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João Branco e o Autor. Foto Janaína Alves Branco

 

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- Ana Cordeiro

 

No longínquo ano de 1989, encerrei a minha primeira apresentação de um livro, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida, com as seguintes palavras: resta apenas juntar-me ao autor e ao personagem na homenagem que prestam a Mindelo já que, embora nascidos e criados noutras paragens, encontrámos, nesta cidade fundeada em porto de águas mansas, o sentimento de termos sido adoptados.

 

É verdade, fui adoptada há 29 anos e 4 meses, tendo então descoberto que Mindelo é como aquelas extraordinárias e admiráveis mulheres cabo-verdianas que criam os seus filhos, os filhos que os maridos fazem por fora e que ainda acolhem no seu lar, crianças abandonadas, viajantes transviados e professoras portuguesas. E, com a graça de Deus, todos se criam, passando pelas mesmas dificuldades partilhando o mesmo afecto.

 

Não poderia, por isso, recusar participar nesta verdadeira homenagem a Mindelo que é o lançamento do livro Na Esquina do Tempo. Além disso, como escreve Germano Almeida no prefácio ao livro, impossível dizer não ao sempre amável Brito-Semedo. Mas a minha relação com o autor vai muito para além da troca de amabilidades. Conhecemo-nos há mais de trinta anos, quando ele, jovem Pastor Nazareno, colocado em Stª Catarina ― querendo terminar o curso complementar dos liceus ― se cruzou comigo, jovem professora de filosofia no Liceu Domingos Ramos. Tempos depois reencontrámo-nos, quando ele acedeu ao convite do Embaixador Fernandes Fafe, para participar numa homenagem ao escritor António Pedro, feita nos Centros Culturais Portugueses da Praia e do Mindelo em julho de 1987. Nos anos noventa voltámos a cruzar-nos quando a Ilhéu Editora editou os dois volumes da obra Caboverdianamente Ensaiando, Ensaios sobre a Literatura Cabo-verdiana que já revelavam a sua vocação de ensaísta e de divulgador apaixonado de temas da história cultural cabo-verdiana (e por isso mesmo veio a ser condecorado com a Medalha do Vulcão, em 2010). Mais recentemente, quando fazia investigação para a minha dissertação de mestrado, pude confirmar a generosidade com que partilha informação e até documentação inédita. Por tudo isto, e pela admiração que tenho pelo trabalho de Brito-Semedo, aceitei fazer o lançamento de Na Esquina do Tempo. Crónicas de Mindelo. Foi com muito prazer que li o livro e com maior prazer ainda que verifiquei ser a cara do autor. Desculpem-me esta forma tão pouco curial de classificar um livro, mas quem conhece a obra de Brito-Semedo e a sua personalidade, percebe o elogio.

 

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Mas eu explico: o livro está dividido em duas grandes partes: Memórias Vividas e Memórias Partilhadas que por sua vez se subdividem em vários capítulos e subcapítulos. Na primeira parte temos Crónicas de um tempo (textos autobiográficas e literários), Postais de Mindelo (textos de caracter mais ensaístico, memorialista ou de opinião), e ainda um conjunto de Apresentações de livros sobre Mindelo, que mais do que simples apresentações, são verdadeiras lições de história sobre diferentes aspectos da vida da cidade. Esta parte do livro, mais do que a cara de Brito-Semedo, é ele próprio. A sua vida, as memórias dos lugares onde nasceu e cresceu, das vozes da sua infância. Memórias revisitadas por um novo olhar, de adulto, de investigador social, de activista cultural. Pon d’trança de Niclet é um delicioso exemplo. Nesta crónica reencontramos a vida de Mindelo dos anos sessenta, uma vida de pobreza sim, mas que tinha o privilégio de matar o jejum com o sabor e o cheirinho bom do pon d’trança, quentinho a sair do forno. Na altura, Mindelo tinha seis padarias (de Matos, de Jonas, de Marçal, de Anton Djudjin, de Lucas e a Padaria Central de Niclet) o que revela a importância do pão na alimentação e na vida económica da cidade, tendo contribuído para a sobrevivência de muitos e para a riqueza de alguns, como Nhô Niclet, que apesar de ser proprietário de um espampanante Mercury verde-escuro, nunca conseguiu realizar as suas ambições sociais. Mas a cidade não se dividia apenas entre ricos e pobres. Na crónica Humor com sabor a … brocklax, a estratificação social mindelense é clarificada: ficamos a saber que havia os filhos de pais-remediados que iam estudar para o Liceu Gil Eanes, havia os filhos-de-pouco-mais-ou-menos que iam para a Escola Técnica e os filhos-de-pobreza que iam aprender a ter uma profissão. E o autor fornece-nos a lista das oficinas mais importantes de Mindelo, para onde os rapazes iam ser aprendizes e a lista das casas para onde iam as meninas aprender corte e costura, culinária e outras sabedorias domésticas (p. 29).

