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 Cais de Alfândega Velha

 

 

Aquela tarde de 24 de Dezembro de 1951, no Mindelo, seria igual a outras, não fosse véspera de Natal. Nhô Mano descia a rua de Morguino, vindo das fraldas do Monte, a caminho da Praia de Bote, mergulhado nos seus pensamentos, quase não dando pelas pessoas que o cumprimentavam. Tinha encontro marcado no botequim Boca de Tubarão com os três companheiros que o ajudam na actividade do bote adquirido com o suor do seu trabalho. A sua experiência dizia-lhe que não podia contar com a melhor disposição deles em ir para o mar em véspera de Natal. Mas que remédio tinham eles? ─ Interrogou-se no seu íntimo. A pesca na véspera foi um fiasco, por causa da ventania que soprou, encapelando o mar, e agora tinham mesmo de ir à vida. O tempo estava de boa feição, sem vento e com mar calmo, e nhô Mano estava confiante numa boa pescaria durante a noite. Não era altura de luar e iam precisar de cafucas[1] para iluminar os trabalhos. Ainda teria de verificar se eram suficientes as pontarias de anzóis[2] que durante a manhã preparou. Mas o que o preocupava mesmo era a boa vontade dos seus companheiros em trabalhar numa altura desta. O Muxim, o mais velho dos três, nunca virava a cara ao trabalho, embora homem de pouca fala. O Fidjim raramente dizia que não, mas tinha o velho hábito de ir à Missa de Galo com a mãe dos seus filhos. O maior problema era o Lela de nhâ Lorença, o mais jovem; bom remador, sim senhor, mas refilão e pouco regular no seu procedimento, e além disso amigo do seu groguinho e da sua paródia.

 

 

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Nhô Mano passou em primeiro lugar pelo Plurim de Pêxe[3] para arranjar isco, e a seguir deu umas voltinhas pela rua da Canecadinha, onde adquiriu alguns suprimentos, incluindo petróleo para as cafucas; depois, foi ao bote ultimar os preparativos, o que sempre preferia fazer sozinho, com a sua habitual calma e meticulosidade.

 

Estava já à porta do Boca de Tubarão, onde parou por momentos a olhar para o horizonte. O Sol ia a caminho da linha de cumeada de Santo Antão, e nhô Lela pensou com os seus botões que era hora de despachar e ir para o mar. No interior do botequim os 3 pescadores olharam para o patrão quando ele entrou. Não estavam lá de muito boa cara, e o Lela e nhâ Lorença disparou logo:

 

─ Ó nhô Mano, no Natal? Cmanera?[4] ─ Sem ter tempo de nhô Mano reagir, Fidjim adiantou:

 

─ Eu por acaso já tinha combinado umas coisas com a Bia.

 

O Muxim é que não abriu a boca, entretendo-se a rapar uma unha com um canivete, mesmo quando nhô Mano olhou para ele interrogativo, como que a pedir a sua opinião. Então o catraeiro respondeu:

 

      ─ Mnis, sei que hoje é véspera de Natal, sim senhor, e vocês têm razão, lá isso têm. Mas já viram que ontem não pescámos nada e estamos todos quebrados[5]? Não será melhor arranjarmos um dinheirinho para amanhã podermos ter em casa ao menos um bom almocinho com a família e sentir uns trocos a mexer no bolso? Depois, essa coisa de Natal é mais para rico, não para nós. Por algum motivo o povo diz que em Cabo Verde “ramede de pobre é pobreza”, mas é claro que temos de lutar contra essa fatalidade. Vocês interessam-se lá por essa coisa de presépio, Menino Jesus, prenda de Natal? Ora, ora…

 

Sem coragem para contrariar quem lhes dava a ganhar o pão do dia, lá se levantaram os pescadores, seguindo em silêncio atrás do seu patrão em direcção ao Flor da Baía, nome com que ele baptizou o bote. Com os seus 66 anos, nhô Mano ainda se apresentava com todo o vigor para as duras lidas do mar. Os músculos retesados dos seus braços compridos eram a prova de muitos anos a dar ao remo.

 

Conferiram os apetrechos de pesca, numa espécie de check list que o catraeiro não dispensava. A seguir, arrastaram o bote até à água e momentos depois ele já deslizava suavemente ─ chape-chape, chape-chape ─ tomando a direcção da Ponta do Morro Branco, movido pela força dos oito braços. O silêncio em que iam foi interrompido por Lela quando ouviram alguns foguetes estralejar sobre a cidade: ─ Adé, eles estão a saudar a nossa saída, nhô Mano! Não estamos lá para festejar mas temos ao menos direito a foguete ─ riu-se soltando uma sonora gargalhada. Seguiu-se então o seguinte diálogo entre os quatro.

