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Jonas Whanon.jpeg

Jonas Whanon, Cais Acostável do Mindelo, aquando da sua emigração para o Brasil (São Paulo), 1962. Foto gentilmente cedida pela filha Judith Wahnon (USA). 
Legenda (Esquerda para a direita): João Cleófas Martins, Ildo Feijóo, Carlos Rocheteau, Carlos Pinto Wahnon, Manuel Rodrigues, Sérgio Frusoni, Manuel Serra, Baltasar Lopes da Silva e Jonas Wahnon (à frente).

 

 

Boletim Cabo Verde.png

Sob este título, vem publicado no nº 93 do "Cabo Verde” um extenso artigo da autoria do Exmo. Sr . Dr. Bento  Levy, no qual, entre vários assuntos, este sr. não só insinua  que existe da parte  dos habitantes de S. Vicente uma grande rivalidade com a Praia, senão também que, pessoas responsáveis, devido à paixão que as move, teriam tentado ou vão tentar a mudança da Capital da província para S. Vicente.

 

O sr. Dr. Bento Levy atirou pois, a luva  sobre duas questões, uma das quais, a transferência bastante oportuna e pede que “responda quem  tiver... resposta” . -. . . .

 

Pela parte que me toca, aceito o repto, esperando que outros se me seguirão breve na resposta que também tiveram, por haver chegado o momento de S. Vicente acordar e sacudir de si os parasitas que vêm impedindo o seu progresso e o progresso desta Província, não obstante o carinho que lhes vem dispensando o Governo da Nação.
 

O sr. Dr. Bento Levy é uma criatura que merece maior consideração, e por isso me repugna acreditar que, intencionalmente, tenha querido desvirtuar os factos, pretendendo criar um problema – o da rivalidade  com a Praia, que jamais  existiu no espírito dos habitantes de S. Vicente –, apenas com o propósito deliberado de estabeIecer confusão e colocar os incautos em posição perante o estudo dos problemas que enfrenta Cabo Verde.

 

E o sr. Dr. Bento Levy se desse ao trabalho de estabelecer paralelo entre as duas cidades, Praia e S.  Vicente, logo veria o erro que labora, pois nunca S. Vicente poderia alimentar qualquer rivalidade com a Praia. O inverso é que seria admissível. Senão, vejamos:

 

S. Vicente como é de todos sabido – e o sr. Dr. Bento Levy o ignora, contribui para o erário com cerca de 75% das receitas totais da Provincia de Cabo Verde. Isto quer dizer, sem a mais leve contestacão, que S. Vicente é que alimenta a quase totalidade da máquina administrativa do arquipélago, inclusivamente a da Praia, não obstante ser a ilha de S. Tiago o seu maior centro populacional, mas também, diga-se de passagem, o maior centro de pessoas analfabetas.

 

S. Vicente é a única ilha desta Província pela qual passam diariamente, sem interrupção, muitas dezenas, senão centenas de estrangeiros e nacionais, ou sejam, os passageiros e os tripulantes dos inúmeros vapores de todo o mundo que escalam o seu porto.

 

S. Vicente é a única ilha visitada pelos mais altos vultos políticos nacionais e estrangeiros, como sejam Presidentes de Repúblicas, Reis, Príncipes, Ministros, Embaixadores, etc., bem como jornalistas de todas as nacionalidades, professores, cientistas, turistas, possivelmente, até observadores, salvo as duas vezes em que Sua Exª Presidente da nossa República bem como a sua comitiva também visitaram a Praia.

 

S. Vicente é a única ilha do arquipélago visitada frequentemente pelos maiores e mais importantes navios de guerra de todo o mundo, que transportam os mais destacados oficiais (almirantes, comodores, etc.).

 

S. Vicente é a única ilha de Cabo Verde que possui instalações para o abastecimento de combustíveis à navegação, bem como instalações de cabo-submarino que a ligam e ligam Cabo Verde a todas as partes do mundo e cujos valores se poderão calcular em centenas de milhares de contos.

