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Não podendo oferecer uma rosa a cada cabo-verdiana, deixo a cada uma este meu texto com o qual brindo um Março de amor.

 

Fátima Bettencourt

 

 

 

Semeei na poeira árida do tempo para colher um poema ardente. O meu chão escalavrado foi fecundado pelo sémen de um amor eterno, sobrevivente de décadas de pó, guerras, utopias, revoluções, sonhos, ideais, hinos, bandeiras, cravos, espigas, ameaças atómicas, derrocadas, muros, cortinas, vulcões, maremotos, dilúvios, secas, fomes, desolação, dor e morte.

 

A terra prenhe me devolveu, embrulhado no poema, um arco-íris, um buquê de mal-me-queres, uvas di Chã di Mostero, passarinha di pena azul, néva detado na terra de Eugénio, ternura, mormaço, sol e maresia. Foi a festa! É a festa que partilho com as mulheres do meu país.

 

Manhã cedo saio à rua e no orvalho sereno das plantas reconheço uma força cósmica e me invade a certeza de que faço parte dela.

 

Manhã cedo, enquanto caminho pelas bermas, a vida me anima e me segreda madrigais.

 

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De árvore em árvore, sobre um telhado, um poste, uma passarinha de pena azul e bico vermelho, poisa ali, poisa além, o seu trinado me acompanha, se comunica, nos comunicamos porque eu paro, olho para ela imponderável sobre um fio e mando-lhe um beijo na palma da mão. Ela me entende, solta um alegre e brevíssimo som e dá um saltinho para uma buganvília que, intermitente, borda um muro.

 

Atravesso a rua. Posso olhar ainda uma vez a passarinha que nesse preciso instante bate as asas e se eleva para um voo mais largo. Acompanho-a com os olhos até sumir do meu horizonte. Quem sabe ela veio para me dizer algo que ainda não captei? Repasso então a fita dos trinados e uma compreensão instantânea me surpreende com os recados dessa madrugada, que é já manhã, quase dia. São segredos afinal, por isso em código secreto de passarinho.

 

É então que sinto um ligeiro restolhar, um sopro mal pressentido me roça a pele, seja o que for está tão próximo ainda que toque o chão sem o mais leve rumor. Paro para ver. É um cachorrinho magro, abandonado de dono e de carinho que caminha sobre as minhas marcas faz algum tempo. A que veio? Suspeito que também, como eu, atrás dos trinados da passarinha de pena azul e bico vermelho que sumiu no céu ainda há pouco. Como se comunicaram, passarinha e cachorro vagabundo, escapa ao meu entendimento, mas não será por isso que o vou negar, aliás, o caso não é único, conhecida que é a paixão do Gato Malhado pela Andorinha Sinhá documentado por Jorge Amado de insuspeita condição.

 

Se entendimento houve entre passarinha e cachorro sem dono, eu seguramente estou no meio do conluio pois quando ela partiu voando nos ares, ele chegou cingido ao chão. E agora vejo que me acompanha, ora atrasado para recuperar num trotezinho animado, ora passando à frente e virando levemente a cabeça para ver se o acompanho.

 

A poucos metros da minha porta, ao tilintar das minhas chaves, o cachorrinho pára, olha para mim com os seus meigos olhinhos da cor do mel, inclina a cabecinha, uma orelha para baixo outra espetada, a própria imagem da interrogação: “é aqui que moras?”. Atiro-lhe um beijo na ponta dos dedos e enquanto subo as escadas me pergunto perplexa: “o que me deu hoje para sair beijando passarinhos e cachorros?”

 

 

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