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Mort d' Tiof ─ Estórias

Brito-Semedo, 11 Jun 15

 

Baptista de Sousa.jpg

Dr. Baptista de Sousa fundeando o Iate "Morabeza" no Porto Grande de Mindelo, ao lado da Praia de Bote. Ano de 1944

 

 

Carrlins de Nhanha Beta, era bom rapaz. Um bocado leve de cabeça, mas bom rapaz.
Desde menino que estava sempre pronto para fazer um mandado a troco de pagamento, sempre, Carrlins, de graça só se mexia, para procurar comida, ou dinheiro.


O dinheiro, entregava religiosamente ao chegar a casa, a Nhanha Beta, sua avó, que o criou, desde que deu o primeiro fôlego, pois Bitina, mãe de Carrlins, morreu ainda ele nem tinha nascido e foi graças a Dr. Baptista de Sousa - Engenheiro Humano - que Carrlins, também viveu. Sorte, ele estar no hospital e conseguir tirar Carrlins ainda vivo da barriga de Bitina. Ele viveu, mas com aquele leveza de cabeça que o punha a falar tudo o que ouvia... falar perto de Carrlins, era melhor forma de toda a Morada ficar a saber... saía pelas ruas a dar conhecimento, acrescentando sempre mais qualquer coisa e quando chegava ao fim do dia, era já um conto.


Carrlins, em pequenino, por ser órfão de mãe, ia todos os dias com Nhanha Beta, para dispensário, onde havia sempre uma mãe, de boa vontade, ou alguma parida que tinha perdido seu filho, que lhe dava mama... naqueles anos de carestia, muito Onj d'Crist não chegava nem a um Guarda Cabeça.

 

Nesse tempo, fome, era chamado desnutrição na boca de Gente Bronque e tud causa de morte de pobreza, no óbito era declarado como gastroenterite aguda, difteria, por ordem de governo de Lisboa. Só Dr. Baptista de Sousa punha lá escrit s'carrod, Fome... por isso governo de Lisboa deu ele ordem de embarque de Soncente, para nunca mais.

 

Baptista de Sousa.jpg

 Iate "Morabeza" a sair dos Estaleiros da Pontinha onde foi contruído. Ano de 1944.

 

Povo de Mindelo, por iniciativa de Sr. Manuel Matos de Fábrica Favorita, fez peditório publico e lá no Estaleiro de Sr. Cunque, construíram um iate b'nitin d' munde que foi reconhecimento de Povo.


Teve gente que deu 1/2 tostão, mas deu o que podia e dizem que foi Sr. Manuel Matos - que foi também grande homem, que até fizeram ele aquela morna, "Eternidade". Quase, foi Frank Cavaquim que fez aquela morna, b'nit e triste - que pagou de seu bolso, quase tud trabalho de construção e material.

 

Tempo runhe, de desespero, de fome e miséria, e de doença daninha, que deixava mut parida, sem filho que, elas, todos os dia, iam ao dispensário, dar leite, nem limária, permitindo assim aos menino, sima Carrlins, poder viver. Depois em casa, Nhanha Beta juntava mais com um caldim de catchupa, leve, para ajudar menino a vingar.


Carrlins, escapou de morte e deu homem forte, amigo do seu trabalho, desde que fosse pago, mas leve de cabeça... leve, leve.


Se alguém pedisse: - Òh Carrlins, vai fazer um recád lásim, mais logo eu pago... Carrlins respondia logo: - hádá, pagar é pagar já que mas logo, é'né certo - e nada o demovia.


Recebia antes de fazer o serviço, mas uma vez pago, não deixava trabói na meio.


Lavava quintal, matava uma galinha ou um tchuck, fazia mudança de casa, serventia de pedreiro e era bom caiador, que na altura de caiação de casa, Carrlins não tinha descanso. Gente bronque de Morada, concorriam para que fosse ele a caiar suas casas, com cal de Boavista.


Recebia pagamento fosse em dinheiro ou, comida, mas preferia comida, pois dizia - comida, depois de comer já não dou a ninguém.. dinheiro é Nhanha Beta quem gosta... não serve para comer.


Coisas de Carrlins. Dinheiro, para ele, não tinha serventia e na sua cabeça leve, não sabia para que Nhanha Beta queria dinheiro.

 

Mas Carrlins, o que gostava mesmo, era de c'ad Mort... quase era porque ele quase tinha morrido quando nasceu, assim que sabia de mort, não faltava. Era velório, acompanhar mort até Dezoito Dois Oito, voltar para c'ad mort para dar pêsames e tirar boca d'mort, ficando atento àquela missa de sete dia e de mês, que era logo p'ul manhazinha cedo para depois ir tomar aquele café que família dava para tud gente que cumpanhasse d'funto, para ajudar a Alma a desencarnar e ir p'a S'pace Superior.