 

S. Vicente é a única ilha do arquipélago que se encontra em permanente contacto com o exterior, através dos navios paquetes, outros vapores que escalam diariamente o seu porto.

 

S. Vicente é a única ilha que possui valor militar, pela sua situação geográfica e pelos valores materiais avultadíssimos que nela se contêm.

 

Em S. Vicente,  por isso, é que se encontram instalados o Comando Militar de Cabo Verde e a maior concentração de forças militares e aquartelamentos da Província.

 

Em S. Vicente é que se encontram instalados os consulados de quási todas as nações.

 

Em S. Vicente é que, devido à sua irrefutável importância, o governo da nação vem investindo dezenas de milhares de contos na construção de um cais acostável; e finalmente, S. Vicente é a única ilha do arquipélago à qual todos – nacionais e estrangeiros – se referem quando tenham de mencionar a terra portuguesa do Atlântico qua liga a Europa às Américas ou quando se tenha que referir o elo que liga Brasil a Portugal.

 

O sr. Dr. Bento Levy talvez tivesse tomado como rivalidade ou paixão de S. Vicente para com a Praia, o facto de  todos lamentarem que se esteja ultimamente desenvolvendo a cidade da Praia com inúmeras construções urbanas de preço elevadíssimo (milhares de contos) sem olhar à pobreza do meio e com manifesto desprezo pelas necessidades mais prementes das outras ilhas, nomeadamente S.Vicente, que pouco ou nada vê dos 75% das receitas totais da Província com que contribui anualmente para equilibrar o orçamento.

 

Talvez tivesse tomado como rivalidade, o facto de se lhe haver referido durante a sua estadia em que a todos agradaria aqui, ver a ilha de Santiago devidamente apetrechada com boas estradas, bons portos, celeiros, etc., em lugar dessas obras de fachada que já se construíram ou se vêm construindo na Praia em ritmo acelerado, obras sem significado algum para o fomento dessa ilha nem da Província, antes constituindo verdadeiro peso morto na sua economia, para único gáudio dos habitantes dessa cidade, que são, praticamente, as únicas pessoas que as vêm, pois estranhos, só se foram os tripulantes de dois pequenos vapores da CUF que escalam mensalmente o porto.

 

Talvez ainda tivesse o Dr. Bento Levy tomado como rivalidade, o facto de havermos enumerado as referidas obras, as quais são mais ou menos constituídas pelos seguintes:

 

Um palácio da SAGA, um grandioso Palácio de Justiça (que só retretes dizem possuir 18), um grandiosíssimo Liceu para a instalação da delegacia do Liceu Gil Eanes instituída ultimamente na Praia (consta que com vista à transferência da Sede que se encontra instalada em S. Vicente), um cineteatro, prédio para magistrados, inúmeros prédios para outros funcionários, blocos de casas para particulares, etc., além de vários automóveis distribuídos  a quási todos os chefes de serviços, como se coubesse ao Estado construir de novo uma cidade, onde os particulares pouco ou nada vêm fazendo para o seu desenvolvimento como se esta Província andasse a nadar em dinheiro e já não houvesse mais nada que fazer para o fomento das ilhas.

 

Pelo que, pois, se vê, o sr. Dr. Levy ou está enganado ou quer enganar os outros. Não existe, nunca existiu nem podia mesmo existir rivalidade de S. Vicente com a Praia, uma pequena cidade composta apenas por quatro pequenas ruas e cujo mérito é ter a capital da Província, porque nem como escoadouro natural dos produtos produzidos pela ilha de S. Tiago serve.

 

O que existe realmente – e sabe o sr. Dr. Bento Levy perfeitamente – é o desejo sincero de toda a gente, que haja uma aplicação mais útil e de melhor alcance económico dos dinheiros da Província para o bem-estar do seu povo e orgulho de Portugal; o que existe ainda é o desejo de que os indivíduos que se encontram à testa dos serviços públicos na Praia tenham uma influência mais benéfica na administração da Província em lugar de pretenderem, por  norma “colonialisar" S. Vicente negando-lhe sistematicamente todos os meios de progresso, sem quererem lembrar-se de que, se um dia faltassem à Província as receitas desta ilha, toda a máquina administrativa do arquipélago se desmantelaria.