 

─ Eu, Mano de nhâ Ludovina, vos digo que não tem piada nenhuma festejar sem dinheiro no bolso. Nem Natal, nem São João, nem Carnaval, nem festa nenhuma. Aliás, foram poucos os natais em que não estive derriba de mar, desde que me fiz homem. A vida não é um mar de rosas, moços.

 

 Interveio Muxim, quebrando o seu habitual mutismo: ─ Eu também não. E não me recordo de alguma vez ter havido festa de Natal em minha casa. Só me lembro de o meu pai, que tinha manhas de funileiro, me ter feito um navio de lata bnitim. Tinha eu seis aninhos, e o meu pai copiou o modelo de um vapor inglês que estava fundeado na Baía.

 

─ Eu, brinquedo, brinquedo… nunca cheirei nenhum – disse o Lela. A não ser uma cornetinha que me deram na catequese nos Salesianos. Tinha os meus onze anos e passei o dia todo a tocar, fazendo uma trabuzana tal que a avó Tanha me mandou ir tocar para a rua...

 

─ Digo-vos que Natal, Natal, é em casa de gente branca – interrompeu-o o Fidjim – a minha mãe foi criada em casa de gente rica e lembro-me do que ela contava. E no dia de Natal aparecia sempre com coisas boas de comer que lhe davam das sobras, bolo, pudim, croquetes... Também lhe davam roupa usada em bom estado ainda.

 

Os foguetes ainda se ouviam ao longe quando atingiram a Ponta do Morro Branco. Em lenta agonia, o Sol era uma imensa bola de fogo a mergulhar no mar, deixando atrás de si pinceladas de um rosa espectral, espécie de mortalha do dia que findava. Em breve cairia sobre o mar um manto escuro cada vez mais espesso, ficando como únicas referências visuais o vulto sobranceiro do Monte Cara e, mais além, o ilhéu dos Pássaros. Começaram a lançar as pontarias de anzóis, com o bote a mover-se suavemente, agora apenas ao sabor da corrente. A 3 quilómetros de distância, estava a Ponta de Ladra Cachorro, mas só a demandariam se a faina não corresse logo de feição. A certa altura, nhô Mano mostrou o balaio em que estava a comida para a noite:

 

─ Rapazes, nesse balaio há peixe frito, pastéis de milho e pão da padaria Jonas, que é a nossa ceia, e… uma garrafinha de grogue, que é o meu presente para vocês não pensarem que sou calisto[6]. Gastei os últimos escudos que trazia no bolso, mas com fé em Nosso Senhor vamos fazer esta noite um bom dinheirinho.

 

Os homens ouviram e continuaram no seu afã de lançar anzol e sondar os locais mais propícios, no que o Muxim tinha um especial faro. As duas cafucas estavam já acesas e ao longe divisaram outras luzinhas a piscar sobre o mar, quais pirilampos a imitar iluminações de Natal no negrume da noite.

 

─ É rapaziada de S. Pedro. Eles também devem andar quebrados como nós…

 

─ Não estejas agora com remoques, Lela ─ retorquiu Muxim. Não somos só nós que trabalhamos no Natal, trabalham os doutores, os enfermeiros, os guardas de alfândega, os polícias de capitania, e outras mais criaturas.

 

A verdade é que, fosse por obra do Pai Natal ou simples acaso, estavam a fazer boa pescaria. O relógio de nhô Mano marcava 2 horas da manhã e o fundo do bote já registava uma boa captura de goraz, garoupa e esmoregal, entre outras espécies menores. Mas nhô Mano queria aproveitar o maná e mandou remar mais para o pé de uns rochedos próximos, pensando que umas moreias também calhariam bem. Assim foi a noite toda, até que o cansaço se tornou visível nos rostos. Enquanto estavam mergulhados no seu trabalho, iam conversando sobre as suas vidas pessoais e metendo algumas pilhérias pelo meio.

 

O Lela estava debruçado sobre o bote a recolocar isco nos anzóis quando nhô Mano se virou para o Muxim e lhe segredou junto ao ouvido, sem que os outros ouvissem: ─ Vê lá tu, o Lela não é mau rapaz, até trabalha muito bem quando quer, mas é preciso espicaçá-lo. Às vezes olho para ele e lembro-me do meu filho macho, o Humberto, que infelizmente morreu na flor da idade.

 

─ Ah, lembro-me bem do Beto, que Deus haja. A vida é assim, nhô Mano, mas você tem a sua filha Luzia, por sinal boa rapariga.

