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"Noite de Vento", Mindelo Literário

Brito-Semedo, 24 Fev 15

 

Noite de Mindelo.jpeg

Morada, Rua de Lisboa, Mindelo. Foto de "Ratrote", Hélder Doca, Abril.2013

 

 

Há cerca de 60 anos nascia Pródiga, a primeira novela de António Aurélio Gonçalves (Mindelo, 1901 - 1984), lançada na Noite de Vento, juntamente com as outras oito irmãs, a seguir à morte do autor, em 1985, por Arnaldo França.

 

Passados trinta anos sobre a organização das novelas de António Aurélio Gonçalves num único volume sob o título Noite de Vento, por sinal, esgotado há muito, o Esquina do Tempo saúda a criação da Cátedra António Aurélio Gonçalves de Estudos Cabo-verdianos, pela Universidade do Mindelo, por ocasião da abertura do seu ano académico, ao mesmo tempo que homenageia o homem e o escritor e assinala este importante marco da literartura cabo-verdiana.

 

Fica um apelo aos mindelenses: que se apropriem da obra deste grande escritor que melhor soube interpretar a alma das gentes da sua cidade, dando-lhe um estatuto literário.

 

 

Uma Revisitação aos Lugares do Mindelo de Nhô Roque

 

Noite de Vento.jpg

Mindelo é o espaço privilegiado e o pano de fundo exclusivo de toda a novelística de António Aurélio Gonçalves, excluindo Noite de Vento e A Consulta, em que existem breves referências memorialistas ao meio rural de Santo Antão[1].

 

Nesse realismo gonçalviano a ilha surge definida em limites gerais e, sem se deter em pormenores, é apresentada a “Morada”, fixando-se em alguns bairros da periferia.

 

Na novela O Enterro de Nha Candinha Sena (1957), Cristiano, do alto de Celarine faz um ângulo de 180.º com o pescoço seguindo a cinta de penhascos e montes que delimitam a ilha. Começa no extremo leste, no Monte Verde, percorre São Pedro, no sul, e completa o semicírculo apanhando um trecho da baía e o Monte da Cara, ao ocidente.

 

Ao privilegiar a cidade do Mindelo, algumas zonas ou ruas surgem como acidentes ou simples referências enquanto outras aparecem como palco de acções menos importantes. Tal é o caso da zona da Praça Nova, o Largo da Alfândega, com a sua Esplanada dos Aviadores, a Rua de Lisboa, a Pracinha da Igreja e o Largo do Dr. Regala.

 

Nas noveletas (assim chamadas modestamente pelo seu autor) o leitor é guiado na toponímia da cidade enquanto o autor, como verdadeiro cicerone vai caracterizando a geografia económica e humana. É bom não perder de vista a importância pedagógica e manipuladora desta atitude de cicerone.

 

A “Morada” funciona como o centro da vida sanvicentina em que há um movimento pendular de atracção <--> repulsão; centro <--> periferia, em busca de uma melhoria social e económica.

 

Melhoria económica, na baía do Porto Grande, nas casas das senhoras da Praça Nova, num lugar favorável para o comércio evitando, assim, acabar os dias no Rabo da Salina, ou em outro sítio qualquer;

 

Melhoria social, pois é ali onde se adquire o estatuto de Dona, como são os casos das donas Lolinha e Zulmira, enquanto outras ficam Nhas, como Nha Candinha, Nha Maria Arcângela[2];

 

Melhoria espiritual, na procura da Igreja Matriz para o alimento espiritual.

 

O coração da cidade é apenas referido como lugar de onde saem caminhos para os bairros periféricos. É o caminho da Praça Nova, em direcção ao norte, que vai dar ao Madeiralzinho (Noite de Vento, 1970); a Pracinha do Dr. Regala que leva aos bairros do lado oriental, como o Alto de Celarine e a Fonte Filipe, e ao sul a Chã de Cemitério (O Enterro de Nha Candinha Sena, 1957). É a Rua de Lisboa que leva ao Alto de Celarine (Biluca, 1977) ou é a Rua António Nola, que leva ao Lombo (Pródiga, 1956, e Virgens Loucas, 1971).

