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Graças ao Liceu, São Vicente transformou-se no centro da intelectualidade do arquipélago. Às aulas juntavam-se tertúlias, competições desportivas, bailes, passeios, teatro, para além de uma entusiástica actividade literária traduzida em folhas de imprensa que circulavam dentro e fora da escola.

 

Locus de Instrução

 

Era a única instituição de Ensino Secundário em Cabo Verde. De recordar que nas outras colónias o liceu só seria instituído nos anos 50.

 

Locus de Educação Cívica e de Desporto

 

Educação Cívica e Prática Desportiva

 

Havia aulas de Educação Física fazendo parte dos currículos escolares, para além de actividades desportivas e participação cívica promovidas pelos Sokols de Cabo Verde (1932-1939) e, posteriormente, pela Mocidade Portuguesa (1939-1974).

 

Locus de Cultura

 

Conferências e Saraus Culturais

 

Para além das conferências a assinalar as efemérides como o Dia de Portugal e de Camões, o Dia da Árvore e outras, havia iniciativas culturais promovendo a criação de jornais, récitas de piano e de poesia, concertos e conferências. De referir que desde 1921 o liceu contava com uma Associação Escolar “dirigida por alunos superiormente orientados por um professor, com fins literários, desportivos e de beneficência”.

 

Concursos e Folhas Literárias

 

Os alunos editavam folhas e boletins escolares e participavam em concursos literários. Foi nesse ambiente que surgiram Alma Nova, Quinzenário do Liceu Infante D. Henrique (1933); Mocidade Caboverdeana, Fôlha Literária (1935) que, embora não sendo do liceu, era dirigida e tinha como colaboradores alunos do curso complementar; Juventude, Fôlha literária bi-mensal fundada pelos quintanistas de 1936/37 a favor da Caixa Escolar do Liceu Infante D. Henrique (1936); Certeza, Fôlha da Academia (1944-1945) e Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes (1959). Para além da Claridade, Revista de Arte e Letras (1936-1960), que tinha como figura de proa o Professor Baltasar Lopes da Silva e onde um ou outro ex-aluno viria a publicar.

 

Locus de Formação Política

 

A década de trinta entrara com uma grave crise mundial (1929-1934) e Cabo Verde não pôde deixar de sentir a sua repercussão. Havia, ainda, a “orientação política que subjazia à administração da, então, colónia de Cabo Verde, com o seu fascismo de importação e imitação e ignorava ou violava os mais elementares princípios que regem a vida do homem e do cidadão e salvaguardam a liberdade individual”, no dizer do Professor Baltasar Lopes.

 

Em 1932, a ilha de S. Vicente atravessava momentos torturantes. A companhia carvoeira Wilson Sons reduzira a semana a 4 dias e meio e falava-se em que, continuando a actual situação, ver-se-iam as outras companhias obrigadas a diminuir o pessoal. Os trabalhadores passavam dias e dias sem trabalho.

 

Tornando-se a situação insustentável, a 7 de Junho de 1934, há a manifestação de rua conhecida como a Revolta de Nhô Ambrôze, com o povo a fazer saber às autoridades que estava passando toda a casta de privações por falta de trabalho.

 

Seguiu-se a década de quarenta que entrara sob o impacto da segunda Guerra Mundial, tendo também contribuído para a crise do Porto Grande, levando ainda mais à diminuição da entrada de barcos.

 

A agravar a situação, há a crise agrícola de 1941-1943, que leva à desesperante emigração forçada para São Tomé.

 

Os docentes e alunos do liceu não eram indiferentes ao que acontecia à sua volta, afectando directamente a sua vida. Baltasar Lopes retrata esse ambiente no seu romance Chiquinho, parte II, através de duas das suas personagens: Andrézinho, com o 7.º ano feito no ano anterior, dinamizador do grupo Grémio Cultural Caboverdeano criado para pensar São Vicente e Cabo Verde; e Manuel de Brito, “Parafuso”, do 6.º ano, camarada do curso de Chiquinho, aluno brilhante que estudava em livros emprestados e que morreu tuberculose.

 

No fundo, o liceu funcionou como ante-câmara para a Universidade e para o mundo.

  

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Quando em 1968 o Liceu Gil Eanes foi transferido para o novo edifício na Chã de Cemitério, o ex-liceu passou a funcionar como Escola Primária João Belo, tendo, antes, albergado as actividades da Escola Técnica enquanto decorriam obras de ampliação do seu edifício, e, depois da independência, funcionou como Escola Preparatória Jorge Barbosa.

 

Em 2003, o ISE – Instituto Superior de Educação (Pólo do Mindelo, criado em 1999) muda-se para o Liceu Velho e o M_EIA – Instituto Universitário Arte, Tecnologia e Cultura, criado em 2004, também ali se instala, mediante acordo de cedência assinado com a Direção Geral do Património do Estado.

 

Em 2008 o Liceu Velho passou a ser propriedade da Universidade de Cabo Verde, entretanto criada em 2006, com a entrega formal pelo Património do Estado, mantendo-se ali o M_EIA, que viria a assinar, em Junho de 2012, um acordo de associação com a Uni-CV.

 

Com previsão de conclusão das obras de restauração para antes do mês de Outubro, cabe ao Conselho de Universidade da Uni-CV definir a função e o melhor aproveitamento do Liceu Velho, enquanto lugar de produção e de divulgação de conhecimento – Delegações da FCSHA e da ENG e M_EIA – e de actividades de extensão universitária, quer como Biblioteca, Casa da Ciência ou Laboratório de Artes Cénicas e Audiovisuais, quer ainda como Sala de Conferência e Lugar de Exposição e de Memória, fazendo do Liceu Velho um centro universitário virado para a cidade do Mindelo, na verdade, uma “UniverCidade”.

 

A ausência de discussão sobre a Universidade Pública que se quer para São Vicente e para esta região norte e a inércia administrativa pela eficiência orçamentária têm prevalecido sobre uma aposta rumo a uma produção de ensino com autonomia e de um projeto espacial coerente.

 

Para concluir, o liceu tornou-se, nas palavras de Adriana Carvalho (2011), “um reduto de cultura, que transpôs os muros escolares, emergindo noutros espaços permeáveis às realidades quotidianas e aos seus problemas concretos. Ao legado do Seminário, de onde os jovens saíam fortes em humanidades, agregou-se uma cultura pragmática, humanista e de erudição, necessária a fazer funcionar as inteligências”.

 

É essa herança que precisamos preservar e capitalizar adequando-a aos novos tempos que trazem consigo novos desafios e nos interpelam.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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