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Marinheiros sem Mar

Brito-Semedo, 8 Dez 17

 

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“E ele vai baloiçando como um mastro

Aos seus ombros apoiam-se as esquinas”

 

– Sophia de Mello Breyner

 

 

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Foto José Matos Alves

 

 

Homenagem a Nhô Frank, Capitão de faluchos

 

 

Foi-se o navio / e não me quis levar.

 

Para o marinheiro sem mar os livros são navios.

 

Embarco em Falucho Ancorado (Lisboa, 1997), livro dos 90 anos do Poeta Manuel Santos-Lopes, e Ilha Brava. A Terra, a Gente, o Mar (Taunton, MASS, 2014), acabadinho de chegar dos States, cheirando ainda à maresia e a porão, de Benvindo Oliveira Leitão.

 

 

Falucho Ancorado

 

O Mundo não é maior

do que a pupila dos teus olhos

tem a grandeza

das tuas inquietações e das tuas revoltas.


… Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste…

 

– Manuel Lopes, “Poema de Quem Ficou”

 

Poeta e ensaísta, Manuel Santos-Lopes (São Nicolau, 1907 – 2004) notabilizou-se, sobretudo, pelas suas obras de ficção, de que se destacam Chuva Braba (1956, Prémio Fernão Mendes Pinto), O Galo Cantou na Baía (1959, Prémio Fernão Mendes Pinto) e Os Flagelados do Vento Leste (1960, Prémio Meio Milénio do Achamento de Cabo Verde).

 

Falucho Ancorado é o título do livro organizado por Alberto Carvalho (edições Cosmos, Lisboa, 1997) por ocasião do nonagésimo aniversário do Poeta, que recupera a poesia anteriormente publicada – Poemas de Quem Ficou (1949) e Crioulo e Outros Poemas (1964) – em boa parte reescrita e ampliada com a edição de inéditos da “Poética de Edumir” (acrónimo de Eduardo Miranda Reis, Eduardinho de alguns contos em O Galo Cantou na Baía).

 

O livro está organizado em três partes: “Antemanhã”, com poemas editados principalmente no Almanaque de Lembranças Luso-Brasiliro (Lisboa, 1851-1932), entre 1926 e 1935; “Cais de Quem Ficou”, entre 1936 e 1964, que são itinerários e memórias de exílio; “Caminhadas”, com diferentes datas, a maior parte dos anos setenta, na senda das “caminhadas”; e “Poética de Edimur”, sem data, onde se condensa a imagem do outro lado do autor, segundo Alberto Carvalho.

 

Para lá destas ondas que não param nunca,

atrás deste horizonte sempre igual,

no extremo deste sulco branco sobre o mar azul

[…]

que as hélices deixaram, impelindo

o bojo inquieto do vapor

 

[…]

 

… Para além destas ondas que não param nunca

há caminhos para pés de heróis

 

 

Ilha Brava. A Terra, a Gente, o Mar

 

Ó Brava amada, meu ninho em flor,

[…]

Teus filhos amam o largo mar,

O mar que os leva e que os traz de espaço:

Choras, se partem p’ra não voltar,

Cantas, se voltam ao teu regaço!

 

– Eugénio Tavares, “Hino Bravense”

 

Ilha Brava. A Terra, a Gente, o Mar é o quarto título de Benvindo Martins de Oliveira Leitão (Brava, 1942 –), um emigrante da Brava a viver em East Providence, Rhode Island, há mais de 25 anos, professor bilingue aposentado.

 

Num testemunho sobre a obra, António Leite diz ser ela “de cunho científico [que] reúne história, notas biográficas, toponímia, tradições, hábitos, costumes, e, sobretudo, estórias de um povo dependente da emigração, particularmente, para os Estados Unidos da América”.

 

O livro, de 294 páginas, é, na verdade, uma antologia de textos em prosa e em verso organizado em dez secções: ilha Brava e seus encantos; festas e tradições; ilustres filhos da Brava e seus antepassados; compositores e artistas; vocação marítima do bravense; personalidades bravenses ou da ascendência bravense nos EUA; emigração para o Brasil e Portugal; emigração para São Tomé e territórios ultramarinos; chegada dos padres capuchinhos à ilha Brava; e Brava contemporânea. Tudo isso acompanhado de um rico acervo fotográfico.

 

Dessas secções, destaco os compositores e artistas e a vocação marítima do bravense.

 

No livro são invocados e retratados treze artistas do século XX, de Medina e Vasconcelos (1900 – 1953) a Vuca Pinheiro (1948 –), passando por Raúl de Pina (1902 – 2005), Ivo Pires (1942 – 2009), Armando de Pina (1936 –), até chegar à Sãozinha Fonseca Fragoso e Maria de Barros.

 

A vocação marítima da Brava, essa, é tão antiga quanto o povoamento da própria ilha.

 

Segundo Benvindo Leitão, cerca de vinte navios veleiros, em casco de madeira, foram construídos na ilha, no Porto da Furna, entre os anos de 1900 e 1950, que se destinavam ao transporte de passageiros e mercadorias entre as ilhas. Alguns desses barcos foram “Senador Vera Cruz”, “Carvalho”, “Marlene”, “Nova Sintra”, “Santa Clara”, “Lurdes” “Fátima”, “Portugal”, “Laura São João”, “Bongavil” e “Arlete”. Destaca, de entre os construtores navais, Leopolde Oliveira, conhecido por Nhô Mano, construtor de “Bongavil”, “Carvalho”, lançado ao mar em 1938, e “Lurdes”.

 

Recorda-se que pelos anos de 1845 foi fundada na Brava a primeira escola de pilotagem cujo instrutor era António José Pereira (Nhô Antonico), professor primário. Dessa escola viriam a sair muitos capitães, alguns, verdadeiros lobos-do-mar.

                                                                                

João Augusto Martins, no seu livro Madeira, Cabo-Verde e Guiné (Lisboa, 1891), fala de uma escola náutica na ilha: “A Brava, com suas pequenas indústrias organizadas e com uma escola de náutica tão manifestamente reclamada de há tanto, teria dentro em si inesgotáveis fomentos de riqueza”.

 

Regresso a Sophia de Mello Breyner e ao poema “Marinheiro sem Mar”, in Mar Novo, 1957:

 

Longe o marinheiro tem

Uma serena praia de mãos puras

Mas perdido caminha nas obscuras

Ruas da cidade sem piedade

 

Todas as cidades são navios

Carregados de cães uivando à lua

Carregados de anões e mortos frios.

 

 

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