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Nova Teoria do Big Bang do MC

Brito-Semedo, 6 Out 14

 

Dedona MC.jpeg

 

 

Para o Amigo e Jornalista Cultural José Vicente Lopes, em dia de Aniversário.

 

 

Mesmo sem um sistema de Contas Satélite de Cultura em Cabo Verde capaz de estimar todos os dados, o Ministro da Cultura apresentou no passado dia 1 de Outubro os resultados de um estudo sobre a economia da cultura e as conclusões a que chegou: “A cultura representa o segundo maior produto da exportação em Cabo Verde, ultrapassado apenas pela área das pescas”.

 

Na pressa em chegar primeiro ou querer mostrar que tem ideias e faz coisas, mais a ânsia em mostrar resultados, o Ministro da Cultura já deu tantas topadas que já não deve ter a barriga do dêdóna (1). A sua última topada foi na semana passada na apresentação do estudo "Contribuição do Sector Cultural na Economia Cabo-verdiana".

 

Os agentes culturais presentes no auditório da Biblioteca Nacional terão ficado convencidos (?!) do peso da cultura na economia de Cabo Verde pelas evidências dos números apresentadas pelo Senhor Ministro: “o sector da música, nos últimos anos, exportou produtos no valor de sete milhões de contos (63,5 milhões de euros) e deu emprego a 19.200 pessoas no território nacional, o equivalente a 10,6% da força do trabalho nacional. Se se tiver em conta todas as áreas culturais, a cultura movimenta 177 mil pessoas, o mesmo número que a força de trabalho nacional”.

 

Esses dados foram conseguidos, segundo o MC, apesar das limitações existentes como “a falta de uma base de dados sobre a cultura no Ministério das Finanças e no Banco de Cabo Verde (BCV) e de uma ‘conta satélite’ no Instituto Nacional de Estatística (INE)”.

 

Big Bang.jpeg

 

Ler isso nos principais jornais da praça levou-me a viajar pelos conceitos de astronomia, entre satélites, caudas de cometas, sistemas solares, chuvas de meteoros, Rei-Sol, marés da lua, até à queda no imenso e infindável buraco negro!

 

Pelo seu impacto em Cabo Verde, seus arredores e no mundo, isto equivale à formulação de uma nova teoria do Big Bang ou a Grande Explosão, a teoria cosmológica dominante do desenvolvimento inicial do universo, agora para explicar o peso da cultura na economia das nossas ilhas bem sonhadas.

 

De imediato contactei espertos nacionais, muni-me de conceitos essenciais da cultura e da economia, adicionei informações de outras latitudes, juntei tudo e cá estou num acto cultural utilitário de partilha sem fim lucrativo.

 

A nova teoria do "Big Bang" do MC é sustentada por explicações completas e precisas a partir de evidências científicas disponíveis no estudo "Contribuição do Sector Cultural na Economia Cabo-verdiana" do consultor da UNESCO, na observação do panorama cultural e na realidade empírica.

 

Mas, afinal, o que vem a ser uma Conta Satélite? Trocado por miúdo, é um “zoom” feito às Contas Nacionais, com informação detalhada por actividades económicas (agricultura, silvicultura, pesca, turismo, etc.), por grupos de agentes com características homogéneas de comportamento e por grandes funções colectivas (ambiente, protecção social, saúde, educação, justiça, cultura, etc.).

 

Contas.jpeg

 

A Conta Satélite da Cultura pretende ser, assim, o instrumento mais adequado para estimar a dimensão e a importância da cultura na economia e obter informação sobre a estrutura de produção das actividades relacionadas com a cultura.

 

Voltemos à topada do Senhor Ministro e à barriga do seu dêdóna. Mesmo sem um sistema de Contas Satélite de Cultura em Cabo Verde capaz de estimar todos os dados, o Ministro da Cultura apresentou no passado dia 1 de Outubro os resultados de um estudo sobre a economia da cultura e as conclusões a que chegou: “A cultura representa o segundo maior produto da exportação em Cabo Verde, ultrapassado apenas pela área das pescas”. MC, dixes. E esta, hem?!

 

Alerto para o facto de que se está a correr o risco de ampliar demasiadamente a extensão do que pode ser comercializado dentro da categoria “cultura”, restando poucas opções para uma transformação social. É que nem toda a cultura é feita para gerar rendimento, exportação, emprego, e outros índices que se agregam às estatísticas da Economia.