 

Mas o que faz de Brito-Semedo um cronista ímpar, é a leveza com que escreve as suas memórias, a fluidez da escrita, a forma como incorpora as vozes em crioulo. E é claro, o delicioso sentido de humor, bem mindelense, que ele herdou, e uma extraordinária capacidade de comunicação, essa aprendida em dois livros: Como Falar em Público e Como Fazer Amigos, que considera terem sidos os mais úteis que leu. Não duvidamos.

 

A segunda parte do livro, Memórias Partilhadas, é constituída por textos de outros escritores, colaboradores do seu Magazine Cultural Online. Trata-se de um conjunto de crónicas tão diversas quanto os seus autores, mas que têm em comum o facto de terem Mindelo como fonte de inspiração. Falar sobre todas estas crónicas não caberia numa única apresentação porque se trata de um conjunto muito variado de textos ― literários, memorialistas, de homenagem, de investigação histórica ―  que são, sem dúvida, um valioso contributo para a literatura cabo-verdiana e para a construção de uma história local. Esta segunda parte termina com um pequenino tesouro, um conjunto de crónicas radiofónicas, de 1957, intituladas Cabo Verde ‐ Visto por caboverdeanos, resgatadas do arquivo da Rádio Barlavento. Escritas por figuras ímpares da cultura cabo-verdiana, revelam, apesar da distância temporal que nos separa, uma actualidade que nos obriga a reflectir profundamente (p.215). São também uma chamada de atenção para a necessidade de preservarmos, tratarmos e divulgarmos os arquivos que ainda sobrevivem. E por isso, esta segunda parte do livro, que não foi escrita por Brito-Semedo, é também a sua cara. Revela a sua preocupação em salvar e partilhar o nosso passado e revela ainda a sua capacidade para reunir, motivar e liderar pessoas à volta de um projecto, neste caso, um blogue. 

 

Como o autor explica, na Introdução, foi a partir de um livro, Crónicas de Diazá, editado em papel, que surgiu o blogue Esquina do Tempo, em 15 de Fevereiro de 2010. Um ano depois é transformado em Magazine Cultural Online, quando se abre à colaboração de terceiros, funcionando, a partir de então, diz Brito-Semedo, como uma verdadeira ‘Praça Nova’ virtual. Ora foi deste blogue, que nos últimos quatro anos tem feito parte da vida do autor de uma forma absorvente, e onde foram sendo publicados todos, ou quase todos estes textos, que surgiu esta obra, prova viva que a internet ainda não matou os livros em papel e que estes ainda são fundamentais para preservar, selecionar e classificar a imensidão, de textos digitais, que chegando embora a muita gente, em muitos lugares, parece poder vir a perder-se na infindável Babilónia que é a net.

 

A ideia do livro e as Memórias Vividas de Brito-Semedo nasceram, assim, da instável relação entre o mundo real e o mundo virtual e dos cruzamentos entre o trabalho jornalístico e o registo pessoal, entre o trabalho de investigação do antropólogo e o testemunho do cidadão, entre a escrita científica do professor universitário e a escrita literária do ficcionista que se revelou com o livro Crónicas de Diazá e que, aqui, se confirma.     

 

São estes cruzamentos que tornam a sua escrita tão interessante e até única. Lê-se com o agrado e a emoção com que se lê uma obra literária, com a boa disposição com que ouvimos contar “partes” num grupo de amigos, com o interesse com que ouvimos um professor fazer o retrato antropológico e histórico da nossa cidade. É aliás um bom exemplo de escrita pós-moderna, híbrida quanto ao género, fragmentada, feita de múltiplas vozes e apostada em resgatar o passado.