Carrlins, assim que chegava na c'ad mort, tirava chapéu de cabeça, persignava na oréla de caixão e dava monzada a tude gente que estava na sala e procurava logo ombreira de porta que dava saída para o quintal, onde normalmente estava panela de comida - fosse cathupa, arroz c'atum, caldo de peixe, canja de galinha - que vizinhança ordeava, para que ninguém saísse de casa do falecido, sem estóm pegód, e um cálice de grog, sumo de orandje para meninos e senhoras...


Carrlins era homem, mas só bebia orandje que era docin, docin, depois de comer bem comido, sem dispensar aquela fatiga de quêquê que subromenza.


Nesse dia deu notícia daquele senhor que morava lá na Rua Senador Vera Cruz, gente de d'nher, que tinha falecido, fogód com um bocado de carne que trancou ele na garganta que nem com pancada na costa conseguiram que ele deitasse fora, morrendo de falta d'ar... coitód, Deus dal descanso na sê Alma. Persignou-se.

 

Carrlins nesse dia foi mais cedo para casa, escodou corpo e vestiu roupa de domingo, roupa para ir na missa d'Pad Fernando, que ia sempre na companhia de Nhanha Beta, para dar Graças ao Altíssimo de estar vivo e de saúde e de não faltar um Pão Nosso de cada dia...


Jantou e saiu avisando Nhanha Beta que ia pa c'ad Mort. Saiu e levou um trapinho no bolso para quando chegasse na Morada limpar pé daquela terra burmedje de Tchan d'Licrin, que ninguém precisava de saber dondê quel vinha.

 

Chegou na c'ad Mort e já entrou logo na guisa.. a dar recado para Beta... òh q'sodad, sodad de Mamã òh... que nem um conchê... òh que sodad òooh. Òh, Sr. òoh, quando boçê chegar lá diante de Mamã bçê diz pâ ela que um tem sodad òi... òh afronta tonte sodad òoh... e dava mais um rincada, de mão sobre o peito, a apertar camisa na peito... e boçê diz pa Nhonho Vicente que eu e Nhanha Beta tem sodad também, que até aquel reste de grog, está lá, na esperança de ele voltar... um dia se Deus p'tá na Cruz...


Toda a gente fincou guisa a acompanhar Carrlins e até uns senhores daqueles lá de Grémio de Praça Nova, saíram para o quintal aproveitando para fumar um cigarro ou dar uma pitada de cancã para disfarçar uma lágrima...

 

Carrlins depois procurou seu lugar, que ele não era gente de sala de Gent Bronque e foi para junto de serviçais... e lá ficou a distrair conversa, a dar fé de tud estória que pudesse ir contar dia seguinte... e, aguardar aquela comida para forrar estom... mas nada. Gente a sair, gente a entrá, e nada, até que encheu de coragem e perguntou a uma Sr.ª que veio buscar um copo de àgá de açúcar - para dar para uma Sr.ª que estava a dar faniquit e que até já estava dar d'corp de tanta dor e tristeza... diziam que era amigada com falecido, embora sempre mantido naquele segred de Gente Bronque, que tud gente sabia, mas ninguém sabia, perguntou então:

- Sr.ª, Sr.ª faz favor, condé é eles serve uma qualquer coisinha para ajudar um Cristão a passar última noite com o Falecido?? Sr.ª sabê?

 

Ao que a Sr.ª retorquiu em voz muito baixa, que não, que essa coisas eram coisas de gente pobre - gentinha - que ali, era lugar de luto e tristeza e não era Bar nem lugar de Comida d'Onj... nem era hora de pensar em comida nem bebida...


Carrlins, deu um passo atrás, sustód, spiou a Sr.ª bem spiód e disse:

 

- Casta de Morte d'Tiof é esse??? Vergonha hom!!

 

- Quem câ ti ta podê morrê, é pa câ morre... tont q'j'am tchorá nesse lugar... nem um prato de sopa...

 

Saiu sem dar boa noite, metendo-se a caminho de casa, lá na Tcham d'Licrin. Quel mort, Carrlins não quis saber nem de dia de enterro, nem de missa de sete dia nem de mês. Nem tud mort é sábe... Mort sem c'mida nem bebida, não é mort sábe.


Oeiras, 2015/06/06
D'Joe

 

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 12.06.2015 às 09:35

Eu compreendo o Carrlins que pedia pagamento imediato. Na idade dele os mais velhos tinha tendência para esuecer certas promessas . Dai ele exigir o pré-pagamnto: "li ca tem dada fiode".
V/


P.S. - Talvez mais tarde venha acompanhar o Djô e o Lalela com uns "chtorinhas d'emigração" que entram nesse contexto de lembrar à "juventude" a riqueza do nosso falar d'Soncente que não precisa de novos acordos nem de desacordos. A nossa geração é progressiva mas também conservadora.

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