 

Os referidos funcionários não se dão conta de quanto maior fôr o desenvolvimento de S.Vicente, maiores serão as suas receitas que irão influir em beneficio de S. Tiago como das demais ilhas suas irmãs.

 

Ao contrário do que acontece na Praia, onde as construções urbanas se vêm fazendo pelo Estado, é claro, da forma mais acelerada que imaginar se possa, S. Vicente possui um pequeníssimo Tribunal numa casa quási  secular que dantes era habitação particular e que não é património do Estado; o Liceu não obstante fundado há  40 anos, funciona num prédio que foi, sucessivamente quartel, correio, Liceu, Câmara, Fazenda e não sei que mais; não possui nenhum prédio para magistrados nem outros funcionários: os cineteatros que existem são particulares, como particulares são quási todas as obras de valorização da cidade; não tem um só hotel; não tem esgoto; não tem água canalizada; a luz é precária; os pavimentos das ruas são uma miséria, não possue estradas dignas deste nome, e os caminhos carroçáveis que existem  aIguns encontram-se há anos intransitáveis, etc. etc.

 

A burocracia da Praia não quer compreender que sendo S. Vicente a sala de visitas da Província de Cabo Verde, a qual, por força, manifesta perante estranhos tudo quanto de bom ou de mal pratica a nossa administração pública, tem, necessariamente, de merecer mais e melhores cuidados, sobretudo para evitar que observadores mal intencionados, nesta época conturbada do mundo se tenham de referir às Províncias Ultramarinas de Portugal pelo que vêm nesta ilha, aquilatandos-as todas por igual.

 

Quanta à mudança da capital da Província de para S. Vicente, pensa-se nisso efectivamente e oportunamente se apresentarão respectivas razões aos poderes Centrais na Metrópole para resolverem como fôr mais conveniente.  Mas pensa-se nisso não por rivalidade com a Praia nem por paixão como insinua o sr. Dr. Bento Levy no seu infelicíssimo artigo. Pensa-se por estar dentro da sua boa lógica, está dentro da sua boa razão e porque a Capital, a continuar na cidade da Praia como até aqui, apenas contribuirá como tem sempre contribuído com o exclusivismo desta cidade, para a estagnação da Província e o retrocesso de sua maior fonte de receita.

 

S. Vicente, o que não admite dúvidas, é a ilha economicamente mais importante da Província de Cabo Verde, a que possui maiores valores materiais e culturais, a que se encontra em permanente contacto com estrangeiros e com a metrópole através do magnífico e afamado porto, e é onde as necessidades burocráticas, digam o que disserem, mais se fazem sentir, e a permanência do governador mais seria de desejar.

 

A Praia fica-lhe distante, separada por mais de 160 milhas, sendo tão escassas as suas comunicações que ainda há pouco tempo era muito mais fácil a comunicação de S. Vicente com a Metrópole ou com o Japão do que com ela.

 

Além disso, o intercâmbio comercial com as outras ilhas de Sotavento, nomeadamente o Fogo e a Brava, é muito maior com S. Vicente, que todos preferem, pois o comércio com S. Vicente é muito mais vasto, os seus preços são mais acessíveis, existem mais facilidades de crédito, etc.

 

Assim, nada justifica que a Capital da Província se mantenha na Praia. Não há  duas opiniões a este respeito salvo a do sr. Dr. Bento Levy. Isto não é ter rivalidade com a Praia nem com os habitantes de S. Tiago. Tão pouco se encontra o remédio no maior intercâmbio entre as populações das duas ilhas, o que de nada valeria com o de nada tem valido, sabido que a deslocação de S. Vicente até Praia tem sido mais frequente do que imagina o sr. Dr. Bento Levy.

 

Afirmar o contrário será pelo gosto apenas de estabelecer um ambiente de permanente desconfiança entre todos, o que, agora, conforme declara o sr. Dr. Bento Levy no seu artigo, poderá, efectivamente, “gerar incompreensão e provocar até ressentimentos”.