 

Curiosamente, quando se inicia o séc. XX, a humanidade olhava obsessivamente para o futuro com uma esperança ilimitada na evolução da ciência e da humanidade, mas nos últimos anos do século passado a esperança na evolução da humanidade parece ter-se desvanecido e a evolução técnica e científica parece um carro descontrolado que nos leva não sabemos bem para onde. Assim, um pouco por todo o lado, assiste-se a uma necessidade imperiosa de recuperar o passado, não apenas o passado colectivo da nação, mas também o nosso passado local e individual, como uma bóia a que nos agarramos para enfrentarmos o mar agitado do nosso imprevisível futuro.

 

Na Esquina do Tempo resulta desta difícil relação entre memórias e esquecimento, entre demolições e rememoração. Graças aos autores do livro, como que assistimos à reconstrução de casas, de lugares e de hábitos demolidos pela inexorável transformação urbana e pela erosão do tempo. É disto que se trata quando se faz uma escrita memorialista, de manter abertas velhas padarias e pequenas mercearias, de ver jovens que estudam debaixo dos candeeiros na avenida marginal, de sentir o cheiro do pão de trança ou da cavala de cebolada comida no pão, de ouvir a voz de Mãe Liza, de ir ao cinema no Eden Park ….

 

As cidades mudam, têm de mudar, mas há edifícios e locais que marcam os seus habitantes e as suas vivências individuais e colectivas: o mercado, a praça, o hotel, os cafés, o cinema, as escolas… Por isso, a demolição, o abandono, ou até a adulteração de alguns locais podem ser dolorosos. E demolir um edifício ou encerrar um café pode também significar a destruição de uma esquina. Ora o que seria de Mindelo sem as suas esquinas? Não é onde estão os melhores cafés? Não são os locais mais frescos nas noites de calor? Não são os melhores lugares para se ver, ser visto ou se estar? Nunca os mindelenses duvidaram da importância das suas esquinas e só neste livro, que não poderia ter título mais feliz, há duas crónicas dedicadas a esquinas. Uma de Adriano Lima, dedicada à esquina de Fonte Cónego e outra, de Fátima Bettencourt, dedicada a outras esquinas que lhe vêm à memória, trazidas pelas Esquinas de Diazá do seu amigo Brito-Semedo, como ela escreve. Nesta mesma crónica, Fátima Bettencourt cita o poeta Oswaldo Osório que não gostou de Brasília porque, imaginem, não havia uma esquina onde encostar um cotovelo. Não sei se haverá povo que mais aprecie as conversas de ponta de esquina. Nem sei como poderiam os mindelenses resistir à falta de trabalho, que de forma cíclica e persistente assombra a história desta cidade, se não tivessem a vida de ponta de esquina onde se refugiar? De facto, não poderia Brito-Semedo ter escolhido melhor.

 

Aquilo que nós somos, a nossa identidade, constrói-se dentro de espaços e de fronteiras delimitadas, como a nossa casa, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país. Mas de que forma, a cidade que habitamos nos habita a nós? De que forma Mindelo molda a nossa identidade? ou influencia a nossa personalidade? Num poema dedicado à sua cidade natal, Jorge Luís Borges escreveu:  As ruas de Buenos Aires / já são minhas entranhas. Só quando existe esta identificação profunda do nosso corpo com a nossa cidade podemos definir através dela, cidade, a nossa própria identidade. Dizer, sou mindelense, é isso mesmo, fazer da cidade a nossa pátria. E é por isso que Brito-Semedo, como tantos outros aqui presentes, se assumem como menin d’ Soncent. E ao fazerem-no, sabem que os outros percebem e aceitam essa diferença. Poucas são as cidades capazes de criar esta marca de identidade nos seus habitantes: Rio de Janeiro criou o carioca, Lisboa os seus alfacinhas e Mindelo, claro, os mocim de soncent.

