Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

 

_DSC5186.jpg

 Foto José Matos Alves

 

 

Antes de mais, dizer do prazer e da honra que é estar aqui a participar na apresentação do livro de Manuel Brito-Semedo, Esquina do Tempo.

 

Um prazer e honra redobrados por estar ao lado do professor Alberto Carvalho, um estudioso da literatura cabo-verdiana, que veio de longe, não tão longe assim, para estar connosco.

 

Cumprimentar a Dra. Lígia Pinto, Administradora da empresa que tutela o Jornal Expresso das Ilhas pela sua política de promoção do livro e da leitura, com a publicação de livros, em edições bonitas e a um preço simpático.

 

Finalmente dizer ao Brito-Semedo que apreciei muito que ele tivesse aceite a minha sugestão para ser eu a apresentar-lhe o livro. É que eu desconfiava que ele queria que fosse de novo a minha amiga Fátima Bettencourt a desempenhar a função de apresentadora, de modo que... o resto já sabem.

 

O Manuel já nos habituou a ver nele não só um senhor da investigação da história e da cultura cabo-verdianas, como um escritor de crónicas com uma narração coloquial onde o humor e o oportunismo crítico fazem parte das personagens e situações, bem no estilo do autor, mas também do povo destas ilhas. Ou, se quisermos, dos povos destas ilhas.

 

Lançamento Esquina 1.jpg

 

Neste livro, o autor traz-nos uma cuidadosa recolha de trabalhos já publicados no jornal Expresso das Ilhas que versa variados temas de índole literária, cultural e etnográfica, fala de memórias e conta histórias. Sobre Cabo Verde, sobre a literatura e a cultura; sobre personalidades, personagens e pessoas comuns; sobre costumes e épocas, acontecimentos importantes do país. Fala dos faits divers ou das “riolas” (intrigas), da cidade. Faz relatos de viagens pela vida e com isso entra, na infância e na juventude e, necessariamente, ao referir esses temas traz à baila a saudade, ou não fossemos uma nação trabalhada na saudade.

 

Ano de 2017. Porque será que neste presente ano em tudo que é oportunidade, falamos de um tempo, mais precisamente de cem ou cento e cinquenta anos, ou mesmo oitenta, como se 20, ou mesmo 40 anos, os tais quarenta óne da praxe do capacete, crónica deste livro, pag. 24. nada significassem ou, pelo menos, pouco significassem?

 

Simplesmente porque temos estado a comemorar nestes últimos tempos, vai para mais de um ano, de forma intensa, agradavelmente intensa, aliás, uma série de notáveis acontecimentos, como os cento e cinquenta anos do nascimento de Eugénio Tavares, o patrono do dia da Cultura de Cabo Verde e meu imortal na Academia Cabo-verdiana de Letras; os cento e cinquenta anos da fundação do Seminário Liceu de São Nicolau; os cem anos do Liceu de São Vicente; os oitenta anos de Claridade, os aniversários dos externatos de São Nicolau e Santo Antão; enfim, uma série de datas importantes entre outras, muitas delas ligadas à nossa formação e à nossa identidade nacional.

 

Se refiro essas comemorações é porque, para já, constituem, de uma forma ou doutra, matéria deste livro, depois porque também o Professor Brito-Semedo tem estado envolvido nelas, quer como mobilizador, participante ou assistente interessado, sempre à volta das componentes científica e literária.

 

Aproveito para te dizer, que a tua obra, tese de doutoramento, Construção da Identidade Cabo-verdiana é um dos meus livros de cabeceira. Se o dizer isto vale alguma coisa.

 

É certo que se a história nos fornece a verdade dos factos que acontecem, ou se a isso almeja, somente e apenas a literatura nos dá a verdadeira dimensão do mundo. Na verdade, a literatura, mesmo quando aborda factos que pertencem à História, dá-lhes o cunho humano, aborda o lado psicológico, atribui-lhes defeitos e virtudes e apresenta-os com personagens com vidas, histórias e nomes, com risos, falas e dores. Ou, como dizer: os factos perdem o peso e a grandeza da História e tomam a humanidade e a ternura dos dias.

 

Por isso, e a meu ver, este livro vai fazer parte da nossa história. Não que a História seja a súmula de pequenas histórias, longe disso. O que me parece é que compondo a história de uma ilha, ou de uma cidade, ou de apenas uma comunidade, esses relatos dão vida à nossa história, completam os perfis e levam-nos a ver a História com olhares mais humanos, mais participativos e mais senhores dessa História.  

 

Eu, ao tempo costumo dar horas, minutos, séculos, gosto dos séculos, sonhos, saudades, chuva e desejos. Dou-lhe, às vezes, alguma responsabilidade por dores, desconfortos e até certas tristezas. Não lhe dou esquinas. Nunca lhe dei esquinas.

