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Bode Expiatório

Brito-Semedo, 3 Out 14

 

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Para o Amigo Álvaro Ludgero Andrade, Jornalista dos tempos aziagos.

 

 

Em finais deste mês de Outubro, inicia-se um novo ano político e judiciário com o debate no Parlamento sobre o estado da Justiça. É já esperado por todos os cabo-verdianos que se vai recorrer à propaganda política e trazer preso por uma cordinha o bode expiatório dos anos 90.

 

A matriz judaico-cristã inculcou na formação dos cabo-verdianos o sentido do pecado e o ónus da culpa. Daí a dificuldade em pedir desculpas, pior ainda, pedir perdão porque seria, implicitamente, reconhecer o erro e confessar a culpa.

 

Desde muito cedo aprendemos a reagir ao apontar do dedo e a nos desculparmos face às incriminações: – Mim, n’ ê mim! Mim n’ ê culpódel (1).E procura-se ou inventa-se um culpado, um bode expiatório, no sentido figurado do termo.

 

Será por isso que se diz que a culpa sempre morre solteira?

 

Na verdade, a história do bode expiatório reporta-se às cerimónias hebraicas do Dia da Expiação, na época do Templo de Jerusalém. O rito é descrito na Bíblia, no Velho Testamento, no livro do Levítico (capítulo 16).

 

No Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, o texto central do judaísmo, também conhecido como Torá, dois bodes eram levados, juntamente com um novilho, ao lugar de sacrifício do Templo de Jerusalém.

 

Os sacerdotes sorteavam um dos bodes, sendo que um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o novilho e o outro se tornava o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente para ser reclamado pelo anjo caído.

 

No Novo Testamento, na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do auto-sacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da Humanidade, tendo sido expulso da cidade sob ordem dos sacerdotes. Tipologicamente, o bode expiatório é a figura do Messias.

 

Outra visão muito popular no cristianismo é que os dois bodes são símbolos de Cristo e Satanás, uma vez que a expiação propriamente dita se realiza com a morte do primeiro bode. E como não existe expiação sem "derramamento de sangue" (Hebreus, 9:22), não há expiação pela morte do segundo bode. Este é levado para o deserto, onde reflectirá sobre a obra maléfica que realizou contra os seres humanos, e morre à míngua.

 

Este texto e esta imagem bíblica vêm a propósito de, em finais deste mês de Outubro, se iniciar um novo ano político e judicial com o debate no Parlamento sobre o estado da Justiça. É já esperado por todos os cabo-verdianos que se vai recorrer à propaganda política e trazer preso por uma cordinha o bode expiatório dos anos 90 e culpar o Movimento para a Democracia, o MpD, pelo seu tempo de governação, opondo-o aos muitos ganhos conseguidos pelo Partido Africano para a Independência de Cabo Verde, o PAICV, nestes treze anos de governação.

 

Nada que não seja recorrente neste nosso Cabo Verde onde nesses seus 40 anos de existência como país independente, já se vai, nada mais, nada menos, que em 3 bodes expiatórios: o bode expiatório do colonialismo (BEC), trazido do mato nos anos setenta pelo PAIGC, culpando-o de todos os pecados possíveis e imaginários; o bode expiatório do partido único (BEPU), criado pelo MpD nos anos noventa, esconjurando-o como o Belzebu; e o bode expiatório do único partido (BEUP), alimentado pelo PAICV, desde dois mil quando voltou de novo ao poder, como factor de bloqueio.

 

Não se pense, contudo, que esses bodes expiatórios – BEC, BEPU e BEUP – se substituem de forma linear ou sucessória. É que por vezes coexistem e são evocados conforme o debate, a afirmação, um novo olhar apresentado, ou mesmo a publicação de um livro. E vai-se então rapidamente ao deserto buscar aquele bode que melhor convém para a peleja.

 

- Mim, n’ é mim! Mim n’ ê culpóde!

 

Perfila-se já um próximo bode expiatório a partir de 2016, quando José Maria Neves terá já deixado a liderança do Partido e do Governo, o bode expiatório da agenda de transformação (BEAT). Querem apostar?! Quem viver verá!

 

Haja paciência!

 ____________

[1] “Eu, não sou eu. Eu não sou culpado!”

 

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4 comentários

De zito azevedo a 04.10.2014 às 15:01

Meu bom amigo...Só lhe digo que isso cheira mal: cheira a bode!!! Enquanto os politicos não se assumirem como pessoas comuns e não como super-seres, a luta será sempre a mesma -uma guerra de bodes!
Que me desculpem as cabras!
Abraço
Zito Azevedo

De Adriano Miranda Lima a 04.10.2014 às 15:53

O Brito Semedo faz aqui uma denúncia que ninguém de boa mente pode refutar. O "bode do colonialismo" ainda berra e não vai deixar de berrar porque, à falta de outros parceiros de expiação dos nossos males, terá sempre o seu curral dilecto. Mas o curioso é que esta cultura de passa culpa tem alguma coisa a ver com o colonialismo, ou, mais precisamente, com a idiossincrasia do povo que povoou e administrou durante séculos as nossas ilhas. É que em Portugal passa-se exactamente o mesmo "Mim, n’ é mim! Mim n’ ê culpóde!" sempre que há mudança no poder, pelo que se pode dizer que esta é também uma das nossas irrefutáveis heranças. E quando alguns querem repudiar uma vertente das nossas origens - a lusa - eis uma matéria a merecer séria reflexão.

De José F Lopes a 04.10.2014 às 18:13

Gosto de cabras e não de bodes, quanto mais expiatórios

De Anónimo a 05.10.2014 às 02:33

Pena limpa e cirurgicamente exímia, desde os tempos de diazá aos futuros que se antevêem depois do BEAT. Quem continuar "respirando" verá a expiação. E  bode continuará a ser tão crioulo como crioulas são as pedras que as fêmeas dos bodes nos ensinaram a comer. Obrigado pela honrosa referência, dos tempos do café e do gin tonic sem gin do Poeta….

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