 

Sejamos sérios!

 

___________

(1) Dedão, dedo grande do pé.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

9 comentários

De zito azevedo a 06.10.2014 às 19:37

ESTA VISÃO ECONOMICISTA DA CULTURA, COMO SE UM BEM DE SUPERMERCADO SE TRATASSE, NÃO LEMBRARIA, NEM A PASSOS COELHO...
O SENHOR MC ANDA A CONFUNDIR A CULTURA DO ESPÍRITO COM A PRODUÇÃO DA BATATA-DOCE...UMA CULTURA PARA O ESTÔMAGO...
Braça
ZitoAzevedo

De Valdemar Pereira a 06.10.2014 às 21:06


Sempre pensei que, dado os nossos parcos recursos, o País podia contentar-se com uma Secretaria de Estado da Cultura mas depois de ter lido o Ministro desta pasta, fico hesitando se não seria a Agricultura a ter um Sub-Secretário de Estado já que a Cultura nos dá mais benefício (?) do que a  Agricultura.


 

De Adriano Miranda Lima a 06.10.2014 às 22:30

Este tema é interessante e oferece pano para muita manga. Mesmo muita manga, e tempo e espaço houvesse para a estendermos convenientemente sobre a mesa do alfaiate.

Desde logo, me vem à lembrança a visão que o filósofo e pedagogo Agostinho da Silva tinha do futuro do homem e do mundo em que vive. Dizia que dia chegará em que toda a actividade produtora de bens (leia-se economia) será garantida por robots e máquinas, cabendo apenas ao homem gozar as delícias do espírito (leia-se cultura). Ora, bem se vê que estava longe da mente do filósofo o conceito polissémico em que a palavra cultura se prende com o sentido funcional e lucrativo que é inerente à economia. Dir-se-á que para ele a cultura estará sempre à jusante da actividade económica. Então a cultura, a verdadeira, só pode ser vista num quadro antropológico ou sociológico onde cabe toda a expressão interpretativa dos valores, atitudes, crenças, costumes e sentimentos partilhados por um grupo humano.

Embora se reconheça como emergente o fenómeno do empresariado e da indústria da cultura, divulgando e banalizando os produtos do  seu consumo corrente, e numa massificação sem precedentes, crê-se que a essência dos valores culturais jamais será compatível com os conceitos tradicionais que modelam a economia e balizam a actividade clássica do mercado. Daí que o Brito Semedo tenha toda a legitimidade para perguntar ao ministro da cultura de Cabo Verde em que critérios e factores de mensuração infalíveis se baseou para chegar aos valores que justificam o seu júbilo. É caso para se lhe perguntar se um grupo de rapazes que faz uma serenata à janela de uma “tchutcha” em noite enluarada entrou também no seu cálculo contabilístico.

É claro que os discos que se vendem, os filmes que se projectam ou as peças teatrais que se exibem têm o seu valor de mercado. Mas não se veja o apoio que o Estado dá à actividade cultural como um adutor da economia, apenas como um complemento da vertente educacional e da promoção social e como uma contribuição para o cimento da identidade nacional. Afinal de contas, a cultura é uma nata preciosa que se tem de manter imune a certos contágios, resguardando-a sobretudo de voluntarismos bacocos.

O filósofo Agostinho da Silva estava certo na sua visão futurista e o Professor Brito Semedo é de grande pertinência na sua denúncia clarificadora.



 



 

De Carlos Filipe Gonçalves a 07.10.2014 às 11:03

Confesso que na verdade, este estudo da UNESCO, baralhou-me a cabeça... Não consegui lê-lo devido à sua linguagem «hermética», e perdi o apetite para o ler! As noticias veiculadas pela imprensa sobre as declarações do Sr. MC baralharam-me ainda mais a cabeça, sobretudo esta, da «conta satélite». Disse para comigo, estás a ficar velho, isto é problema para o meu neto! Felizmente o Brito Semedo, dá uma ajuda na compreensão desta «Teoria do Big Bang» à cabo-verdiana, mas mesmo assim continuo pasmo! O que me veio à mente logo de imediato, foi isso: Essa malta já está à procura de mais uma fonte de impostos! Querem botar a mão nos parcos recursos que os nossos músicos, ganham com muito suor no estrangeiro, e como na banda desenhada do Tio Patinhas, o sucesso da Cesária, fez aparecer dois cifrões nos olhos da malta...  Uma visão muito economicista da cultura poderá  contribuir para matar a criatividade e promover a mediocridade! Ou seja, muito bem para aqueles que com qualidade (como a Cesária) ganharam ou ganham dinheiro com a cultura! Mas, fazer da cultura, uma panaceia universal, para resolver o problema do desemprego em Cabo Verde, tenham paciência? Assim sendo, vamos todos almejar ser uns Baltasar ou Nhô Roque para vender uns milhares de livros no estrangeiro... ou vamos todos querer ser Cesária Évora e vender uns milhares de discos... O que não se sabe ou não se quer ver é que estes são génios e os génios aparecem de 100 em 100 anos! Os génios são uma excepção! Pensar que todos os cabo-verdianos são génios é demasiado infantil!  