 

Os bairros periféricos são enumerados na novelística de Aurélio Gonçalves mas, os que realmente constituem o espaço de montagem das novelas e, por isso, bem caracterizados, são a Fonte Filipe (Noite de Vento), o Alto Celarine (O Enterro de Nha Candinha Sena) e o Lombo (Pródiga e Virgens Loucas).

 

Fonte Filipe é apresentada como um morro onde há vento que vem de longe, que se levanta “traçando o desenho de uma pirâmide a oriente da cidade, impedindo o seu alargamento em direcção à Ribeirinha”. A paisagem “árida, escura, de uma cor suja de terra sem húmus, ao abandono” onde se dispersa “um casario de construções variadas na sua pobreza, compreendendo desde as filas do rés-do-chão com paredes de alvenaria, cobertas de telha, habitáveis, até às barraquinhas levantadas sobre ripas forradas de lona”. A população tem um viver difícil e incerto mas resignado: “as mulheres ‘sobem’ o seu cuscuz, fazem o seu giro, compram e revendem confeitarias […], os homens andam pela cidade a ver se tiram um dia de serviço”. Enfim, são sketchs, instantâneos do quotidiano da “vidinha de SonCente”

 

Alto de Celarine, como próprio nome o define, é um alto que fica nas proximidades da Fonte de Cónego e da Fonte Filipe, com as mesmas características socioeconómicas deste.

 

Lombo é o desembocadouro da Rua António Nola, pálida lembrança de um “Mindelo de há muitos anos, com um porto animado de um movimento tumultuoso, insuflando vida a uma população atarefada e variada de trabalhadores da baía, delirando em bailes a pau-e-corda, oferecendo ligações fáceis, consumindo vidas”. A sociedade do Lombo é constituída por gente de muitos ofícios, alguns empregados, outros com a vida no ar, sem ocupação. A sua animação deve-se ao “marítimo que vem de longe, cansado de mar, faminto de terra firme, de mulheres, sedento de álcool e com vontade de dançar, de fazer doidices”.

 

[…]

 

___________

[1] Chama-se atenção para o facto de A Consulta ter sido originariamente publicado no Boletim Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, N.º 32, Praia, Maio de 1952, com a seguinte observação do autor: “Capítulo de um romance em preparação: A Noite de Vento. Um outro facto importante é que a personagem masculina Virgílio é comum aos dois textos. Em Noite de Vento é o marinheiro que faz o seu “giro” entre Santo Antão e são Vicente e, em A Consulta, é o filho de Nhô Serafim Pedro da Graça que acompanha o pai, que vem de Santo Antão, ao consultório médico, em São Vicente. Talvez isso explique e reduza para apenas um único texto a evocação de Santo Antão, bem assim o facto de o protagonista em A Consulta ser feminino.

[2] Confronte com o conto Nocturnos de D. Emília de Sousa”, in Raízes, N.º 1, Praia, 1977, em que Baltasar Lopes explica a degradação do status social como consequência directa da degradação económica: “No princípio, ela não era Nha Milinha. Este acidente veio vindo, veio vindo, com passos aveludados à procura da presa, até que a encontrou… a presa não era lá muito arisca, mas tinha defesas que as conveniências do mundo e da fortuna haviam eriçado como sebes passivas, à sua volta. Dona Emília de Sousa nunca se deu conta de como, hoje uma, amanhã outra, as ramadas já secas da sebe se iam desconjuntando”.

 

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 24.02.2015 às 20:46

Considero os contos do Dr. Gonçalves obras a trazer quando se parte. Dos dois vendavais que tive, consegui salvar alguma coisa do meu antigo professor mas penso não ter o primeiro dos seus seus contos, seja: - "O enterro de Nha Candinha Sena".

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