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O primeiro romance de temática cabo-verdiana é, sem dúvida, O Escravo, de Evaristo d’Almeida (Portugal, 1810? – 1856?), publicado em 1856 (na verdade, dado a conhecer ao grande público em 1989, quando saiu a segunda edição) cuja acção decorre em Santiago, na Vila da Praia.

 

Que se saiba, depois disso e até à publicação do romance Os Dois Irmãos (1998), de Germano Almeida (Boa Vista, 1945), a ilha de Santiago não foi objecto, enquanto locus central, de nenhuma outra obra literária de ficção. Em 2010 Germano Almeida voltou com A Morte do Ouvidor, um romance histórico sobre a elite da Ribeira Grande de Santiago dos anos setecentos.

 

Em 2015 apareceu o romance Papa por uma Noite, estreia em ficção de David Hopffer Almada (Santiago, 1945) e, mais recentemente, em finais de 2016, A Ponte de Kayetona, estreia de Eurydice (Eurídice Monteiro, Santiago, 1981). Em todas essas obras o espaço da acção é o interior da ilha de Santiago, designadamente, Santa Catarina, Ribeira Grande e Calheta de São Miguel.

 

 É neste quadro que surge Múrcia, um romance de estreia de Eugénio Inocêncio, Dududa (Santo Antão, 1950), que traz uma dupla novidade: (i) as estórias acontecem na cidade da Praia, o seu locus central, daí o classificar como um romance urbano, e (ii) as estórias são ficcionadas ou contadas por um autor natural de uma outra ilha, no caso, Santo Antão, com uma mundividência diferente e com um outro olhar.

 

Economista e jornalista em Lisboa nos idos de oitenta, há muito afastado dessas lides, Eugénio Inocêncio lança-se no mundo das letras num género que, a priori, exige uma narrativa de uma certa complexidade na forma e no conteúdo.

 

Desaparecidos os romancistas da Geração da Claridade – Baltasar Lopes da Silva (São Nicolau, 1907 – 1989), que escreveu sobre São Nicolau e São Vicente; Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005), que tratou Santo Antão; e Teixeira de Sousa (Fogo, 1919 – 2006), que escreveu sobre o Fogo e São Vicente – este género vem sendo mantido entre nós pelo escritor Germano Almeida desde a sua estreia em 1989, com O Testamento do SrNapumoceno da Silva Araújo, de forma regular, quase toda ela sobre a ilha de São Vicente e também Boa Vista, sua ilha natal.

 

Ressalva-se o caso relativamente recente de António Gualberto do Rosário (São Nicolau, 1950), também ele economista, que se estreou em 2002 e já conta com três romances, todos sobre a sua ilha – Hora Minguada (2002), Ilha Imaculada (2004) e A Herança de Chaxiraxi (2012).

 

De referir ainda o médico Samuel Gonçalves (Fogo, 1945), que publicou Chinho e Colixo (2002) e O Curandeiro de Monte Piorro (2013), todos versando sobre a sua ilha do Fogo.

 

Múrcia

 

Múrcia é um romance urbano, actual e inovador que aborda temas não convencionais, ou mesmo tabus, não tratados antes na literatura cabo-verdiana. A homossexualidade, a relação dos cabo-verdianos com os outros povos do continente africano, a democracia e o desenvolvimento de Cabo Verde são tratados de uma forma arejada, diria mesmo, ousada.

 

Sugere-se aqui algumas pistas para a leitura do romance: título do livro, simbologia da capa, estrutura romanesca e enredo ou trama da obra.

 

Título do livro

 

Múrcia, tanto pode estar a referir-se a uma jovem Mulher, a personagem principal do romance, como a uma cidade espanhola, capital do município do mesmo nome e da comunidade autónoma da Região da Múrcia e, indirectamente, pelas características e semelhanças, remeter o leitor para a cidade capital de Cabo Verde, a própria ilha de Santiago ou estar a tipificar os seus habitantes.