De Anónimo a 07.10.2014 às 19:00

Mi n ne mim....

De Brito-Semedo a 07.10.2014 às 22:58

Comentário enviado pelo amigo Arsénio de Pina com o pedido da sua inserção no post:

Essa supercontribuição nacional da Cultura ao nosso PIB, divulgada pelo Ministro da Cultura, fez-me recordar algo de teor semelhante, que se passou numa altura em que o Dr. Gualberto do Rosário era ministro, ou primeiro-ministro, durante uma reunião da Associação Comercial de Barlavento, na qual ele se referiu à grande abundância de cocos em Cabo Verde, sugerindo o seu aproveitamento para a exportação e industrialização. O impagável e repentista amigo Paquei, que Deus haja, que fazia parte da reunião, estranhando tamanha abundância desse produto nas nossas bandas, teria perguntado ao  ministro se não haveria engano na acentuação da palavra; talvez o Dr. Gualberto do Rosário quisesse dizer abundância de côcôs...
Presumo que o Ministro da Cultura teria querido referir-se ao efeito negativo da Cultura no nosso PIB, dado o número de artistas e técnicos culturais no desemprego.
Arsénio de Pina

De Joaquim ALMEIDA a 08.10.2014 às 09:05

Estive ausente algum tempo por motivos alheios à minha propria vontade , mas mesmo ao lado desta " Esquina " ,...do outro lado , mas que me permetia ouvir de vez enquando ( uns zuzuns ) mas que nao me despertava suficientemente curiosidade para dobrar  a esquina !..Mas hoje ao ler esta sugestao do nosso malogrado o imcomparàvel " Djô Paquei " , em relaçao às palavras do nosso ex ministro Dr . Gualberto do Rosàrio , nao pude resistir .. a uma boa gargalhada ? Os nossos atores desse tipo de " brejeirice " està desaparecendo ( com tristeza ) do meio saovicentino !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho !.. 

De José F Lopes a 09.10.2014 às 09:25

Parece que Cabo Verde tem um grande potencial para a Cultura, mas é necessário uma visão integrada do seu desenvolvimento na economia global do país. A maneira como se organiza uma cidade do ponto de vista de actividades culturais é para mim o mais importante. A cultura não é só musica e Festivais. Para mim o centralismo cultural é anti-cultura . E nestes aspectos todos estamos na idade da pedra.

De Anónimo a 11.10.2014 às 18:38

Chego um pouco tarde, meu caro, porque esses dias têm sido mais de consumo, mas ainda a tempo de deixar o meu "pé na impena" dessa Esquina. Na verdade há uma obsessão por números em Cabo Verde, não na óptica analítica ou programática, mas sim de reclamar louros ou para exibir. Duvido muito desses números por não saber até que ponto, na verdade, se paga pela cultura ou seja, aos seus fazedores. A cultura é de facto uma grande fonte de receita ou devia ser. O Germano mandou bem, como diz o brasileiro, sobre a política cultural que, para mim, continua a ser mais governamental do que cultural. Falta ainda uma verdadeira política de promoção (não de eventos do Governo) mas da Cultura, que permita aos fazedores caminharem pelos seus próprios pés, mesmo quando este Governo e o ministro ML fizerem parte da história. Recordo a proliferação de iniciativas do antigo ministro António Jorge Delgado, mas o que ficou? Alguns palácios de cultura e nada mais. E quando o MC sair, o que fica? AME e alguns curadores que de tanto trabalho acumulado não conseguem dar conta do recado, por falta de uma verdadeira política a médio e longo prazo? Estaremos aqui na Esquina...

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