                            

A identidade urbana é, como as identidades nacionais, uma construção, feita por escritores e intelectuais, por compositores populares, por artistas, por actores. Este livro é, todo ele, um exemplo dessa construção, mas há até uma crónica, S. Vicente, Quel País, de Viriato de Barros que se centra unicamente nessa reflexão sobre a identidade mindelense. É através da literatura e da música, que as cidades ganham voz e ao ganharem voz ganham alma. E através da fotografia e do cinema, ganham também corpo e deixam de ser apenas um espaço com determinadas funções, para passarem a ser espaços com sentido. Ora Mindelo é a cidade mais cantada, mais ficcionada, mais filmada, mais pintada, mais representada de Cabo Verde. Em quantas obras literárias ou composições musicais, não encontramos o reflexo às vezes crítico, às vezes dorido, às vezes idealizado, da cidade? Em quantas peças de teatro, desde o teatro de revista que se fazia no Éden Park, às adaptações de João Branco para o universo crioulo, não vemos reflectida a identidade mindelense? Por isso Brito Semedo escreveu a crónica intitulada, Escola de Mulheres ― Molière em Mindelo Cangôd em João Branco.

 

Numa outra crónica Mindelo, um espaço com história e de muitas histórias, (aliás uma crónica interessantíssima que abre pistas de investigação para mais do que uma tese de doutoramento) Brito-Semedo, a propósito de um certo estilo de vida mindelense, chama-nos a atenção para a importância de Mindelo no corpus da produção literária cabo-verdiana. Imaginem por um momento que estamos a fazer a lista de todas as crónicas, poemas, contos, romances, peças de teatro, mornas e coladeras, escritas sobre gentes e estóreas mindelenses. Já viram o número impressionante de trabalhos com que nos deparamos? Já repararam como nessa lista estão os maiores escritores e compositores de Cabo Verde do séc. XX? E não só. Teríamos também de incluir escritores estrangeiros. Teríamos de recuar no tempo, pois apesar de a cidade ter nascido na segunda metade de oitocentos, já em 1898 foi publicado um conto sobre Mindelo, mais exactamente sobre a pesca da baleia na Baía do Mindelo, escrito por João Augusto Martins e publicado no livro de contos Horas Tristes.

 

Mindelo é não só a cidade mais amada e mais ficcionada de toda a literatura cabo-verdiana. Mindelo é uma cidade literária. Aqui nasceram os projectos jornalísticos e literários que mais marcaram a vida cultural de Cabo Verde. Refiro-me à Revista de Cabo Verde, (1899) de Loff de Vasconcelos, fundamental para a afirmação da identidade cabo-verdiana, à Revista Claridade (1936) que trouxe o modernismo para Cabo Verde e deu à literatura das ilhas uma identidade tão crioula que simultaneamente a universalizou e refiro-me à Revista Ponto & Vírgula (1984) que se abriu ao pós-modernismo e ao intercâmbio cultural, essenciais  à criatividade e dinamismo cultural das cidades do séc. XXI. E isto só foi possível porque eram projectos da sociedade mindelense, idealizados por grupos de intelectuais, sim, mas concretizados (leia-se financiados), pelos comerciantes locais e pelo povo da cidade. Aliás, as grandes manifestações culturais da cidade e também as mais pequenas, que não sendo tão visíveis não são menos importantes, nascem da sociedade mindelense, de esforços individuais e colectivos e serão, por isso mesmo, capazes de sobreviver, mesmo sem o apoio do estado, mesmo em situações adversas.

 

Para terminar esta minha, já não sei se apresentação se homenagem, se o quê, gostaria de aqui deixar um desafio. Vamos transformar Mindelo numa cidade criativa, uma cidade da cultura que valorize a sua história literária, musical, teatral e o seu património urbano e natural. Que valorize os seus escritores e compositores. Que valorize as grandes festas populares que arrastam multidões e as pequenas iniciativas que promovem a criatividade, educam e diversificam públicos. Que valorize o intercâmbio cultural como forma de evitar a repetição, o marasmo, a auto-satisfação e o auto-elogio. Uma cidade capaz de utilizar a cultura como vector de desenvolvimento. Vamos retribuir com o nosso trabalho, como o está a fazer Brito-Semedo com a publicação deste livro, todo o afecto com que Mindelo nos criou ou nos acolheu.

 

 

Mindelo, 31 de Janeiro de 2014

 

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1 comentário

De Djack a 02.02.2014 às 23:12

Grande discurso da Ana Cordeiro (sobretudo em qualidade) e filme elucidativo do que foi esse belo lançamento "alfandegário" com muito público que é o que sempre se espera de um lançamento. E de facto alfandegário ou aduaneiro, porque houve uma série de textos (meus incluídos) que não pagaram direitos e entraram directamente no Mindelo em "contrabonde" cultural... mas bem sabim.


Braça do escriba,
Djack


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