 

O Manuel dá-lhe esquinas e com isso transforma o tempo em algo palpável, concreto, visível onde se se pode encostar, para “descansar o corpo” como se diz na minha ilha de Santo Antão; ou para comentar o quotidiano, que é, como quem diz, falar “mal de gente”; ou para “tomar um rumo”, ou para “pôr um boné” (para o professor Alberto Carvalho: quando duas pessoas se encontram numa rua, numa esquina, em São Vicente e uma delas conta uma novidade, diz-se que “ela está a pôr um boné à outra”. Possivelmente terá algo a ver com a expressão tão portuguesa “enfiar um barrete”, mas será um parentesco longínquo, já que pôr boné não é necessariamente uma mentira. É uma “fninha”, uma mentirinha, uma “fofoca”, se quisermos.

 

O Manuel, que imaginava ser neto de um ilustre cidadão de São Nicolau, se possível brasonado, sai à procura das raízes, visita arquivos, registos e bibliotecas, sobe montanhas e desce ribeiras, pergunta a Deus e ao mundo, consulta gente antiga emigrada e acaba por descobrir que, na realidade, o avô, pai de Mãi Xanda, não teria  brasões e era apenas um simples – simples com todo o respeito, Manuel –  “cabrere” da Boavista. Assim, ficou o nosso escritor sem as mordomias sonhadas, embora, convenhamos, com muitos brasões, conquistados.

 

Mas a propósito, dizer-te, Brito-Semedo, que eu acho que mais de oitenta por cento do cabo-verdianos andam atrás de um nome célebre, uma raiz brasonada para o seu nome, um título, se possível real.

 

Aconteceu comigo aqui há uns poucos anos dizer para o meu neto: “Sabes, Salústio é um nome importante”.

  

Ele olhou para mim, sem compreender a minha ideia e disse-me: – “sei é o nome do pai”.

 

Nesse instante apercebi-me que o que é importante não é o nome que a gente recebe, mas o nome que deixamos aos nossos filhos.

 

“Cabrere” – para quem não saiba – é um pastor de cabras, animal que ficou célebre na ilha da Boavista pela sua carne e pelas peles secas ao sol para exportação, e pelo fabrico do melhor queijo de cabra do mundo. Sim, claro, em Santo Antão faz-se o segundo melhor queijo de cabra do mundo e, aqui na Praia, a melhor linguicinha do mundo, três argumentos promessa para uma tarde bem passada.

 

Desculpem os exageros, mas é da condição de ilhéu.

 

Ao ler este livro sei que, como eu, o leitor irá encontrar um bom motivo para parar nestas esquinas ou nestas páginas do tempo, folheá-las com alegria, com curiosidade, e deixar-se seduzir pelas personagens e pelos recortes de factos ligados à nossa cultura.

 

As matérias abordadas nas crónicas não são assuntos privados do Brito-Semedo – não são tua propriedade, Manuel. São intimidades, ou não intimidades nossas, coisas de épocas, questionamentos sobre a sociedade e a sua evolução, inquietações do nosso tempo, porque como sabemos todos, o mundo privado de cada uma das ilhas é comum às outras, e eles confundem-se de tal forma que ao ler alguns desses textos, independentemente do nosso lugar de nascença, ficamos com a certeza de conhecer os intervenientes, as situações, as palavras que foram ditas e sobretudo aquelas que não foram ditas. Apenas algumas vezes os finais se alteram:

 

A estória que eu sei teve um fim diferente – dirá um leitor. É esta possibilidade de recontar a mesma história, através de um final ou localidade diferentes que torna tão grande cada uma das nossas pequenas ilhas, tão diferente cada uma das noites.

 

Sim, porque as histórias são mais saborosas à noite. Se calhar porque não há tanto calor, ou porque, ao não se ver bem o falante contador, ele toma a dimensão de uma autoridade, ou de um mito. Ou se calhar porque, como comenta o Manuel e se diz nas ilhas: contar histórias durante o dia faz as pessoas ficarem com “oi pelóde”.

 

Escrevi há uns trinta anos que uma pessoa só pertence a uma cidade, a um lugar, quando tem uma esquina onde poisa, onde encontra amigos, onde pára para “tomar um rumo”. E por isso – escrevi – que Paris ou Londres não são as minhas cidades, por muito que eu goste delas. As minhas cidades são estas, da nossa terra, de todas as ilhas, cheias de esquinas, lembranças e magia.

 

Apresentar um livro, amigos, é até certo ponto responder a expectativas não só do autor mas do público que o veio prestigiar. É também trazer alguma novidade, algum conhecimento, além da obra, ou melhor, juntamente com a obra. Por isso deixo a palavra a quem desses assuntos entende, o meu amigo, ilustre professor Alberto Carvalho. Parabéns Manuel Brito-Semedo.

 

Dina Salústio, Escritora

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Wilson Candeias

    Caro Professor Brito SemedoCabo Verde precisa de p...

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

Powered by