 

Simbologia da capa

 

A composição da capa, com uma silhueta e contornos de uma Mulher nua, um Flamingo rosa e o Farol Maria Pia são elementos que prestam a uma interpretação e análise simbólicas e, em certa medida, psicanalítica.

 

O Farol o e o pescoço do Flamingo são fálicos. O Farol fixa o espaço geográfico, a cidade da Praia, e o Flamingo, que se encontrou só em Santiago vindo do lado leste do continente africano, deslocando-se contra natura, tendo-se perdido do seu bando, leva-nos a questionar se a sua escolha terá sido por mero acaso uma vez que existem outros animais com essa mesma simbologia.

 

O facto de ser um flamingo, que se alimenta de cabeça invertida, nidificar em colónias e executar rituais de acasalamento em grupo, ser do género rosa (cor culturalmente associada ao universo feminino), mais a silhueta dos contornos da mulher nua, todos esses elementos fazem alusão à sexualidade, ao binarismo de género, à homossexualidade.

 

Estrutura romanesca

 

O livro tem 222 páginas e está estruturado em XV capítulos enumerados sem título, antecedidos de um Prefácio, cuja função é introduzir o leitor na obra preparando-o para o que vai ler, mas também tem a função de o alertar para determinados aspectos que, no entender do autor, devem ser observados.

 

Nessa comunicação fora da obra, o autor propõe ao leitor o critério de poder saltar o capítulo IX, que “decorre no Farol da cidade, que ditou que a cidade seja o que é”, regressar a ele depois de concluir a história ou mesmo lê-lo antes do capítulo I, onde tudo começa. Contrariamente a todos os outros, que são relativamente curtos, este capítulo IX, que é central, é praticamente a metade da obra (pp. 60 a 162).

 

Enredo ou trama

 

“Na cidade africana da Praia proliferam as pessoas anónimas que, pelo seu carácter, facilmente emprestam a alma de onde nascem as personagens, vestidas para dominar-nos e dominar”.

 

É assim que, no Prefácio, o autor explica os caminhos que o levaram às suas personagens – N., Eduarda, N’Diaye, Noémia, Paulo, Marcelo, Tchibiliu, Sr. Óscar – e à Múrcia. “Sobre a memória destes amigos e amigas nasceram as personagens que me conduziram por estranhos caminhos e que elegeram rainha, entre tantos, Múrcia, uma deusa-menina”.

 

Um mistério abre a obra e dá o tom ao trama. Um jovem aparecera dentro da mala de um carro com um tiro na nuca, com particularidades que tornava o crime singular porque com a assinatura do assassino, desenhos feitos com uma lâmina afiada. Caso entregue a Paulo, agente da Polícia Judiciária, para desvendar.

 

Várias estórias individuais se cruzam e as personagens, o grupo do The Place, conduzem-nos pela geografia da cidade, dum extremo ao outro, da Avenida Cidade de Lisboa, subindo ao Ptateau pela Ponta Belém, voltando a descer pela rampa de S. Januário, indo até ao Farol da Ponta Temerosa, à Achada de Santo António e ao bairro do Palmarejo onde, num determinado apartamento, faz-nos voyeur.

 

A longa conversa do Sr. Óscar e Múrcia no Farol da cidade (capítulo IX) é um espaço para reflexões filosóficas, políticas e económicas sobre o carácter do ser humano, a realização pessoal e o sucesso individual, a totalidade e a sua socialização, a reforma do Estado excessivo: a alternância obrigatória, a origem da riqueza individual, a anatomia do sucesso individual, o valor-competitividade, a questão social, a questão de África.

 

Chegado ao fim do livro, fica-se com a percepção que, mais do que um entretecer de estórias sobre a realidade social, política e económica da sociedade praiense, este é um romance de reflexão, feito de ideias e de convicções e em defesa de causas, numa transposição da vida para um plano artístico.

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INOCÊNCIO, Eugénio (Dududa). Múrcia. Perfil Criativo Edições. Lisboa, 2017.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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