade Velha !..Repito essas palavras porque faz me lembrar apos ter feito a " quarta classe " , com os meus 12 anos de idade , isso em 1943 , nao havendo possibilidades financeiras em casa para que eu pudesse continuar os meus estudos , ( coisa que eu gostaria ) , eu ia à biblioteca municipal de Sao Vicente situada no prédio da Câmara Municipal , do lado direito em frente ao pilorinho de verdura !..Lembro-me perfeitamente , com poucos livros que havia naquele tempo e que era proibido emprestar livros para levar para casa !..A biblioteca fechava às 21 horas e éramos poucos os que a frequentava !..Hoje é diferente , e ainda bem ; haja leitores , cada vez mais leitores para se informar da existência do nosso pais , do arquipèlago de Cabo Verde , a maneira e os sacrificios que se deram na construçao da sua historia !..Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

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