 

É o que se me oferece dizer por enquanto, a bem de Cabo Verde e da Nação a que me honro e orgulho de pertencer.

 

− Jonas Whanon

 

S. Vicente, 5 de Julho de 1957

 

Nota: Texto integral obtido de uma cópia da carta original facultada por Luiz Silva.

 

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3 comentários

De Valdemar Pereira a 05.06.2016 às 08:59

O sr. Jonas Wahnon, dinâmico industrial mindelense, foi um dos membros das Forças Vivas que, do Mindelo, defendiam os interesses de Cabo Verde sem qualquer receio, mesmo depois de alguns deles terem experimentado as masmorras da Colónia Pela de Tarrafal.
Desportista, foi bom praticante do cricket e foi Presidente do glorioso Clube Mindelense o que não lhe impediu, por descontentamento, de ser o co-fundador do efémero Sporting Clube de S.Vicente, com o então Capitão dos Portos Daniel Duarte Silva (sobrinho-neto do sábio químico santantonense Roberto Duarte Silva)  e outros.

De josé Lopes a 05.06.2016 às 10:36

UN VEZ, GENT' DE SONCENTE CÂ TÁ LEVÁ D'SAFOR PÂ CASA..."Uma carta de Jonas Wahnon (2º das Foto), um importante comerciante da praça mindelense (proprietário da célebre padaria que ficava na Chã de Cemitério em S. Vicente) datada de 60 anos, ao seu amigo Bento Levy (1º das Foto) um importante advogado e político, natural da Praia-Santiago, e influente deputado de Cabo Verde na então Assembleia Nacional em Lisboa, em pleno regime de Estado Novo. Ambas as figuras de destaque foram homenageadas nos Blogues ArrozCatum e Praia de Bote.
Como bem recorda Luiz Silva, Jonas Whanon era um “enfant terrible” conhecido pela sua rebeldia contra o regime colonial, fazia parte do grupo dos Claridosos políticos e deu muitos suores ao regime de Salazar assim como muitos intelectuais mindelenses, razão por que ser despachou de Lisboa um importante destacamento da Pide para calar a boca contestatária que se levantava contra o abandono a que Cabo Verde se encontrava quando O Porto Grande começou a perder influência em favor de Las Palmas e que os ingleses anunciavam a sua retirada futura na ilha diminuindo os investimentos.
Esta carta é uma resposta a Bento Levy por ter insinuado que existia da parte dos habitantes de S. Vicente uma grande animosidade com a Praia. Na realidade tratou-se de uma polémica que se estalou entre as duas cidades numa altura em Lisboa considerava seriamente a transferênciadefinitiva da capital de Cabo Verde para a cidade do Mindelo, que era, como reclama Whanon, a única cidade digna do seu nome em Cabo Verde com todas características urbanas de qualquer cidade no mundo, e onde se concentrava a massa crítica do arquipélago, para além de produzir 75% do PIB de Cabo Verde, já lá vão 60 anos.

De josé Lopes a 05.06.2016 às 10:38

Hoje a geração Jonas ao ver o estado de cabo Verde da sua ilha deve dar voltas de indignação nas suas tumbas. Há 60 anos Jonas já acusava o novo-riquismo e a superficialidade da elite administrativa carreirista, totalmente desgarrada, vivendo numa redoma dourada, ignorando a realidade da ilha (vivendo em castelos rodeados pela ‘choqueira’) e do arquipélago:” O sr. Dr. Bento Levy talvez tivesse tomado como rivalidade ou paixão de S. Vicente para com a Praia, o facto de todos lamentarem que se esteja ultimamente desenvolvendo a cidade da Praia com inúmeras construções urbanas de preço elevadíssimo (milhares de contos) sem olhar a pobreza do meio e com manifesto desprezo pelas necessidades mais prementes das outras ilhas; nomeadamente S.Vicente, que pouco ou nada vê dos 75% das receitas totais da Província com que contribui anualmente para equilibrar o orçamento.” 

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