 

Nesse ínterim, o catraeiro disse aos companheiros que ia dormitar um pouco porque já não tinha a idade deles e o corpo estava mesmo a reclamar. Enroscou-se sobre um dos assentos do bote e não tardou a entrar nos braços de Morfeu.

 

Os pescadores prosseguiram a sua azáfama, seguindo as instruções do patrão, que queria desembarcar às primeiras horas da manhã com um carregamento o maior possível e enquanto houvesse peixe a rondar. Mas, a certa altura, nhô Mano acordou sobressaltado com o Lela a gritar, esbaforido:

 

─ Acordem, acordem, olhem lá ao longe, no horizonte, dois palmos à esquerda de Santo Antão!!! Mnin Isjus titá nascê na mar[7], embrulhado num lençol de nuvens!!! Olhem bem, olhem bem!!!

 

Nhô Mano, estremunhado, esfregou os olhos e virou a cabeça para onde apontava o seu jovem companheiro. Mirou, mirou, e disse:

 

─ Onde é que estás a ver o Mnin Isjus, Lela? – Este voltou a fitar o horizonte, desta vez com as mãos em canudo.

 

─ Estava lá, sim, juro!!! O Fidjim é testemunha, que ele também viu!!! E o Muxim também deve ter visto!!!

 

─ Ó Lela, o que vi foram umas nuvens em forma de figurinhas, mas qual é[8], rapaz?, não havia nenhum Mnin Isjus, ─ respondeu o Fidjim ─ às vezes as nuvens tomam cara de gente…

 

─  Eh lá, a mim não me metam nisto, que eu até nem acredito nestas coisas de religião! ─ rematou o Muxim.

 

Então, nhô Mano, conhecendo bem o seu mais jovem companheiro, teve um pressentimento e perguntou:

 

─ Lela, onde é que está a garrafa de grogue que ficou acima de meio quando fui dormir? ─ O Lela, acabrunhado, mostrou a garrafa, já completamente vazia. Todos deram uma gargalhada e o catraeiro exclamou, todo divertido:

 

─ É sempre o mesmo. Não se pode confiar uma garrafa a este rapaz. Agora vais ser tu a pagar-nos uma rodada de grogue no Boca de Tubarão!

 

Instantes depois, o Flor da Baía já dobrava a Ponta do Morro Branco, a caminho da Praia de Bote, impulsionado pelas remadas sincopadas dos quatro pescadores. O céu estava coalhado de cúmulos dispersos, de cor variando entre o branco e o cinzento, como pedaços de algodão espalhados ao acaso para atapetar a chegada do Mnin Isjus.   

 

Adriano Miranda Lima (Texto)

Tomar, Dezembro de 2015

 

Jason Mascarenhas (Foto)

São Vicente, Novembro de 2014

 

 __________

[1] Lanterna improvisada com um recipiente, torcida e petróleo.

[2] Sistema de pesca formado por um longo fio e vários anzóis.

[3] Mercado de Peixe.

[4] Expressão crioula interrogativa que significa: “Então, como?”

[5] Termo crioulo que significa estar-se sem dinheiro, vindo do inglês broken.

[6] Termo crioulo que significa forreta.

[7] Tradução do crioulo mindelense para o português: “Menino Jesus está a nascer no mar”.

[8] Expressão típica em crioulo que significa: “Como assim, qual é a tua?

 

 

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2 comentários

De ALA a 24.12.2015 às 00:49

Esse eh Soncent prop. Lindo conto.

De Joaquim ALMEIDA ( MORGADINHO ) a 25.12.2015 às 11:05

CAIS  D ' ALFANDEGA , este  " caïs " que se vê nesta foto , testemunhando a sua agonia desaparecendo aos bocados , apos ter servido ao povo de Cabo Verde , particularmente ao povo ( d ' saocente ) , tem uma velha e longa historia e muitas belas historias jà se contaram em cima deste " caïs " !..Infelizmente , como é obvio , jà somos poucos ainda vivos  que possam lembrar algumas dessas hitorias !..Neste caïs , embarcou e desembarcou muita gente , boas e màs , mas também muitas mercadorias de toda espécie e qualidade para sustentar Cabo Verde , e (também Sao Vicente ) !..Digo que observando com muita triisteza o " esqueleto " deste cais nesta foto , faz me lembrar muitas coisas dos tempos de " caniquinha" qu' onde gôt ' d ' manê jom , tava engordà  na gemada !.Boas Festas e um bom ano  2016... pâ tud criston !..Um Criol na Frânça ; Morgadinho !. 

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